São Paulo – “Não há uma guerra contra os importados. O que existe é um jogo de equilíbrio”, afirmou Rodrigo Navarro, presidente da Anip, Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos. Para ele a balança está desequilibrada porque no mercado interno 69% dos pneus comercializados, de janeiro a abril, foram importados e 31%, nacionais. No quadrimestre foram comercializados 11,9 milhões de unidades pela indústria brasileira, 5,8% a menos do que no mesmo período de 2025.
Em entrevista exclusiva à Agência AutoData ele disse que “este é um porcentual que não podemos ter. É necessário um equilíbrio tarifário, a exemplo do que é feito no México, nos Estados Unidos e na União Europeia. Se isso não é feito todos os pneus com preços muito baixos, por vezes inferiores ao custo da matéria-prima, e que nem sempre cumprem metas ambientais, acabam vindo para o Brasil”.
O dirigente reclamou que muitas vezes é dito no mercado que a Anip deseja que o imposto de importação seja elevado até para modelos que não são fabricados aqui, o que, de acordo com ele, não é verdade. E que este movimento prejudica todo o ecossistema do pneu e da borracha natural, arriscada a perder sua soberania nacional. Hoje a alíquota para pneus de passeio está em 25%, o que é válido até outubro, mas o pleito é para que seja elevada a 35%.
Para a Abidip, Associação Brasileira dos Distribuidores e Importadores de Pneus, este debate precisa ser conduzido com equilíbrio técnico e foco no interesse público, e não apenas sob a ótica de proteção de mercado. Segundo seu presidente, Ricardo Alípio, o Brasil já tem um dos mercados de pneus mais protegidos do mundo, com tarifas elevadas, medidas antidumping em vigor para diversos segmentos e forte carga tributária incidente sobre a importação. Para ele, portanto, não procede a narrativa de ausência de proteção à indústria nacional.
“Comparar o Brasil com Estados Unidos, México ou União Europeia exige cautela. Esses mercados têm custos logísticos muito inferiores, energia mais barata, ambiente tributário mais racional, desoneração industrial e produtividade significativamente superior”, afirmou Alípio. “No Brasil, em vez de discutir redução do custo estrutural da indústria como desoneração da folha salarial, redução de imposto sobre as matérias-primas, sobretudo as importadas, e simplificação tributária, parte do setor prefere transferir sua dificuldade competitiva ao consumidor brasileiro por meio do aumento artificial de tarifas.”
Concorrência desleal?
O dirigente da Abidip apontou, ainda, que a alegação de concorrência desleal também precisa ser tratada com responsabilidade técnica, e que o ordenamento jurídico brasileiro já prevê instrumentos específicos para apuração de dumping, conduzidos pelo Departamento de Defesa Comercial do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços: “Caso existam evidências concretas de práticas desleais o caminho adequado são investigações técnicas e não o aumento generalizado de imposto sobre produtos importados”.
Sobre a afirmação da Anip de que o reajuste da alíquota para 35% exerceria impacto “irrelevante” no IPCA, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a Abidip defende que o uso da palavra “irrelevante” ignora efeitos indiretos extremamente relevantes: “Pneus são insumos essenciais da mobilidade urbana, do transporte por aplicativos, táxis, logística e transporte de cargas. O aumento de custos inevitavelmente pressiona fretes, transporte urbano e custo operacional de milhões de trabalhadores autônomos”.
Alípio ressaltou que também causa preocupação o fato de o mercado brasileiro de reposição já apresentar baixa concorrência em determinados segmentos, de modo que medidas adicionais de proteção podem favorecer aumento arbitrário de margens sem garantia de redução de preços, ampliação de investimentos ou benefício efetivo ao consumidor.
“A Abidip defende concorrência equilibrada, previsibilidade regulatória, respeito às regras de defesa comercial e políticas públicas que priorizem o consumidor brasileiro e a competitividade econômica do País.”