São Paulo – A ArcelorMittal transformou a gestão da segurança viária em projeto que envolve toda a cadeia logística. O resultado aparece nos indicadores. A companhia reduziu de quase 140 para cerca de vinte ocorrências anuais de sinistros de carga, uma queda de aproximadamente 85%.
O indicador não representa acidentes rodoviários. Ele mede situações nas quais a condução inadequada contribuiu para danificar a carga, aspecto especialmente relevante para produtos sensíveis à maneira como o motorista conduz o caminhão.
Além disto a empresa tornou-se a primeira companhia no Brasil a conquistar três estrelas, a classificação máxima, no FIA Road Safety Index, certificação internacional da FIA, Federação Internacional do Automobilismo, que avalia a maturidade das organizações na gestão da segurança viária. A avaliação ocorreu na unidade Vega, em São Francisco do Sul, SC.
Para Sérgio Hemersmeyer, gerente geral de logística da ArcelorMittal, o reconhecimento não exigiu a mudança de rota na companhia. A certificação apenas reconheceu processos que a empresa já aplicava. “A certificação veio de forma natural porque reconheceu as práticas que a gente já vinha execendo.”
Programa com transportadores começou em 2019
O projeto começou antes da certificação. Em 2019 a ArcelorMittal criou um programa de excelência para os transportadores. Na época trabalhava com 24 empresas terceirizadas. Hoje, são dez.
Atualmente aproximadamente quatrocentos caminhões movimentam cargas por dia na operação, envolvendo cerca de novecentos motoristas. A companhia estabelece critérios de desempenho, acompanha os indicadores dos parceiros e mantém reuniões e fóruns técnicos para discutir resultados, dificuldades e oportunidades de melhoria.

Assim a gestão não termina quando o caminhão deixa a planta. A empresa acompanha o desempenho do transportador também nas estradas.
“Gestão de logística vai muito além de agendar cargas. Existe planejamento, padronização de processos, acompanhamento dos transportadores, desenvolvimento dos parceiros e melhoria contínua”, afirmou Hemersmeyer.
O modelo também estabelece critérios claros para os parceiros. A ArcelorMittal exige o cumprimento da legislação, das normas de trânsito e de requisitos técnicos necessários à operação.
No entanto a empresa não determina uma idade máxima para os caminhões nem cria uma lista fechada de tecnologias obrigatórias. O foco está no desempenho.
“Não especificamos necessariamente a tecnologia que o transportador precisa utilizar. Especificamos o desempenho que queremos e o processo que garante este desempenho.”
Tecnologia é suporte, não protagonista
Nesse modelo telemetria, monitoramento de rotas e ferramentas de gestão de risco ajudam a acompanhar a operação. Porém a companhia considera que tecnologia, sozinha, não resolve o problema.
Para Hemersmeyer o mais importante está na combinação de processos com indicadores e gestão próxima dos transportadores: “A tecnologia é um facilitador. Ela é importante mas o foco precisa estar no processo, no acompanhamento dos indicadores e na gestão junto às transportadoras”.
O FIA Road Safety Index avalia justamente esta estrutura. A metodologia considera dez dimensões relacionadas à gestão da segurança no transporte rodoviário, incluindo políticas, processos, mecanismos de controle e indicadores envolvendo empregados, fornecedores e terceiros. A classificação máxima é de três estrelas.
Na unidade Vega a FIA analisou práticas como monitoramento sistemático das operações, padrões de segurança para transportadore, bem como controles de acesso dos caminhões à planta e gestão dos requisitos de segurança dos motoristas.
Ocorrência exige investigação e plano de ação
A redução dos sinistros de carga mostra a evolução do programa. Entretanto, quando uma ocorrência acontece, a empresa não considera o caso encerrado apenas com a identificação do acidente.
O transportador precisa investigar as causas, entender o que contribuiu para a ocorrência e apresentar um plano de ação. Depois a ArcelorMittal acompanha a execução das medidas.
“Não aceitamos simplesmente a explicação de que foi um acidente e acidentes acontecem. Queremos entender profundamente o que aconteceu e o que precisa mudar para que não volte a acontecer.”
Este processo também influencia a avaliação dos transportadores. Empresas com melhor desempenho podem ganhar maior participação nas rotas. Já aquelas que não cumprem os requisitos perdem posições no ranking e podem chegar ao descredenciamento.
“Isto não acontece de uma hora para outra. É um processo transparente, e os transportadores sabem para qual caminho estão indo.”
Motorista no centro do projeto
Apesar do uso crescente de tecnologia a ArcelorMittal considera a gestão de pessoas o principal desafio da operação, principalmente porque trabalha com empresas terceirizadas, cada uma com sua própria cultura.
Por isto a companhia procura levar aos parceiros um princípio considerado inegociável: segurança como valor.
“Quando conseguimos deixar claro para o transportador que segurança é um valor fundamental para o cliente ele passa a adotá-la como uma prática cada vez mais difundida. E, quando chegamos ao motorista, ele percebe que aquilo também é importante para ele e passa a contribuir.”
Os primeiros passos começam ainda dentro das plantas. Os motoristas recebem treinamento para circular com segurança, contam com espaços adequados durante o carregamento e têm estrutura para aguardar o atendimento com mais conforto.
A empresa também já recebe mulheres motoristas em suas unidades. A participação ainda não é representativa mas vem crescendo nas transportadoras parceiras. Neste caso a companhia busca garantir as mesmas condições de segurança e conforto, com infraestrutura adequada para atender a este público.
Próxima etapa é ampliar a certificação

A certificação não abrange toda a ArcelorMittal. A companhia escolheu a unidade Vega como projeto inicial porque concentra o maior volume de transporte rodoviário.
A empresa tem quatro principais plantas: Pecém, CE, Tubarão, ES, Contagem, MG, e Vega. A ideia, agora, é levar o modelo para outras unidades: “A ideia é expandir essa certificação para as outras plantas. O processo deve ser muito semelhante ao que tivemos em Vega”.
O objetivo, portanto, vai além de repetir uma auditoria. A companhia quer ampliar para outras operações uma cultura de segurança que já existe dentro das unidades industriais. “Estamos estendendo para os nossos parceiros que usam as estradas uma cultura de segurança que já existe dentro das nossas operações.”
Para a ArcelorMittal a certificação também pode ajudar a criar um novo padrão para o transporte corporativo. A expectativa é que outros embarcadores adotem critérios semelhantes e passem a cobrar das transportadoras processos mais estruturados de segurança.
“Começamos definindo um benchmark de segurança. Esperamos que isso se torne uma prática do setor, com mais embarcadores usando práticas e propagando segurança para suas transportadoras.”
Desta forma a conquista das três estrelas funciona como um marco, mas não como ponto final. O próximo passo será levar a metodologia para outras plantas e continuar reduzindo riscos na cadeia logística.























