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A árvore que um dia plantei em Betim

Pude participar da comemoração dos 50 anos da Fiat em Betim, onde, em 1999, plantei uma macieira junto com as minhas filhas

Voltei hoje de Betim, depois de participar das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil. Como jornalista, estive em apenas mais uma cobertura. Mas, para mim, foi muito mais do que isso pois, enquanto assistia às festividades, tendo a grande oportunidade de rever histórias e encontrar pessoas que fazem parte da trajetória da empresa, percebi que também estava revendo boa parte da minha própria vida.

A Fiat é a única fabricante instalada no Brasil cujo caminho pude acompanhar praticamente desde o início. Quando a fábrica de Betim foi inaugurada, em 1976, eu ainda não imaginava que um dia faria do setor automotivo a minha profissão. Dez anos depois, em 1986, comecei a percorrer esse caminho como jornalista e, desde então, tive a honra de acompanhar de perto uma história que ajudou a transformar definitivamente a indústria automobilística brasileira.

Estive presente nas comemorações dos 30, dos 35, dos 40 e agora dos 50 anos da empresa. Vi nascer produtos que se transformaram em ícones, acompanhei momentos de expansão, enfrentei junto com a indústria períodos difíceis e testemunhei a capacidade da Fiat de se reinventar inúmeras vezes durante todo este tempo.

Mas os números nunca foram, na verdade, o que mais me impressionou. O que realmente marcou essa caminhada que pude presenciar foram as pessoas e o jeito italiano da empresa tratar principalmente seus colaboradores.

Tive a oportunidade de aprender com grandes líderes da indústria, como Cledorvino Belini, Giovanni Razelli, Antonio Filosa, Lélio Ramos e tantos outros executivos que ajudaram a construir uma empresa respeitada dentro e fora do Brasil. Estudando sua trajetória, também aprendi muito com o legado deixado por Silvano Valentino, Pacífico Paoli e Roberto Bogus, que também foram nomes fundamentais para compreender a cultura que moldou a Fiat brasileira.

O tempo também me deu um presente ainda maior: as amizades. Marco Antonio Lage, Marco Piquini, Elisa Sarti, Emílio Camanzi, Nivaldo Notoli, Roberto Baraldi e tantos outros deixaram de ser apenas fontes ou colegas de profissão. Tornaram-se amigos. Daqueles que permanecem ao nosso lado pra sempre, independentemente do cargo, da empresa ou do tempo. Pessoas que me ensinaram que reputação profissional se constrói com competência, mas que amizades verdadeiras se constroem com caráter e lealdade.

A Fiat também esteve presente na minha vida muito além do trabalho. O primeiro carro 0KM que consegui comprar, em 1988, foi um Uno S vermelho. Ainda hoje consigo lembrar da emoção daquele dia em que fui buscá-lo na concessionária. Depois vieram uma Elba, vários Palios e, anos mais tarde, uma Alfa Romeo 155, talvez o melhor automóvel que já tive. Minhas filhas também aprenderam a dirigir em carros da Fiat.

Ou seja: sem perceber, a marca também passou a fazer parte da história da minha família.

Mas existe uma lembrança que também voltou com força à minha cabeça durante esta última viagem a Betim. No final de 1999, a Fiat organizou uma confraternização de Natal para jornalistas e seus familiares. Entre as diversas atividades havia uma que parecia simples, mas carregava um enorme simbolismo: cada família plantaria uma muda de árvore dentro da fábrica. Eu e minhas filhas, na época ainda pequenas, plantamos uma macieira.

Naquele momento ninguém imaginava que quase trinta anos se passariam. Confesso que nunca mais voltei ao local onde aquela muda foi colocada. Não sei nem se ela resistiu ao tempo ou se as ampliações da fábrica preservaram aquele espaço. Não sei sequer se alguém ainda se lembra daquele pequeno pomar.

Mas, desde que deixei Betim, não consigo parar de pensar naquela árvore. Acho que, se ela sobreviveu, hoje certamente já não é simplesmente uma muda. Deve ser uma árvore adulta, com raízes profundas, galhos fortes e até oferecendo frutos e uma sombra acolhedora. Talvez hoje ninguém mais se lembre que ela foi plantada por um jornalista e suas duas filhas em uma ensolarada manhã daquele dezembro de 1999.

Percebi, então, que aquela macieira é uma bela metáfora da própria Fiat. Ao longo destes cinquenta anos, a empresa também criou raízes profundas no Brasil e plantou fábricas, tecnologia, inovação e desenvolvimento. Mas, acima de tudo, plantou pessoas, formou profissionais, revelou líderes, criou oportunidades, transformou cidades e ajudou milhões de brasileiros a realizar sonhos, entre eles, o meu.

Ao deixar Betim a caminho do aeroporto, compreendi que não estava encerrando apenas mais uma cobertura jornalística. Estava fechando um ciclo de quarenta anos de convivência com uma empresa que acompanhou praticamente toda a minha vida profissional e boa parte da minha vida pessoal.

Acho mesmo que poucos jornalistas tiveram a sorte de assistir à construção de uma história tão importante e empolgante durante tanto tempo. Eu tive esse privilégio!

E, olhando para trás, percebo que, durante todos esses anos, enquanto eu acreditava estar apenas registrando a história da Fiat, ela também ajudava, silenciosamente, a escrever a minha.

Quanto à macieira… Espero, sinceramente, que ela ainda exista! Não apenas porque gostaria de revê-la um dia, mas porque, se ela continua de pé, significa que algumas histórias realmente podem criar raízes.

E essas são justamente as histórias que merecem ser contadas.

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