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As transformações das eras FCA e Stellantis

Rumo ao futuro: ciclo mais intenso reúne duas fusões globais, entrada no segmento de SUVs e o maior aporte financeiro em Betim para a transição híbrida

Os últimos quinze anos da história da Fiat no Brasil concentram mais mudanças estruturais do que qualquer outro período equivalente desde sua chegada ao País, em 1976. Neste período a companhia passou por duas fusões – com Chrysler e PSA –, ampliou significativamente a base produtiva no Mercosul, reposicionou a identidade de marca, entrou no segmento de SUVs e anunciou o maior ciclo de investimentos da história na cinquentenária planta de Betim, MG.

É também o capítulo que, por caminhar em direção ao presente, conecta diretamente a trajetória centenária da marca italiana às apostas que definirão os próximos cinquenta anos de operação no País.

O primeiro marco desta fase foi dado em 13 de outubro de 2014, quando a Fiat italiana concluiu a aquisição do grupo estadunidense Chrysler, em negociação iniciada ainda em 2010, e as duas operações se fundiram para formar a FCA, Fiat Chrysler Automobiles, então a sétima maior fabricante de veículos do mundo, presente em quarenta países e com atuação comercial em 150 mercados.

Para a operação brasileira a fusão significou a chegada das marcas Jeep e Ram sob mesma estrutura de negócios até então ocupada exclusivamente pela Fiat.

A aliança também ajudou a abrir um novo ciclo de investimentos: em julho de 2018, durante a celebração dos 42 anos de Betim, a FCA anunciou aporte de R$ 8 bilhões para a planta e seus fornecedores, prevendo quinze lançamentos, combinando carros novos, renovações e séries especiais até 2023, além da geração de 8 mil empregos diretos e indiretos.

Fotos: Divulgação/Fiat
EXPANSÃO AO NORDESTE

O desdobramento mais visível da era FCA no Brasil foi a construção da segunda fábrica do grupo no Brasil, em Goiana, no litoral Norte de Pernambuco. As negociações começaram em 2010, com a extensão para a Fiat dos incentivos fiscais do Regime Automotivo do Nordeste no apagar das luzes daquele ano, mas as obras civis só tiveram início em setembro de 2012.

O complexo foi inaugurado em 28 de abril de 2015, em cerimônia que reuniu a então presidente Dilma Rousseff, o CEO global da FCA, Sergio Marchionne, o vice-presidente mundial de manufatura, Stefan Ketter, que coordenou a construção, e o presidente da FCA Latam, Cledorvino Belini – que no mesmo ano passou o cargo para Ketter.

O investimento inicial superou R$ 7 bilhões direcionados à fábrica de veículos, com capacidade instalada para 250 mil unidades/ano, e mais R$ 4 bilhões foram aplicados por empresas do parque de fabricantes de autopeças integrado ao perímetro industrial.

O Polo Automotivo Jeep, como a planta foi batizada inicialmente, nasceu produzindo o Jeep Renegade, que marcou o retorno da marca ao Brasil depois de anos de ausência do mercado nacional.

Ainda em 2016 a fábrica pernambucana passou a produzir também a picape Fiat Toro, primeiro modelo a inaugurar a categoria picapes compactas, combinando a robustez de uma picape com o comportamento dinâmico mais próximo de um SUV.

A escolha de Goiana foi além da relação política. A cidade fica próxima do Porto de Suape, o que facilita a exportação de veículos, enquanto a sua localização reduz custos logísticos para atender ao mercado consumidor das regiões Norte e Nordeste. O impacto local foi expressivo, porque fez o PIB do município crescer mais de 300% de 2011 a 2021.

O modelo de parque de fornecedores integrado replicava, em escala menor e mais concentrada geograficamente, a lógica que a Fiat já havia consolidado em Betim ao longo dos anos 1990 e 2000 com a mineirização.

Em Goiana dezesseis empresas se instalaram dentro do próprio perímetro da fábrica, respondendo inicialmente por cerca de 40% do conteúdo do Jeep Renegade já nos primeiros meses de operação. O índice de nacionalização do SUV superou 70% logo na largada da produção, com projeção de ultrapassar 80% nos meses seguintes.

Este conceito de cinturão industrial compacto, testado inicialmente em Minas Gerais e depois aperfeiçoado no Nordeste, voltaria a se repetir, anos mais tarde, na expansão da produção da marca no Sul-fluminense. A planta de Porto Real, RJ, fundada em 2001 pelo Grupo PSA e incorporada, a partir de 2021, ao parque industrial da Stellantis, tornou-se multimarca e já produz, além de modelos Citroën, o novo Jeep Avenger.

A ERA STELLANTIS

A terceira grande virada societária da década veio em 2019, quando FCA e o grupo francês PSA, controlador das marcas Peugeot e Citroën, anunciaram a fusão que resultaria na Stellantis, formalizada em janeiro de 2021.

O novo grupo se transformou no quarto maior fabricante de veículos do planeta, reunindo catorze marcas em seu portfólio global. Para a operação brasileira a mudança consolidou o Polo Automotivo de Betim como sede da Stellantis na América do Sul, com grande capacidade autônoma de engenharia para desenvolver e produzir um carro do primeiro traço à última peça montada.

Nesse período o complexo industrial de Betim mergulhou em um maciço ciclo de investimentos de R$ 16 bilhões, de 2016 a 2024, focado no desenvolvimento de novos produtos – dentre eles a nova geração da picape Strada e a entrada no segmento de SUVs com Pulse e Fastback – além de motores turbo e sistemas de conectividade.

Foi também sob a bandeira Stellantis que a Fiat brasileira executou a transformação de identidade mais profunda de sua história recente. Em 2020 o grupo deu início a um amplo processo de reposicionamento de marca no Brasil, um trabalho que mobilizou diferentes áreas internas, concessionários e parceiros por quase um ano.

Foi durante esse movimento que chegou ao mercado a nova Strada, marcando a renovação completa da picape mais vendida do País, agora com cabine dupla de quatro portas e cinco lugares, configuração inédita até então na categoria de picapes pequenas, além de recursos como controle de estabilidade e sistema multimídia conectado.

No ano seguinte, 2021, a Fiat deu um passo que faltava havia décadas em seu portfólio brasileiro: o lançamento do Pulse, primeiro SUV nacional da marca, desenvolvido e produzido inteiramente no País. Naquela época a Fiat também aproveitou o momento para apresentar o Fiat 500e, primeiro veículo totalmente elétrico oferecido no mercado brasileiro pela marca.

Em 2022 foi a vez do Fastback, primeiro SUV-cupê da Fiat no País, produzido em Betim e recebido como uma tentativa bem-sucedida de unir design diferenciado a tecnologia embarcada mais sofisticada do que o histórico recente da marca sugeria.

No mesmo ano o Pulse Abarth se tornou o primeiro SUV desenvolvido pela divisão esportiva em qualquer mercado do mundo.

A eletrificação leve chegou de forma mais ampla em 2024, quando Pulse e Fastback passaram a oferecer a tecnologia híbrida leve, MHEV, que integra o motor a combustão a um alternador elétrico para melhorar eficiência e reduzir emissões.

A mesma tecnologia chegaria à picape Toro em 2026, tornando-a a primeira picape híbrida leve produzida no Brasil com sistema de 48V. Em 2024 a família de picapes ficou completa com a chegada da Titano, marcando a entrada da marca no segmento de picapes médias na região.

ECOSSISTEMA COMPLETO

A última década transformou o complexo de Betim em um centro de desenvolvimento automotivo completo. Hoje a Stellantis possui 100% de autonomia tecnológica na região para conduzir todas as etapas de um veículo, da concepção à validação final.

As antigas instalações evoluíram para ecossistema que emprega mais de 19 mil pessoas de forma direta, com capacidade produtiva de até 650 mil veículos e 1,1 milhão de motores por ano.

No centro desta competência está o Tech Center Stellantis, que reúne mais de sessenta laboratórios e abriga cerca de 3 mil engenheiros, designers e técnicos. Esta estrutura inclui o Virtual Center, criado em 2019, que utiliza inteligência artificial, simulações preditivas e realidade imersiva para acelerar os projetos e antecipar falhas antes mesmo da construção de protótipos físicos.

“Atuamos com a indústria 4.0 de uma forma gigantesca, mas aquela massa de dados começou a ficar muito difícil de lidar”, afirma o diretor de manufatura Glauber Fullana. “Hoje já trabalhamos muito com inteligência artificial para compilar tudo e tomar decisões rápidas.”

A virtualização também eliminou antigos gargalos físicos e paradas críticas nas esteiras para adaptação de novos modelos: “Temos toda a linha desenhada dentro do computador, utilizamos o Digital Twin, ou gêmeos digitais, e fazemos a simulação 3D antes de aplicar na linha, reduzindo muito o tempo de instalação e o tryout”.

Ao lado do Tech Center há o Safety Center, também inaugurado em 2019 com aporte inicial de R$ 40 milhões. No fim de 2024 o moderno centro de ensaios de colisões atingiu a marca de 1 mil crash tests realizados e estrutura ampliações para realizar protocolos específicos para baterias de alta tensão e atender às novas exigências do Programa Mover.

O salto tecnológico caminha ao lado da pauta ambiental. Baseado na estratégia dos 4Rs, de Remanufatura, Reparo, Reuso e Reciclagem o polo de Betim consegue reduzir a necessidade de novas matérias-primas em até 80%. A fábrica já operava com a certificação Aterro Zero desde 2011, reciclando e reutilizando 100% dos resíduos industriais por meio da sua Ilha Ecológica, e conta com um avançado sistema que reaproveita 99% da água.

CINQUENTONA AINDA JOVEM

Olhando para frente o ciclo de investimentos mais recente é também um dos maiores já programados na história da fábrica mineira: R$ 14 bilhões de 2025 a 2030, voltados sobretudo ao desenvolvimento da tecnologia batizada de Bio-Hybrid, que combina motores flex a sistemas de propulsão eletrificados.

Esta é uma aposta que a Stellantis utiliza como estratégia para manter a competitividade da marca sem abandonar o motor flex, tecnologia predominante no mercado brasileiro.

A adaptação produtiva para estes novos propulsores exigirá grande flexibilidade do polo mineiro, observa Fullana: “Na mesma linha de montagem passarão o carro a combustão, o híbrido e o elétrico. A bateria dos carros seguirá a tendência dos celulares: ficar menor, carregar mais rápido e o preço cair. Nós temos que nos adaptar a isto adicionando estações de trabalho e qualificando as pessoas de forma diferenciada para a parte de segurança”.

Apesar do peso estrutural das mudanças ele é categórico sobre a disposição da fábrica diante do novo aporte financeiro: “Saber que temos estes R$ 14 bilhões mostra que esta é uma planta cinquentona mas que ainda está com o pique de um jovem de 15, 18 anos”.

As políticas industriais também impulsionam as mudanças, como mostra João Irineu Medeiros, vice-presidente de relações regulatórias da Stellantis: “Nós temos programas de eficiência energética que são de Estado. De 2017, quando entrou o Inovar-Auto, a 2027, com a chegada do Mover, teremos uma redução de 35% de CO2 na frota brasileira [de veículos vendidos no período]. É um número muito importante. O etanol ajuda muito porque, na avaliação do berço ao túmulo, o CO2 que sai do escapamento é capturado pela plantação de cana da próxima safra. Então, do ponto de vista ambiental, é praticamente igual a um carro elétrico”.

O investimento em Betim integra um plano ainda maior da Stellantis, de R$ 32 bilhões para toda a América do Sul no mesmo período, sendo R$ 30 bilhões apenas no Brasil. O conglomerado também sinalizou que o polo de Minas Gerais passará a produzir modelos globais sobre a plataforma STLA, sucessora da atual arquitetura CMP utilizada pelos seus SUVs.

A LÍDER QUER MAIS

O compromisso assumido publicamente pela Stellantis é lançar um modelo inteiramente novo por ano até 2030, o que representa cinco produtos inéditos a partir de 2026 com a nova identidade visual global, caracterizado por assinaturas luminosas em LED e uma linguagem de design descrita pelo grupo como mais robusta e tecnológica.

Para 2026 a Fiat projeta o sexto ano consecutivo de liderança do mercado brasileiro, com a Strada seguindo como o veículo mais vendido do País pelo sexto ano seguido. Se atingir este feito tornaria esta fase recente comparável, em duração, ao período de hegemonia que a rival Volkswagen manteve no mercado brasileiro.

A fusão com a PSA trouxe à Stellantis brasileira um terceiro polo industrial que a Fiat, isoladamente, jamais teria herdado: a fábrica de Porto Real, operada por Peugeot e Citroën desde o início dos anos 2000. Sob a nova estrutura corporativa a planta fluminense passou a integrar a rede de manufatura que também produz veículos da própria Fiat, e recebeu este ano a montagem do Jeep Avenger.

Com objetivo de criar um parque de fornecedores concentrado, a exemplo do que foi testado primeiro em Betim e depois replicado em Goiana, Porto Real poderia unificar processos de manufatura sob um único padrão corporativo em três estados diferentes do País.

Há ainda o início da operação da marca chinesa Leapmotor no País, sócia global da Stellantis, que tem planos de nacionalizar a produção de seus modelos eletrificados em Goiana.

Os resultados comerciais mais recentes ajudam a colocar esse conjunto de mudanças em perspectiva. A Fiat fechou 2025 com 20,9% de participação de mercado. A Strada manteve a hegemonia com cinco anos consecutivos como o veículo mais vendido.

Ao cruzar a marca de meio século no Brasil a Fiat prova que longevidade na indústria automotiva não se sustenta apenas com tradição mas com a capacidade de se reinventar sempre. Após ser absorvida por reestruturações a empresa conseguiu se consolidar como um grande pilar de rentabilidade do Grupo Stellantis e a fábrica de Betim é responsável por 40% da produção mundial da Fiat, sustentando a marca como a mais vendida da companhia.

Agora, com o maior ciclo de investimentos de sua história em andamento, a empresa coroa suas bodas de ouro pronta para encarar a transição energética e ditar, mais uma vez, os rumos do mercado para as próximas décadas.

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