Filho de alemães e nascido no Brasil, o engenheiro de produção Frank Sowade, diretor de operações da Volkswagen Anchieta, em São Bernardo do Campo, SP, assume em 1º. de janeiro a presidência da SAE Brasil, no lugar de seu amigo Ricardo Reimer, presidente do Grupo Schaeffler – os dois estudaram no mesmo colégio quando jovens.
Sua história está amplamente ligada à indústria automotiva: seu pai, um alemão que devido ao nome de difícil pronúncia para os brasileiros ficou conhecido por aqui como Jorge, trabalhou na Volkswagen do Brasil e testemunhou o famoso incêndio da Ala 13, que completa na quinta-feira, 18, exatos 44 anos.
Mas Sowade começou a carreira na Mercedes-Benz em 1987 e só entrou na Volkswagen cinco anos depois – e não no País mas sim diretamente na matriz em Wolfsburg, na Alemanha. Retornou ao Brasil para cuidar da construção da fábrica de motores de São Carlos, SP, e por aqui ficou até 2003, quando voltou à Alemanha. Ao Brasil foi convocado novamente no ano seguinte para dirigir a fábrica de Taubaté, SP, antes de assumir o atual posto na montadora.
Na quarta-feira, 17, o novo presidente da SAE Brasil, entidade com mais de seis mil associados, concedeu entrevista exclusiva à Agência AutoData.
Qual é a sua história dentro da SAE Brasil?
Minha história na SAE começou como palestrante nos diversos congressos, fóruns, simpósios, colóquios e encontros. Era regularmente convidado a participar e sempre havia algum tema a abordar que se encaixava nos eventos da associação. Sempre gostei destes encontros, pois encontrava um público que falava a nossa língua e promovia o debate. Então em meados de 2012 o Ricardo Reimer me convidou a participar da sua diretoria. A Volkswagen autorizou e ingressei na SAE Brasil como vice-presidente na gestão 2013-2014.
Ali já havia a possibilidade de assumir a presidência?
Sim, isso faz parte da dinâmica normal da SAE Brasil, do vice-presidente de uma gestão assumir a presidência na seguinte. O objetivo é dar continuidade, não haver ruptura. A mudança da gestão do Reimer para minha está sendo feita em conjunto. Ele tem muito conhecimento da rotina e funcionamento da associação e seria absurdo desprezar isso. Montamos a estrutura juntos, com a participação de todos.
Quais são os seus planos para a SAE Brasil?
Muita coisa ainda será trabalhada ao longo do tempo, mas o Congresso SAE Brasil, por exemplo, seguirá como nosso carro-chefe, o principal evento do ano. Continuaremos com simpósios e fóruns, mas daremos maior foco nas nossas seções regionais. O fundamental e grande objetivo da SAE Brasil é a disseminação do conhecimento da mobilidade. Continuaremos com o foco na engenharia de produto, mas também vamos começar a olhar com mais atenção para a manufatura. A SAE Brasil sempre foi focada no produto e eu sou uma pessoa de chão de fábrica. Há muita coisa que acontece ali que pode ser trabalhada.
O que acaba por se refletir no produto…
Exato: na conformidade, na qualidade, nos custos do produto e na sua competitividade. Temos que trabalhar a automação para que seja flexível, com redução de custo e tempo para mudar o produto na linha. O processo produtivo precisa ser desenvolvido com visão aberta. Por exemplo: na mesma linha é montado um hatch, um sedã e uma station wagon. É preciso que haja mudança de um para o outro sem perda de tempo e com toda flexibilidade possível. Tempo de máquina parada é prejuízo. Outro aspecto é na mudança deste modelo, seja facelift ou nova geração. Normalmente há pouco tempo para as adaptações necessárias, algo como duas semanas, nas férias coletivas. Por isso é preciso fazer toda a preparação antes e, durante a parada, remontar a linha, conectar e começar a produzir.
Em que nível o Brasil está nestes processos?
Há muita coisa a ser feita. A tendência é cada vez mais forte de introdução de plataformas mundiais aqui, em todas as marcas. E com elas chegam também os processos mundiais, com o melhor do que foi desenvolvido lá fora. Os processos daqui estão cada vez mais próximos do Exterior.
Isso é boa notícia para o engenheiro brasileiro, que então estará capacitado para trabalhar em qualquer fábrica do mundo?
O engenheiro brasileiro já é muito globalizado: várias empresas hoje desenvolvem veículos 24 horas por dia. O mesmo projeto é compartilhado e conduzido aqui, na China e na Europa ao mesmo tempo.
Mas mesmo com as plataformas globais não existem diferenças de um país para o outro?
Vamos dividir isso um pouco: em alguns casos há verticalização diferente, menor ou maior dependendo do país e da região. Um painel de instrumentos pode chegar pronto em uma fábrica e ser completamente montado dentro de outra. Depende de vários fatores, como custo. Outro aspecto é a necessidade de adaptação do carro para as estradas brasileiras ou os motores flex, que também exigem alterações. Mudam algumas coisas, adaptações, mas não o conceito como um todo.
Qual o grande gargalo hoje da manufatura brasileira?
Ainda temos bastante espaço para crescer no desenvolvimento das pessoas. Por exemplo: existe um espaço vago a preencher, que está entre o trabalhador da produção e o engenheiro. Ele deve ser ocupado por um tecnólogo, um profissional com formação forte mas que também põe a mão na massa e vive o dia-a-dia da produção.
Em sua opinião o Inovar-Auto contribuiu para a equiparação das tecnologias globais com as oferecidas nos modelos nacionais?
O movimento de chegada de plataformas globais ao Brasil aconteceria de qualquer maneira. Já estava acontecendo antes do Inovar-Auto.
Mas o novo regime automotivo não acelerou esse processo?
O Inovar-Auto mexe com a nacionalização de componentes e com a eficiência energética. Há ainda um aspecto que está um pouco indefinido, com relação ao que é exatamente investimento em pesquisa, engenharia e desenvolvimento.
E como será o seu dia-a-dia como presidente?
Além da rotina básica, passarei praticamente um dia por mês dedicado a reuniões na SAE Brasil, reunido com a diretoria e os dois conselhos, o executivo e o superior. Eventualmente também participarei de outras reuniões dedicadas a cada departamento e aquelas ligadas à proximidade de eventos, como o congresso ou outros eventos.