São Paulo – As gerações mais jovens são consideradas grupo importante no processo de transição para a adoção de meios de mobilidade que tragam menor dano sobre o meio ambiente. Esta é uma das chaves para reduzir emissões na opinião de uma a cada quatro pessoas entrevistadas pela YouGov, empresa global de pesquisas online, em estudo encomendado pela Stellantis.

O resultado do levantamento foi apresentado durante a segunda edição do Freedom of Mobility Forum, ou Fórum da Liberdade da Mobilidade, que buscou debater como o planeta acomodará as necessidades de mobilidade de 8 bilhões de pessoas. Para 24% dos 5 mil entrevistados acima de 18 anos no Brasil, Índia, França, Marrocos e Estados Unidos, o caminho poderá ser conduzido pelos mais novos. Ao se analisar somente os indianos este porcentual vai a 39%.

Neste contexto Cecília Edwards, sócia da consultoria Wavestone e mediadora do evento, ressaltou o trabalho conduzido por estudantes de três faculdades com o objetivo de pensar alternativas à mobilidade atual: Amanda Yu, da Escola Heller de Política e Gestão Social da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, Sasha Krojic da HEC Paris, na França, e Abir Isbahi, da Escola Nacional de Ciências Aplicadas de Kénitra, no Marrocos.

Perguntados sobre o motivo de gerações mais jovens terem maior propensão a adotar mudanças nos hábitos de transporte Amanda Yu avaliou que em meio a uma expectativa realista das mudanças climáticas as pessoas mais novas sentem este risco profundamente, uma vez que este será o mundo em que viverão, assim como seus filhos.

Pessoas mais maduras, até então, não precisaram refletir sobre aquecimento global e emissões de CO2. Trinta anos atrás ninguém se importava com isso. Mesmo agora nem todos querem abrir mão do conforto e alterar sua forma de mobilidade – embora no Brasil, assim como nos demais países emergentes, esta resistência seja menor, com apenas 16% dos respondentes, mas nos Estados Unidos chega a 40% e a 51% se considerados moradores de áreas rurais e acima de 55 anos.

Outra diferença é que hoje em dia as famílias estão menores e muitas pessoas sequer têm filhos e, assim, as demandas de mobilidade são outras: “Além disso eu acho que muitas pessoas mais jovens estão olhando para o custo financeiro da propriedade de veículos privados e dizendo que isso não é para elas. A economia não funciona para os mais jovens da mesma forma que para as gerações anteriores”.

O estudo do qual Yu faz parte na Universidade Brandeis mostra que as mudanças climáticas exacerbam as disparidades de mobilidade e afetam desproporcionalmente as comunidades marginalizadas, por isto é proposta abordagem de multiprocessos para encarar os desafios focando em integração tecnológica.

Embora carros movidos a eletricidade sejam realidade em muitos lugares o alto custo e a ausência de financiamento sem juros, por exemplo, dificulta sua propagação. Foto: frimufilms/Freepik.

Meio de transporte sustentável custa caro

Sasha Krojic disse para não subestimar o poder de decisão dos mais jovens e que na escola de negócios da HEC Paris estuda-se como o setor de mobilidade passa por profunda transformação, em âmbito global, por causa de novas regulações, avanços tecnológicos, mudanças de preferências do consumidor e muitas das palavras-chave atuais, como descarbonização, globalização, digitalização e eletrificação.

“Começamos identificando os percalços que o setor de mobilidade poderia enfrentar e, dentre eles, o que nos chamou atenção foi a falta de acessibilidade financeira aos meios de transporte sustentáveis, como os veículos elétricos, o que é uma barreira significativa para a sua adoção.”

O estudante prosseguiu dizendo que essa dificuldade passa pela localização geográfica e é mais frequente no Hemisfério Sul: “Por isto, para nós, o coração da transição está no compartilhamento, que realmente exerce papel importante. Modelos de financiamento inovadores, por exemplo, taxa zero para veículos elétricos ou subsídios para a aquisição conforme a renda, podem contribuir significativamente para ampliar o acesso”.

Portanto, frisou Krojic, é preciso lançar mão dos incentivos certos para partilhar soluções mais sustentáveis. Ele também chamou atenção para o desenvolvimento da intermodalidade por meio da proliferação de serviços de mobilidade, o que pode simplificar a experiência do usuário e o pagamento ao integrar diversas modalidades de transporte público e privado numa plataforma unificada.

É possível alugar um carro por apenas uma hora e complementar o trajeto até seu destino com o metrô ou a bicicleta: “Fica mais fácil quando se pode contar com diversos meios de transporte, o que é realidade em grandes cidades”.

Sobre este ponto a tendência é a de que novas grandes cidades se formem e, daqui a uma década, é estimado que sejam estabelecidas mais quinze megalópoles que hoje não existem. E talvez seja a hora de se pensar em como construir a mobilidade nessas localidades “e, neste caso, empresas do setor privado têm um papel importante nessa transição de mobilidade, mas o esforço precisa ser tripartite, com o setor público e com a sociedade civil também”, propôs o aluno da HEC Paris.

Para descarbonizar não é necessário abandonar os carros

Embora de acordo com a pesquisa do YouGov Brasil Índia e Marrocos sejam mais propensos a aceitarem desistir de transporte individual e haja forte disparidade dos mercados maduros e emergentes acerca de abandonar esse tipo de mobilidade, Abir Isbahi apontou que não se trata de deixar de usar carros mas de mudar o foco dos veículos para a matriz energética.

Para a estudante “por meio de colaboração e inovação estamos dispostos a criar um futuro sustentável rumo a uma mobilidade que priorize as pessoas e o meio ambiente”.

Outro ponto que deve ser considerado é a mudança do comportamento do consumidor acerca da propriedade. O que se vê atualmente é que as gerações mais jovens têm menos desejo de propriedade e são mais propensas a alugar o bem.

“É muito interessante observar, para uma indústria automotiva que nas últimas décadas tem se baseado em competição e em diferenciar produtos a fim de vender mais, como ela se portará diante do fato de que todo o modelo de negócio está se modificando.”

Cecília Edwards, da Wavestone, continua sua avaliação dizendo que pode ser fácil dizer que o transporte público é a resposta, até que ele não funcione em um local menos popular, com baixa densidade. Por isto é importante levar adiante a ideia de que não existe uma única solução e pensar sobre o verdadeiro significado de mobilidade: “O que existe é um único chamado para a urgência de ação, para soluções que não são exclusivas e que desafiam nosso modo de pensamento atual”.

Como indivíduo, reforçou Edwards, é preciso mudar os hábitos, mas só é possível fazer escolhas que estão disponíveis: “Portanto realmente precisamos do setor de negócios para nos engajar e ajudar a pensar sobre como alterarão sua forma de trabalho de uma maneira que possam executar soluções com benefícios. Trata-se de um esforço coletivo”.