Tornei-me amigo de Gurgel no período em que trabalhei na revista Quatro Rodas, de 1980 a meados de 1986, e o que nos aproximou foi um certo conhecimento meu cobrindo a área de energia – álcool – e sua profunda antipatia ao álcool como carburante. Dizia que a terra dos canaviais deveria produzir arroz, feijão, milho, mandioca e que o álcool combustível seria, certamente, a causa da ruína do País.
O que diria ao olhar a realidade que vivemos hoje, agosto de 2026? O que diria de seu inimigo, hoje rebatizado como etanol, como peça central de nosso programa energético, e da presença de empresas fabricantes chinesas que têm eletricidade como foco? O que diria da mistura multicombustível, do motor flex, que hoje é a salvadora da lavoura e que nos apresenta ao mundo como local de soluções possíveis diante do caos geral? Ele morreu em 2009, aos quase 83 anos, e obviamente nunca dispôs destas respostas.
Mas quem era Gurgel? Nascido na Franca do Imperador e da rádio Hertz, perto de Ribeirão Preto, SP, em 1925, tornou-se engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Tinha uma tara, tara saudável: produzir veículos, objetos que adorava. Fez pós-graduação em Detroit, Michigan, Estados Unidos, e trabalhou na Buick e na General Motors Truck e Coach. Foram tempos de aprendizado.
Voltou ao Brasil e em 1958 investiu na área de moldados plásticos produzindo luminosos. Seis anos depois inaugurou a Macan, concessionária Volkswagen que “também fabricava karts, mini-carros infantis e um transportador industrial para movimentação de cargas em fábricas e aeroportos”, o Mocar, de acordo com sua biografia publicada pela Wikipedia.
A Gurgel Indústria e Comércio de Veículos surgiu em setembro de 1969.
Ainda segundo a Wikipedia sua carreira “foi marcada pela busca do desenvolvimento de tecnologias automotivas nacionais, utilizando capital igualmente nacional. Característica marcante nos veículos fabricados por sua empresa eram as suas carrocerias de fibra de vidro” – e este era um dos pontos de nossas discordâncias.
Do ponto de vista de segurança de motorista e passageiros fibra de vidro não era, exatamente, a escolha protetora de vidas. Mais de uma vez o desafiei a submeter seus carrinhos a crash-tests – e ele ficava furioso comigo. Claro que não seriam aprovados.
No verão de 1985 fui visitá-lo no galpão de Rio Claro, ali perto de Piracicaba, onde nasci, às margens da Rodovia Washington Luiz. Cheguei cedo e curioso para conhecer o desenvolvimento que ele conseguia a partir de baterias tetrapolares elétricas. Ele queria fugir do petróleo e da biomassa. Na época o petróleo estava em falta e custava os olhos da cara e do álcool carburante ele era inimigo.
Gurgel, sonhador, era um profissional aplicadíssimo, muito ligado à ideia de P&D, ligado na tomada de 220 volts da sua criatividade. Sempre o admirei por isto. Também era um petroleiro, no pior sentido: acreditava na perenidade do óleo negro e não dava a mínima à rapaziada barbuda e às moças ecologistas a denunciarem o caos em que se transformaria o meio-ambiente décadas depois.
Botou ações da Gurgel no pregão da Bovespa e muitos jornalistas compraram lote pessoal de papeis em homenagem a João e ao seu objetivo e esforço de produzir carro brasileiro, de produzir carro nacional. No sentido geral a ideia era muito razoável e a encrenca residia na conjunção fibra de vidro somada a baterias sem futuro: eram de curtíssima duração. Porque toda a empreitada de João, todas as suas possibilidades como fabricante de veículos, esbarrava, também, numa fórmula simples descoberta por Daimler, depois sócio de Benz, afinal equacionada por Ford, Henry Ford, em Dearborn, Michigan: sem escala não há indústria nem consumidores satisfeitos.
João Gurgel, assim, não foi vítima de enquadramento pelas Big Three de Detroit nem das francesas nem daquelas da Germânia ou do reino de Roma. Ele, simplesmente, não tinha grana, não tinha bufunfa para manter uma empresa fabricante de veículos. O mundo da produção de veículos impõe investimento massivo antes mesmo da contratação do funcionário número 1, antes que o primeiro projeto seja apresentado às linhas de produção e muitíssimo antes que, transformado em unidade rodante, chegue às mãos de seu primeiro dono feliz.
O mítico John de Lorean conheceria esta realidade perto de Belfast, Irlanda do Norte, onde localizou sua unidade produtiva, no início dos anos 1980.
Mas Gurgel, de tradicional família conservadora da terra de Anhanguera e de Fernão Dias Paes Leme, se fiava numa relação pouquíssimo empresarial para bancar o sonho de sua vida, o sonho da indústria brasileira de veículos: sua ligação com os meganhas que tomaram conta do poder nas terras brasiliensis em 1964.
Não tenho, e nunca tive, noção do tamanho do dinheiro que ele obteve, nos anos 1970 e 1980, originado de projetos mambembes que apresentou – pro forma, claro – ao BNDES, no qual tinha poder de influência por meio de milicos seus amigos de família. Aposto que foi grana pra cacete para projetos que não ultrapassavam a fibra de vidro e que só se moviam por causa de mecânica Volkswagen – mais mamãe com papai impossível.
Ou seja: não havia nem técnica nem tecnologia nacional que o salvasse.
Hoje, acredito, João não correria atrás de mim com taco de sinuca na mão em volta da piscina de sua casa na chácara de Rio Claro antes do almoço e aos olhos de não-acredito de sua mulher, Carolina, só porque disse, de uma tacada a outra sobre o pano verde, que ele e sua indústria não tinham futuro diante do avanço de técnicas muito mais contemporâneas que não estavam disponíveis diante do dinheiro com o qual o BNDES não o brindava mais.
Os tempos eram os de Sarney mas já eram outros. Eram tempos abertos aos poderes de influência mas não mais para ele: pois João, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, aquela simpatia, torrara quase toda aquela grana recebida a leite de pato do BNDES para denunciar o aventureirismo do avanço do álcool da região onde morava, a de Piracicaba, para a de Ribeirão Preto e para a do Centro-oeste.
Bancou várias vezes cartas abertas nas capas das edições de fim de semana dos grandes jornalões e revistas da época denunciando o catastrofismo à vista da falta de alimentos diante do avanço dos canaviais.
Enfim, com o nome de etanol, o álcool carburante hoje é a salvação energética do País.






















