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Destinação das baterias não assusta mais eletrificação automotiva

Quase todos os materiais podem ser reaproveitados na reciclagem e transformados também em subprodutos

São Paulo – Ficou no passado o temor de protagonistas da cadeia automotiva nacional, consumidores e sociedade em geral de como seria o descarte da bateria dos veículos eletrificados encerrada sua vida útil.

A bateria é personagem central da economia circular, prática que recupera recursos de forma sustentável. Atualmente existem quatro empresas que já reciclam baterias de carros 100% elétricos e híbridos: Energy Source, Tupy, Lorene e Re-Teck. Elas tomaram a frente no momento de transição energética e trabalham para reaproveitar o material descartado do componente.

“Estamos no caminho do amadurecimento industrial e regulatório da destinação dos materiais das baterias sem contaminar a natureza”, disse David Noronha, CEO da Energy Source, pioneira na adoção de gerenciamento de resíduos conhecida como três erres – iniciais de reduzir, reciclar e reutilizar.

Um passo para ajudar o trabalho de reciclagem é o projeto de lei 2 132/2025, que aborda a política nacional de circularidade das baterias veiculares. O documento foi aprovado pelo Senado Federal em setembro e enviado à Câmara dos Deputados. O texto cria regras para reaproveitamento, rastreabilidade, metas de recuperação de materiais e logística reversa de baterias de veículos híbridos e elétricos.

Para Noronha a bateria não deveria mais ser considerada o calcanhar de aquiles da eletrificação automotiva. “As fabricantes estão mais conscientes sobre a importância de práticas sustentáveis e vêm criando planos de coleta de baterias no fim do ciclo de sua vida útil ou com defeito. Quem compra um carro elétrico hoje também quer saber o que acontecerá futuramente com a bateria.”

O CEO afirmou que agências ambientais e corpo de bombeiros se envolveram nesta discussão e em hipótese alguma permitem que as baterias sejam jogadas no lixo: “O descarte é totalmente correto e seguro”.

Reciclagem também gera subprodutos

Com sede em São João da Boa Vista, SP, a Energy Source iniciou suas atividades fabricando baterias de ion-lítio de aplicação estacionária em 2016. Com o tempo Noronha percebeu que a reciclagem da bateria não existia no setor automotivo.

Com a parceria da Unesp, Universidade Estadual Paulista, a Energy Source desenvolveu e patenteou processo de reciclagem inédito e com baixo impacto ambiental. O avanço da eletrificação fez a empresa expandir operações para a reciclagem de baterias em 2020. A partir daí ela fez acordos com montadoras e acrescentou mais um erre em seus serviços, o de reparo de baterias dos modelos elétricos da Renault. 

As baterias, em sua maioria, são de íons de lítio, compostas geralmente por um cátodo de óxido de lítio e metais de transição, ânodo de grafite, separador microporoso polimérico, coletores de corrente de alumínio e cobre, adesivos poliméricos e uma capa metálica.

A reciclagem recupera metais de maior interesse econômico como lítio, cobalto, níquel e manganês presentes no cátodo da bateria. O processo executado é a hidrometalurgia utilizando ácidos orgânicos para se obter cátodo similar ao original. “Praticamente 100% do material é reaproveitado”.

A Energy Source recicla cerca de 100 toneladas de materiais das baterias por mês, 20 toneladas provenientes de veículos elétricos. A reciclagem pode se transformar em subproduto, como fertilizantes para o segmento do agronegócio. De acordo com Noronha a Energy Source aproveitará está destinação dos resíduos para lançar uma linha de fertilizantes em 2027.

Valor econômico dos metais

Clemente Gauer, diretor da ABVE, Associação Brasileiro do Veículo Elétrico, revelou que o cobre presente nas baterias de lítio é um bom exemplo de metal que pode ser reciclado repetidamente sem perder suas propriedades.

“Com os metais recuperados das baterias é possível construir uma circularidade semelhante. É a diferença fundamental com relação ao petróleo, totalmente consumido após sua queima. O material da bateria segue disponível para recuperação e novos usos”.

Ele lembrou que o volume de baterias de automóveis elétricos no fim da vida útil por degradação ainda é bastante limitado, porque a frota brasileira é relativamente recente: “Parte das baterias encaminhadas à reciclagem chega por situações como recalls ou danos, sem ter necessariamente esgotado a capacidade pelo uso”.

Na avaliação de Gauer o fluxo mais expressivo de reciclagem das baterias que estão entrando na frota hoje deve ganhar escala em cenário de quinze a vinte anos, dependendo da durabilidade, das condições de utilização e do aproveitamento posterior.

“Há um incentivo econômico importante”, destacou. “Assim como ocorre com cobre, alumínio e baterias de chumbo os metais das baterias de carro elétrico possuem valor econômico elevado, que ajuda a tornar viável a coleta e o processamento.”

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