Mas, afinal, o que se pode esperar do segundo semestre? E de 2017? Colocados diante de tais perguntas empresários e executivos debatem-se, hoje, em dois extremos: o medo e a esperança. No setor automotivo, conforme ficou evidenciado no Seminário Revisão das Perspectivas 2016, promovido, há duas semanas, pela AutoData Editora, há certo consenso de que a relativa estabilidade das vendas domésticas nos últimos três meses autoriza acreditar que chegamos, enfim, ao fundo do poço.
Ninguém, todavia, atreve-se, ainda, a apostar todas as fichas na tese de que o pior definitivamente já passou. E existem boas e sólidas razões para esta prudência com relação ao futuro. Gato escaldado, afinal, tem medo até de água fria. E se há algo que não falta hoje na direção das empresas é gato escaldado. E bem escaldado.
De forma geral, no ano passado, ao explicar para as matrizes os fracos resultados que estavam sendo alcançados, a maioria garantiu que, neste ano, tudo seria diferente. Melhor e mais animado. E, agora, ninguém parece querer correr o risco de errar mais uma vez.
No meio das incertezas há o fato, concreto, de que o novo governo ainda é interino. E assim permanecerá até agosto, data da votação final pelo Senado do processo de impeachment. Ninguém parece acreditar na possiblidade do retorno ao cargo da presidente afastada. Mas, mesmo assim, ao menos por enquanto, a maior parte das empresas ainda prefere trabalhar com dois cenários à frente, um mais negativo, para a hipótese de uma eventual volta, e outro positivo, ainda que pouco.
Na base deste conservadorismo e desta prudência há, também, a convicção de que esta crise tem suas raízes bem mais no mundo da política do que, propriamente, na economia e nos negócios. E esta, a política, é ainda vista como variável com desfecho absolutamente imprevisível.
Seja no que se refere ao tempo, seja no que diz respeito à forma.
Na média das opiniões, de qualquer forma, a partir das medidas econômicas já propostas e/ou adotadas pelo governo interino, prevalece a aposta mais positiva: alguma estabilidade no segundo semestre deste ano e PIB novamente positivo em 2017, levando junto as vendas de automóveis e também as de comerciais leves, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e de construção.
Nada de muito significativo: tudo com índices de 1% a 3%. Mas o suficiente, pelo menos, para indicar mudança, para cima, da curva de tendência. Seria o provável início de um novo ciclo positivo.
Ninguém tem dúvida de que, mais dia menos dia, o setor buscará de volta o patamar recorde de 3,6 milhões de unidades vendidas que chegou a registrar há quatro anos. Não há consenso, todavia, sobre o tempo necessário para se chegar até lá. Os mais conservadores cravam aposta em 2023. Mas há também quem acredite que isto acontecerá ainda antes de 2020.
Na verdade tudo dependerá de uma resposta que só o passar do tempo conseguirá dar a duas questões que ainda permanecem em aberto:
– das vendas recordes registradas há quatro anos quantas só aconteceram em função das medidas anticíclicas que tornaram o crédito farto e, no caso de caminhões e ônibus, até subsidiados? Quantas representaram apenas e tão somente antecipações de compra?; e
– das centenas de milhares de vendas que estão deixando de ser realizadas neste ano, quantas estão gerando demanda reprimida pronta para brotar assim que as demissões forem interrompidas e o crédito se tornar mais barato e menos seletivo?
De concreto a única certeza que se pode ter é a de que a verdade não deve estar nem no volume recorde registrado há quatro anos e nem no desastre que se verifica agora. Ela está em um ponto qualquer de um polo a outro. Qual o ponto exato? Vale a aposta.