São Paulo — Mesmo diante da expectativa de o mercado de ônibus encolher 6% em 2026, em meio às elevadas taxas de juros, ao crédito escasso e à inadimplência crescente, bancos de montadoras seguem otimistas e buscam a ampliação da participação de mercado.
Tanto a Traton Financial Services, que há um ano assumiu as novas operações de financiamentos de pesados, deixando a Volkswagen Financial Services apenas com leves, quanto o Banco Mercedes-Benz partilham deste otimismo, calcado principalmente na possibilidade de oferecer crédito por meio de programas de financiamento perenes do governo.
O Refrota, Programa de Renovação de Frota do Transporte Público Coletivo Urbano, por exemplo, oferece juros a 11,5% ao ano, menores que os oferecidas durante o Move Brasil, esgotado em quarenta dias, de 13,5% ao ano. Para os ônibus elétricos o Fundo Clima do BNDES tem taxa de 10,7% ao ano e, com a mesma fonte de recursos, o Finame dispõe de 16% a 17% ao ano. Ao passo que o CDC pratica tarifas acima de 20% ao ano.
“Se a Selic está a 14% ao ano qualquer taxa de 10% ao ano faz o operador ir atrás de financiamento. É diferente pagar 14% do que pagar 10%. Precisamos ter um produto sustentável e perene na prateleira para que o operador se programe”, afirmou Leonardo Piccinini, CEO do Banco Mercedes-Benz.
O executivo contou que a Caixa Econômica Federal procurou a instituição para estruturarem, juntos, a operacionalização de linha fixa para o segmento rodoviário, o Fungetur, em referência ao Ministério do Turismo, outro parceiro na iniciativa: “O problema é a disponibilidade de orçamento. Não houve avanço na proposta até o momento”.
Para Piccinini é importante evitar o que chamou de “efeito ressaca” e sustos orçamentários de programas temporários, a exemplo do Move Brasil que, embora tenha sido extremamente benéfico ao oferecer R$ 2 bilhões ao setor, gerou antecipação de compra e até desistências pelo meio do caminho: “Além disto programas perenes como o Refrota e o Fundo Clima oferecem taxas menores que as do Move Brasil”.
O Banco Mercedes-Benz financiou, de janeiro a junho, R$ 1,4 bilhão para a compra de ônibus, sendo R$ 865 milhões por meio do Refrota, ou 65% do total do mercado nesta linha, e o restante, R$ 535 milhões, pelo Move Brasil. Desde 2024 a instituição contabiliza R$ 2,3 bilhões em crédito por meio do Refrota. E em CDC são R$ 7,5 bilhões, dos R$ 20,4 bilhões da carteira, ou seja, 36,7% do total.
Traton está no jogo
Mesmo com menos tempo de operação a Traton também já oferece estas opções. “Para um banco que começa do zero, ir ao BNDES e conseguir liberação em menos tempo do que o prazo regulamentar de dois anos foi um feito extraordinário, porque conseguimos provar a continuidade do negócio”, assinalou Eduardo Portas, CEO da Traton Financial Services, referindo-se ao Finame, liberado em sete meses de operação. O Refrota passou a ser ofertado em março, também um pouco antes de um ano, que é o prazo médio.
Segundo Portas hoje 40% das vendas são feitas à vista, o que inclui licitações do governo, a exemplo do Caminho da Escola e leilões do Ministério da Saúde. Outros 10% são via consórcio e 50% são financiados. Da jovem carteira da Traton, que já contabiliza R$ 5,5 bilhões, em torno de 8% dos ativos são ônibus, o que dá R$ 440 milhões.
“O plano é encerrar o ano com R$ 7 bilhões, incluindo os caminhões”, afirmou Portas, o que levaria os ônibus a parcela de R$ 560 milhões. “A carteira tende a crescer 20% ao ano. Trata-se de conta matemática: se ela dura cinco anos, frente ao prazo médio de financiamento, de 54 meses, a expectativa é de alta, mesmo no cenário atual.”

Inadimplência é forte percalço
Pedra no sapato de ambas as instituições, porém, é a crescente inadimplência. O que dificulta, inclusive, o acesso das empresas a recursos cuja fonte é o BNDES, e as exigências são maiores para, em contrapartida, oferecer o crédito a juros subsidiados.
“Existe uma correlação de 99% da Selic com a inadimplência de pessoa jurídica. Se a Selic subiu três a seis meses depois a inadimplência cresce”, disse Portas. E, diante do não pagamento das parcelas acima de noventa dias, é praticada a retomada do bem. O que é mais complicado no caso de ônibus do que de caminhões. “Se for um ônibus urbano, por exemplo, complica por causa das especificações de cada cidade. Você não pode pegar um ônibus de Curitiba e vender em São Paulo.”
Mercedes-Benz faz piloto de locação
Neste cenário o Banco Mercedes-Benz começou a testar formato piloto de locação: “Seis meses atrás eu diria que não havia demanda. Mas, desde o início do ano, visitando clientes e batendo cabeça, vimos que há procura. Isto porque havia expectativa de a Selic cair em velocidade maior, o que não aconteceu”, afirmou o CEO. “Além disto a reforma tributária que começa em janeiro beneficia todas as empresas que fizerem a locação”.
Mesmo diante do potencial de crescimento da modalidade a questão que fica é a mesma que atormenta o avanço das vendas: como crescer administrando a inadimplência: “Este é realmente o calo no sapato. O que me tira o sono? É a inadimplência”.






















