São Paulo – A venda de veículos eletrificados está em alta no Brasil, puxada ainda pelos veículos híbridos e híbridos plug-in, mas cada vez com mais espaço para a expansão dos elétricos puros, que mostram crescente índice de emplacamentos mensais. Preços mais acessíveis, maior autonomia dos modelos e mais opções disponíveis estão movimentando o segmento de elétricos puros, que deverá chegar a 10 mil vendas em 2023, sendo o maior volume histórico anual no Brasil.
Esta projeção é a mais recente da ABVE, Associação Brasileira do Veículo Elétrico, que foi divulgada pelo seu presidente, Ricardo Bastos, durante entrevista exclusiva à Agência AutoData. O executivo acredita que este volume poderá ser ainda maior por causa de importantes lançamentos que aconteceram recentemente e ainda não causaram impacto sobre os emplacamentos. A entidade também reajustou a projeção para os eletrificados, esperando 75 mil vendas em 2023.

A curva de crescimento do segmento ganhou força mais rápido do que era esperado no País: em 2015 foi celebrada a marca de 1 mil veículos híbridos e elétricos vendidos e, oito anos depois, o setor espera chegar a 75 mil unidades. Para 2024 e 2025 Bastos acredita que o crescimento será exponencial, com os eletrificados superando as 100 mil unidades no fim do ano que vem: “Acredito que este ritmo será mantido, mas precisamos de duas coisas: políticas públicas que incentivem a infraestrutura local, com toda a regulamentação necessária, e incentivos à produção local no futuro, para que sejamos fabricantes locais de elétricos e híbridos”.
Caso a projeção para 2023 se concretize o Brasil encerrará o ano com mais de 24 mil veículos elétricos circulando no País e, nas contas da ABVE, todos possuem um ponto de recarga na garagem. A questão são os eletropostos públicos e semipúblicos disponíveis no País, rede que terá cerca de 3 mil unidades até dezembro: o número está sendo atualizado de perto pela entidade porque diversas empresas estão operando a oferta de carregadores e no desenvolvimento de grandes projetos para levá-los para as rodovias, ligando importantes cidades do País.

O número atual é considerado baixo pelo presidente da ABVE, que acredita em um crescimento anual de 20% a 30% para 2024 e 2025, permitindo maior mobilidade, com os carregadores rápidos ganhando espaço no mercado pois muitos dos eletropostos públicos ainda oferecem recarga lenta ou média na maioria dos casos. Até dezembro a relação de eletropostos contra a frota elétrica circulante será de um a cada oito veículos, número distante do considerado ideal pela ABVE, que espera que o mercado chegue à rlação de um para cinco, considerada bastante factível por Bastos.

Para aumentar a disponibilidade de recarga no País uma das grandes empresas que operam neste segmento é a Raízen, através do programa Shell Recharge, que já existia em outros países e chegou ao Brasil há um ano. Até março de 2024 a empresa pretende encerrar a primeira fase do seu projeto com cem eletropostos rápidos instalados, conectando diversas cidades das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, de acordo com Rafael Rebello, diretor de mobilidade elétrica da Raízen Power: “Já instalamos dezessete pontos de recarga rápida e temos mais 35 em fase de instalação. Até março do ano que vem nós queremos, também, chegar à marca de 1 mil carregadores instalados, considerando rede pública, semi pública e privada”.

Para o executivo, existe uma grande questão: espera-se pela chegada da frota ou instala-se a rede para provocar o crescimento das vendas dos veículos elétricos. A Raízen aposta na segunda opção, com uma próxima fase do projeto de instalação de postos já prevista. Rebello acredita que o número de carregadores ainda é baixo, mas a infraestrutura também sofre com outras questões, como a sua baixa eficiência, porque a maioria oferece recarga lenta e muitas vezes não está funcionando. Ele propõe que o mercado avance em eficiência e qualidade dos serviços prestados.
O diretor de marketing da E-Wolf, Thiago Castilha, também acredita que o setor precisa avançar com a profissionalização dos serviços prestados, dotado de regulamentação mais clara e definida para quem fornece a energia e para quem opera os eletropostos, cobrando a tarifa que considera justa e pagando seus impostos como um serviço. O executivo crê que estes pontos ainda não estão claramente definidos e espera que isto avance em breve: “Desta forma o negócio também se tornará mais rentável, sendo economicamente viável, atraindo novos investimentos e chegando na relação ideal de um carregador público para cada cinco veículos elétricos circulando”.

Castilha também citou os eletropostos rápidos como um ponto que precisa avançar no País, junto com um melhor serviço de operação da unidade, permitindo que o usuário reserve com antecedência ou consiga saber se o ponto está funcionando e disponível. Ao apostar no crescimento deste mercado nos próximos anos a E-Wolf comercializa uma linha completa de carregadores da sua própria marca, dos lentos aos rápidos, e também passou a representar a Wallbox, que é a fornecedora global oficial de carregadores para BYD.
Danilo Guastapaglia, chefe de operações da Go Electric no Brasil, passou alguns meses na Alemanha para conhecer mais sobre o ecossistema da eletrificação. Disse que, por lá, a conta é de um carregador para cada dez veículos elétricos, relação que o executivo acha interessante para atender às demandas por recarga pública, mas o número de carregadores rápidos é muito maior do que aqui “O mercado deverá se adaptar e expandir conforme as vendas avançarem, movimento que está acontecendo com o crescimento das vendas de veículos elétricos, mas a estrutura inicial precisava ser criada também para estimular a demanda”.
Guastapaglia opina que, nos próximos anos, conforme o mercado elétrico crescer, a infraestrutura seguirá pelo mesmo caminho, mas com uma mudança na comparação com a rede atual porque os carregadores rápidos e ultra rápidos estarão mais presentes no País, substituindo uma parte dos carregadores públicos lentos.
De olho nessa fatia de mercado a empresa inaugurou um hub de recarga no km 237 da rodovia Anhanguera, que liga São Paulo a Ribeirão Preto e ao Sul de Minas Gerais, que é um dos maiores do país, com dez mangueiras para conectar veículos elétricos e uma potência máxima de 524 kW, atendendo todos os modelos elétricos e híbridos plug-in vendidos no Brasil. A empresa investiu cerca de R$ 2 milhões e a recarga é cobrada via aplicativo, modelo que a Go Electric entende como viável.
Retorno do imposto de importação
O imposto de importação está zerado para veículos elétricos desde 2015, o que ajudou no começo do desenvolvimento deste segmento, mas agora a tendência é a de que ocorra um retorno gradual do imposto ao longo de três anos, de acordo com informações do secretário de desenvolvimento industrial, inovação, comércio e serviços do MDIC, Uallace Moreira, em entrevista à Agência Reuters.
De acordo com o presidente da ABVE o tema ainda não está definido e segue em negociação com o governo. Bastos acredita que antes de definir o retorno do imposto é preciso definir as regras para produção local de híbridos plug-in e elétricos dentro do programa Mobilidade Verde, pois a indústria local ainda não produz estes veículos: “É normal que aconteça a volta gradual do imposto, mas antes de qualquer debate sobre isto precisamos saber as condições do Mobilidade Verde, até para as que as empresas refinem seus planos de investimentos”.
O presidente acredita que uma decisão sobre a volta do imposto de importação sem previsibilidade para a produção local de veículos eletrificados causaria um impacto muito grande, movimento que não deverá acontecer. A expectativa é a de que as regras do novo programa sejam conhecidas ainda em 2023 e, no começo do ano que vem, seja definido o retorno gradual da taxação.
Dentre tantas dúvidas que ainda rondam o novo programa e o retorno gradual dos impostos para importação de elétricos e híbridos plug-in Bastos também cita uma importante questão: haverá uma cota livre de impostos? Quais serão as condições para isto? Todas essas perguntas deverão ser respondidas ao longo deste segundo semestre e no começo de 2024.
Para Ricardo Bastos o cenário ideal seria o retorno gradual dos impostos quando o setor eletrificado representasse 5% do total vendido no País, algo em torno de 100 mil unidades, volume que deverá ser alcançado até o fim de 2024.























