São Paulo — Imagine um ônibus rodoviário que sabe que encontrará uma subida, também conhecida como aclive, alguns quilômetros à frente antes mesmo de o motorista enxergá-la. É justamente esta capacidade de antecipação que está por trás do I-See, tecnologia desenvolvida pela Volvo para tornar o trem de força mais eficiente a partir das características da estrada.
Na prática o sistema utiliza informações de topografia obtidas por GPS e mapas digitais para identificar antecipadamente aclives e declives. A partir destes dados a eletrônica do veículo decide como trabalhar com velocidade, rotação, torque e trocas de marcha.
Mais: o I-See não analisa apenas a estrada. O sistema também considera o peso do ônibus, informação calculada pela transmissão I-Shift. Assim motor e caixa conseguem definir um roteiro de condução adequada para aquela combinação específica de veículo, carga e topografia.
Segundo Leonardo Miche, engenheiro de vendas da Volvo Buses, esta integração é fundamental para o funcionamento da tecnologia. A I-Shift opera como um dos principais elementos do sistema porque calcula o peso do veículo e, a partir das demais informações, determina como o trem de força deve trabalhar.
Da estrada desconhecida ao mapa digital
Inicialmente o I-See, presente nos caminhões da marca há alguns anos e agora em ônibus, tinha uma lógica diferente. A tecnologia precisava aprender a estrada. Na primeira passagem o veículo registrava as informações de topografia e as armazenava para utilizá-las posteriormente.
Depois a Volvo evoluiu o sistema para uma solução pré-mapeada. Ou seja: em vez de depender exclusivamente da passagem anterior do caminhão ou do ônibus pelo trecho o veículo recebe informações topográficas por meio de mapas digitais.
Com isto o I-See consegue antecipar o que encontra à frente. Segundo Miche a tecnologia utilizada atualmente consegue trabalhar com informações de topografia de até 20 quilômetros adiante.
Desta maneira o ônibus não precisa esperar chegar ao início de uma subida para decidir o que fazer. O sistema já sabe que encontrará o aclive e pode preparar o trem de força para atravessá-lo com a tática mais eficiente.
O que o ônibus faz com 20 quilômetros de informação?

Primeiro o I-See identifica a topografia à frente. Depois cruza esta informação com a velocidade do veículo e o peso calculado pela I-Shift.
Em seguida a inteligência eletrônica determina como o conjunto deve reagir. Dependendo da situação pode manter uma marcha por mais tempo, evitar uma redução desnecessária ou administrar a velocidade antes de chegar ao topo de uma subida.
Por exemplo: em uma sequência de subidas e descidas, conhecida como tobogã, o sistema pode permitir que o ônibus reduza gradualmente a velocidade durante o aclive sem tentar manter a velocidade de referência a qualquer custo. Ao superar o ponto mais alto o veículo aproveita a descida seguinte para recuperar velocidade.
Assim o objetivo não consiste simplesmente em manter o ônibus sempre na mesma velocidade. A lógica é utilizar a energia disponível de maneira mais inteligente, evitando acelerações, reduções e intervenções desnecessárias.
I-See não substitui o motorista: antecipa por ele.
Além da eficiência energética a tecnologia também age sobre um problema comum nas frotas que é a diferença de comportamento dos motoristas.
Afinal um profissional experiente consegue perceber uma subida à frente, antecipar a aceleração, aliviar o pedal no momento correto e aproveitar a descida seguinte. Já um motorista menos experiente pode manter o acelerador pressionado até o último momento e depois precisar corrigir a velocidade.
Neste cenário o I-See ajuda a aproximar os dois estilos de condução. O sistema aplica automaticamente maneira mais eficiente de dirigir independente do nível de experiência do motorista.
Por isto Miche destacou que a tecnologia pode contribuir para elevar o padrão de condução da frota. Até mesmo um motorista experiente pode não repetir a estratégia ideal em todas as viagens, enquanto o sistema mantém a lógica programada para explorar a topografia.
A I-Shift é parte essencial da inteligência
Por trás desta capacidade existe uma integração estreita da I-Shift com o motor. A Volvo já associa o I-See à transmissão automatizada nos caminhões justamente porque a caixa utiliza as informações da topografia para decidir sobre velocidade e seleção de marchas.

Nos ônibus esta arquitetura ganha importância porque o sistema precisa entender não apenas o caminho mas, também, a condição do veículo naquele momento. Um ônibus vazio e um ônibus lotado, por exemplo, apresentam demandas diferentes para vencer o mesmo aclive.
Portanto a informação de peso entra no cálculo. A I-Shift identifica esta condição e, junto com os dados da estrada, ajuda a definir a resposta do motor. Neste sentido o I-See não funciona como uma tecnologia isolada. Ele faz parte de um conjunto formado por GPS, mapas, eletrônica, motor e transmissão.
Até 3% de economia em condições favoráveis
Como consequência deste sistema todo a tecnologia pode até reduzir o consumo de combustível. De acordo com Miche a economia pode chegar a 3% em rotas nas quais o sistema encontra condições favoráveis para atuar de maneira mais intensa.
Entretanto o resultado depende do perfil do trajeto. Rotas com variações de altitude e trechos nos quais o motorista consegue utilizar o piloto automático oferecem maior oportunidade para o I-See explorar a topografia.
Além disto a Volvo mantém a aceleração inteligente como outra ferramenta de eficiência. Enquanto o I-See olha para o que está por vir, a aceleração inteligente controla a entrega de torque de acordo com a situação do veículo.
Desta forma as duas tecnologias trabalham de maneira complementar. Ou seja: uma administra a resposta ao acelerador e a outra antecipa a estrada para definir a programação do trem de força.






















