Hannover, Alemanha — A Mercedes-Benz não entende que o hidrogênio seja uma solução para o transporte pesado brasileiro no curto prazo. Mas a tecnologia está no radar. Durante a abertura da feira IAA Transportation para a imprensa, no domingo, 13, a companhia apresentou sua aposta com a tecnologia.
O horizonte enxergado pela Mercedes-Benz é de aproximadamente dez anos, para que o hidrogênio comece a ganhar escala no Brasil. Até lá, a estratégia passa por uma combinação de diesel cada vez mais eficiente, biocombustíveis e, dependendo da evolução do mercado, gás e biometano.
A avaliação é de Denis Güven, CEO da Mercedes-Benz Brasil e América Latina, em entrevista a AutoData Mobility durante a IAA. Segundo ele, o principal obstáculo para o hidrogênio no Brasil, hoje, não está apenas no caminhão, mas na construção de toda a estrutura necessária para fazer funcionar a tecnologia.
“Hoje temos atividade zero” no hidrogênio para caminhões no Brasil, resumiu o executivo. Para ele, será necessário iniciar projetos, testar aplicações, criar escala e, principalmente, trabalhar em conjunto com o governo para desenvolver a infraestrutura e estabelecer as condições para a tecnologia avançar.
Diesel ainda terá longa vida
O diesel continua sendo peça central da estratégia da Mercedes-Benz no Brasil. A companhia aposta na evolução dos motores de combustão e, ao mesmo tempo, na possibilidade de utilizar combustíveis de menor intensidade de carbono sem exigir a substituição imediata de toda a frota.
Güven cita os testes realizados pela Mercedes-Benz com biodiesel e destaca justamente essa característica do combustível. Em vez de substituir o caminhão, o transportador pode manter o veículo e alterar o combustível utilizado. Essa possibilidade, na visão do executivo, torna os biocombustíveis uma alternativa importante para acelerar a redução das emissões no Brasil.
Ele também chama atenção para a capacidade de reaproveitamento da frota existente. Em um mercado no qual o caminhão representa um investimento elevado, soluções que permitam reduzir emissões sem exigir a compra de um veículo completamente novo podem ter maior potencial de escala.
É nesse ponto que o Brasil apresenta uma vantagem particular. A forte produção agrícola cria condições para uma economia mais circular envolvendo combustíveis produzidos a partir de resíduos e matérias-primas disponíveis no próprio País.
Biometano entra no radar
Embora a Mercedes-Benz não coloque o gás no mesmo patamar de prioridade da eletrificação e da evolução dos motores diesel, a empresa acompanha de perto o desenvolvimento do mercado de gás natural e biometano.
Güven afirmou que a companhia observa o avanço dessa tecnologia no Brasil, na Argentina e em outros mercados. Se a demanda ganhar escala, a Mercedes-Benz poderá ampliar sua atuação nessa frente.
A estratégia, portanto, não está fechada em uma única tecnologia. A empresa trabalha com eletrificação, evolução do diesel e melhorias nos veículos atuais, enquanto acompanha o comportamento de outras alternativas.
OM 470 está pronto para o Brasil
Dentre as novidades de produto, o novo motor OM 470 lançado na IAA é peça importante da próxima evolução dos caminhões Mercedes-Benz no País. Güven confirmou que a nova geração do propulsor está pronta para o Brasil, mas explicou que a decisão envolve mais do que simplesmente disponibilizar o motor. A Mercedes-Benz precisa avaliar o momento adequado para trazer a tecnologia e estruturar a produção e a logística necessárias.
O OM 470 é produzido inicialmente em Mannheim, na Alemanha, e a empresa precisa definir a melhor estratégia para sua introdução no mercado brasileiro.
A questão ganha relevância porque o Brasil é um dos mercados mais importantes da Mercedes-Benz para caminhões a diesel. Por isso, qualquer mudança de geração de motor precisa considerar tanto a necessidade de eficiência quanto as características específicas das aplicações brasileiras.
A companhia também trabalha com a evolução do OM 471, já conhecido no País. Na Europa, a nova geração apresentada promete redução de até 4% no consumo, mostrando que a empresa ainda enxerga espaço relevante para ganhos de eficiência dentro da própria tecnologia diesel.
Chineses vão mexer no mercado
Güven também não minimiza o avanço das fabricantes chinesas. Ao contrário, afirma que a Mercedes-Benz recebe a chegada desses concorrentes como um desafio competitivo.
Na Europa, a avaliação é de que os chineses deverão conquistar participação de mercado. A dúvida está mais relacionada a de quem virá essa participação do que à possibilidade de crescimento dessas marcas.
No Brasil, entretanto, a Mercedes acredita ter uma vantagem construída ao longo de décadas. A empresa acumula 70 anos de operação no País, conhecimento das aplicações brasileiras, relacionamento com clientes e uma rede estruturada para atender o transportador. Güven considera que os novos concorrentes precisarão de tempo para alcançar esse nível de conhecimento das características do mercado local.
O que não significa, porém, que a marca da estrela pretenda ignorar a pressão competitiva. A chegada de novos fabricantes, segundo ele, deverá obrigar todas as montadoras a melhorar eficiência, atendimento, rede e proximidade com o cliente: “Gostamos de competição”.
Recuperar a liderança
A disputa também se traduz em uma meta clara para a Mercedes-Benz no mercado brasileiro. Atualmente segunda maior fabricante de caminhões no País, a empresa não esconde que pretende voltar à liderança.
Güven classificou a estratégia de marketing como parte importante desse movimento, mas reconheceu que o ambiente atual impõe dificuldades relevantes, especialmente por causa das taxas de juros.
O mercado de caminhões pesados sofreu forte impacto do custo do crédito. O programa Move Brasil ajudou a atenuar a queda nas vendas, mas, na avaliação do executivo, não mudou estruturalmente o tamanho do mercado. Para o segundo semestre, a companhia trabalha com um cenário ainda desafiador.
Güven estima que o mercado brasileiro de caminhões possa encerrar o ano com retração na faixa de 5% a 10%. A expectativa considera principalmente o fim dos efeitos do Move Brasil e a permanência de juros elevados.
Por isso, a Mercedes-Benz não trabalha com a expectativa de uma nova rodada de estímulos governamentais com a mesma intensidade. A alternativa será ampliar as próprias condições de financiamento e buscar, junto aos bancos, formas de manter o crédito disponível aos transportadores.
Fenatran pode preparar 2027
Apesar do ambiente financeiro mais difícil, Güven mantém uma leitura positiva para a Fenatran. O executivo não vê a feira apenas como um evento para fechar negócios imediatamente. A expectativa é complementada pelo vice-presidente de vendas e marketing Jefferson Ferrarez: que a feira brasileira funcione como uma grande plataforma para formação das carteiras de pedidos que serão entregues principalmente no primeiro semestre de 2027.
Isso ocorre porque a indústria brasileira ajustou sua produção ao novo tamanho do mercado. Com o impulso provocado pelo Move Brasil, as fabricantes também formaram carteiras de pedidos e, em determinados casos, a disponibilidade imediata de caminhões ficou mais restrita. Assim, a Fenatran poderá concentrar negócios para os meses seguintes.
O resultado, entretanto, dependerá também do ambiente econômico e político. Güven avalia que as eleições de 2026 terão influência importante sobre o humor do mercado durante a feira.
E vem novidade para o Axor
Se o mercado é um dos pontos de atenção, o produto deve ser uma das principais armas da Mercedes-Benz para disputar espaço.
O Axor ganhou força no Brasil justamente em um momento de juros elevados e maior procura por soluções com equilíbrio de preço, robustez e produtividade. A pergunta, então, era se a Mercedes-Benz pretende ampliar novamente a família, como já ocorreu no passado. A resposta de Güven foi direta: “sim, haverá novidades, mas não exatamente da maneira imaginada”.
A declaração é especialmente relevante porque a Mercedes-Benz já ampliou a oferta de produtos posicionados entre diferentes faixas de aplicação nos últimos anos.























