A diretoria da matriz da Volkswagen, incluindo o então CEO Martin Winterkorn, tinha pleno conhecimento prévio da fraude dos motores diesel antes que o relatório da agência estadunidense de proteção ambiental, EPA, fosse revelado ao público, em 18 de setembro de 2015. A revelação partiu da própria montadora, em comunicado divulgado na noite da quarta-feira, 2.
O texto traz em pormenores diversos acontecimentos internos prévios envolvendo o escândalo, em uma estratégia adotada pela defesa para enfrentar os casos de acionistas que movem ações na justiça contra a fabricante devido à fraude, que derrubou o valor das ações da companhia.
O caso, segundo a VW, começou em 2005, quando a fabricante tomou a decisão estratégica de alavancar as vendas de modelos equipados com motores diesel nos Estados Unidos, com base no sucesso destes na Europa. Para isso iniciou-se o desenvolvimento de um novo motor, o EA 189. Como as normas de emissão para este combustível naquele país, segundo a fabricante, eram “muito restritos” – o limite para NOx chegava a ser quase seis vezes menor que para a norma Euro 5, alega a VW –, os técnicos e engenheiros se depararam com um desafio, pois nos ensaios, ao alcançar o parâmetro exigido, outros eram elevados, como os de CO2.
Para resolver a questão “dentro do período e dos recursos estabelecidos para o projeto EA189”, um grupo de pessoas – “que ainda estão sendo identificadas” – em um nível abaixo da diretoria na divisão de powertrain decidiu modificar o software de gerenciamento do motor e, com isso, “os resultados dos testes de emissão diferiram substancialmente daqueles ocorridos em uso real”.
“Essa modificação de software requer uma leve, mas significativa, modificação, que a VW lamenta profundamente”, diz o texto. “Ela pôde ser feita com o orçamento disponível e sem o envolvimento de escalões superiores”.
O CARB, órgão da Califórnia, recebeu indicações de irregularidades a partir de um estudo da ICCT em maio de 2014. Este pediu explicações à fabricante e “verificações internas” foram conduzidas nos meses seguintes. Em dezembro daquele ano a fabricante sugeriu ao CARB recalibrar os motores.
Segundo o comunicado da VW, em 23 de maio de 2014 um memorando sobre o estudo da ICCT foi preparado para Martin Winterkorn e “incluído em sua vasta comunicação semanal”. A forma com que o CEO tomou conhecimento do memorando à época, e se tomou, “não está documentado”, segundo a VW. Outro memorando sobre o caso foi encaminhado ao executivo em 14 de novembro de 2014 indicando, “dentre outras coisas”, que o caso envolveria custos de € 20 milhões para correção.
“Ao que se sabe hoje o caso foi tratado como um dos vários acontecimentos envolvendo produtos da empresa, e não recebeu atenção particular dos níveis de direção”, diz o texto. A VW alega que diferenças de resultados de testes de laboratório para a condução real existem em “todas as montadoras” e que “não significam violação automática de normas regulatórias. Para montadoras globais campanhas de serviço e recalls não representam nada fora da normalidade. A Volkswagen lamenta profundamente, analisando agora os fatos passados, [não perceber então que] esta situação era diferente”.
Segundo a VW o CARB fez novos testes e indicou que o serviço de recalibre não era suficiente para corrigir a falha, em particular na emissão de NOx. Em meados de 2015 a montadora montou uma “força-tarefa” para administrar o caso e contratou um escritório de advocacia para “auxílio em questões ligadas à lei de emissões estadunidense”.
Em 27 de julho de 2015 houve uma reunião para tratar do caso, com a presença de Winterkorn. “Pormenores concretos da reunião estão sendo levantados, em particular se os participantes entenderam que a mudança do software violava as leis estadunidenses. O Sr. Winterkorn foi solicitado a esclarecer este ponto.”
No fim de agosto técnicos da VW apresentaram para membros do departamento jurídico da empresa relatório em que se confirmava a fraude, e este foi levado à diretoria, quando “foi decidido então informar o CARB e o EPA”, o que ocorreu em 3 de setembro de 2015. Winterkorn, diz a VW, foi informado do ocorrido no dia seguinte.
“A VW foi informada que anteriormente casos como este ocorridos com outras montadoras foram resolvidos com pagamento de multas que não são especialmente altas para uma companhia do porte da VW. Até então a multa mais alta para uma ocorrência deste tipo fora de US$ 100 milhões, em 2014. O caso afetava 1,1 milhão de veículos, com valor por veículo próximo a US$ 91.”
“À luz desta recomendação esperava-se que o caso fosse resolvido com as autoridades estadunidenses com a modificação no software, acórdão de medidas apropriadas a tomar e pagamento de multa.”
A fabricante diz ainda que no início de setembro de 2015 o efeito da fraude lhe parecia restrito aos Estados Unidos. E considera que a publicação do comunicado do EPA, que tornou o caso público no dia 18 daquele mês, foi “inesperado”, devido às discussões em curso com as autoridades locais. “Considerando a repercussão que o caso ganhou, uma força-tarefa de auditoria interna foi criada para proceder a uma urgente investigação dos fatos”, conclui o comunicado.
Em 23 de setembro Winterkorn renunciou ao posto de CEO. Comunicado do Grupo VW a respeito emitido na mesma data afirmou que “o comitê executivo observa que o Sr. Winterkorn não tinha conhecimento da manipulação dos dados de emissões”.