São Paulo — A reciclagem de veículos em fim de vida e os materiais descartados são algumas das dificuldades que a indústria automotiva ainda enfrenta. Pensando em novas alternativas de reaproveitamento o tema foi debatido no Auto360, encontro promovido pela Firjan Senai, no Rio de Janeiro, RJ.
O evento reuniu representantes de montadoras, empresas de reciclagem, centros de pesquisa, entidades do setor e órgãos públicos para avaliar como ampliar a recuperação de peças e materiais e incorporá-los novamente à cadeia produtiva. Participaram do encontro General Motors e Stellantis, a Embrapii, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a AEA, Associação de Engenharia Automotiva, Interni, Protecta, Ideal Peças, Abcar, Associação Brasileira de Reciclagem Automotiva, Sindirepa RJ, Guarulhos Sucatas, Techcollor, Inmetro e Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro.
A dimensão econômica ajuda a entender o interesse pela logística reversa. Segundo estimativa da Abcar cerca de 2 milhões de veículos chegam ao fim da vida útil todos os anos no Brasil, mas apenas 1,5% teria destinação adequada. A entidade calcula ainda que R$ 14 bilhões em peças recuperáveis sejam descartados anualmente.
Além disto o mercado de desmontagem e reciclagem automotiva movimenta cerca de R$ 2 bilhões por ano e recicla aproximadamente 550 mil veículos. Na avaliação da Abcar este volume poderia dobrar com maior a estruturação da atividade.
O debate, no entanto, mostrou que o problema começa antes mesmo da chegada do veículo ao desmonte. A maneira como os materiais são combinados, identificados e incorporados às peças pode facilitar ou dificultar sua separação e recuperação no fim da vida útil.
Segundo Paulo Roberto Fúrio, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Firjan Senai Sesi, a reciclagem precisa ser considerada ainda no desenvolvimento dos componentes: “Não basta desenvolver uma tecnologia capaz de reciclar determinado plástico ou tecido. É preciso projetar a peça pensando em sua desmontagem, identificar o material, criar uma logística capaz de recuperá-lo e encontrar uma aplicação industrial para o que foi recuperado”.
Pesquisa e desenvolvimento
Neste caso parte desse trabalho já ocorre nos Institutos Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras e em Química Verde, no Rio de Janeiro. Os projetos buscam transformar resíduos e materiais descartados em novos insumos para a indústria.
Um dos trabalhos utiliza tecidos de fardas que deixaram de ser usados pelo Exército na produção de componentes para a indústria automotiva, particularmente em aplicações de isolamento acústico.
A proposta amplia o conceito de reciclagem ao buscar uma nova aplicação industrial para materiais que já cumpriram sua função original: “A economia circular abre um campo enorme de inovação. Projetos realizados pela área de fibras têm mostrado o potencial de transformar resíduos em novos insumos de alto valor”.
Material reciclado
A oferta de matéria-prima reciclada já existe em escala, mas ainda há dificuldade para ampliar seu uso na indústria automotiva. Segundo levantamento da Abiplast, Associação Brasileira da Indústria do Plástico, elaborado pela MaxiQuim, o Brasil produziu 1 milhão 12 mil toneladas de resina plástica reciclada pós-consumo em 2024. Deste total 67 mil toneladas foram destinadas ao setor automotivo.
Já em 2025 o setor automotivo utilizou 66 mil toneladas de plástico reciclado. O volume representa o terceiro ano consecutivo de queda.
O desafio, portanto, não é apenas aumentar a quantidade de material reciclado disponível. É necessário garantir especificação, qualidade e regularidade de fornecimento compatíveis com as exigências das montadoras.
Pressão regulatória
A regulamentação também aumenta a exigência sobre a recuperação de materiais. A partir de 2027 veículos leves das categorias M1 e N1 deverão ser projetados para que pelo menos 80% da massa sejam potencialmente reutilizáveis ou recicláveis e que pelo menos 85% sejam reutilizáveis ou recuperáveis. Em 2030 os índices sobem para 85% e 95%, respectivamente.
A mudança está relacionada à agenda de descarbonização, inovação e economia circular do setor automotivo. Dentro do Programa Mover, o INT, Instituto Nacional de Tecnologia, coordena o projeto Economia Circular de Autopeças Plásticas e Têxteis na Cadeia Automotiva.
Desmontagem
As montadoras também começam a atuar diretamente nesta etapa da cadeia. Em 2025 a Stellantis inaugurou em Osasco, SP, um centro dedicado à desmontagem de veículos, recuperação de peças e reciclagem de materiais.
A unidade recebeu R$ 13 milhões e tem capacidade anunciada para desmontar até 8 mil veículos por ano, com planejamento de dobrar o volume.
Além da estrutura física para desmontagem e reciclagem o debate da Firjan apontou outro gargalo: o tempo necessário para transformar pesquisa, políticas públicas e instrumentos de incentivo em projetos industriais.
Para Carlos Sakuramoto, diretor de manufatura e materiais da AEA e gerente de tecnologia e inovação da engenharia de manufatura da General Motors na América do Sul, a velocidade é um fator relevante para a competitividade do setor.
“Temos ainda o gargalo do tempo necessário para transformar estes instrumentos em projetos, produtos e escala. Na indústria automotiva, em que decisões de fornecedores e montadoras seguem ciclos internacionais, meses podem fazer diferença.”























