Tive a honra de ancorar, na última terça-feira, 25, o Fórum AutoData Perspectivas Veículos Comerciais, durante o qual debatemos longamente o presente e o futuro dos mercados de caminhões, ônibus, implementos rodoviários e carroçarias.
Falamos sobre crédito, renovação de frota, compras governamentais, exportações, novas tecnologias e a chegada das marcas chinesas. Mas um problema apareceu em praticamente todas as discussões: os juros elevados.
Eles foram apontados como o principal obstáculo ao crescimento de todos os segmentos, pois dificultam a compra de caminhões, adiam a renovação dos ônibus, reduzem os pedidos de implementos e carroçarias e limitam novos investimentos.
É fato que o mercado de veículos comerciais depende muito de financiamento. São produtos de alto valor, adquiridos como ferramentas de trabalho, cuja compra precisa caber na conta do transportador. Com a Selic em 14% ao ano e juros ainda mais elevados na ponta, em grande parte por causa disso, essa conta simplesmente não fecha na maioria das vezes.
Os transportadores autônomos enfrentam situação ainda mais difícil. Muitos não conseguem apresentar as garantias exigidas ou possuem restrições cadastrais. Ou seja: até existem recursos disponíveis, mas eles nem sempre chegam a quem mais precisa.
Programas como o Move Brasil ajudaram e evitaram que a retração fosse muito maior até agora, neste 2026. São, contudo, respostas pontuais para um problema permanente. O Brasil, na minha opinião, não pode depender eternamente de medidas emergenciais para fazer o mercado funcionar. Precisamos de uma política de financiamento de longo prazo.
Também chegou a hora de discutir se as regras que orientam nossa política monetária continuam compatíveis com as necessidades de desenvolvimento do País. Controlar a inflação é indispensável, porque ela reduz o poder de compra, atinge principalmente as famílias de menor renda e prejudica o planejamento das empresas. Mas combater a inflação não pode significar simplesmente paralisar a atividade econômica.
A meta de inflação brasileira é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo. O limite superior, portanto, é de 4,5%. O IPCA acumulado em doze meses até julho já ficou em 4,44%, enquanto o IPCA-15, a prévia da inflação oficial, recuou para 4,24% nos doze meses encerrados em agosto.
Ou seja, a inflação já está dentro do intervalo de tolerância, embora continue acima do centro da meta. É verdade que o Banco Central não toma suas decisões olhando apenas para a inflação passada: considera também as expectativas, a situação fiscal, o nível de atividade e as projeções para os próximos meses. Ainda assim, diante da desaceleração dos índices e dos sinais cada vez mais claros de perda de força da economia, é legítimo perguntar por que a taxa básica permanece em 14%.
E todo mundo está gritando que essa política precisa mudar. Por isso, talvez tenha chegado o momento de discutir se uma meta central de 3% continua compatível com a realidade econômica brasileira. Uma meta mais próxima de 4%, com limite superior ao redor de 5%, poderia reduzir o custo necessário para controlar os preços e abrir espaço para uma política monetária menos restritiva.
Isso não significaria aceitar a inflação sem controle. É evidente que qualquer revisão precisaria ser acompanhada de responsabilidade fiscal, previsibilidade e compromisso com a estabilidade econômica. Caso contrário, poderia elevar as expectativas de inflação e produzir o efeito oposto ao desejado.
Também não seria uma solução imediata, pois uma mudança desse porte exigiria antecedência e credibilidade para não parecer simples flexibilização diante das dificuldades do momento. Ainda assim, é uma discussão que o País deveria começar agora. E isso, no meu ponto de vista, é emergencial.
A dívida pública também costuma ser apresentada como justificativa para a manutenção dos juros elevados. Ela alcançou 81,1% do PIB em maio, índice que exige atenção, mas não explica, sozinho, o custo do dinheiro no Brasil. Considerando-se os dados comparáveis de dívida bruta dos governos, os Estados Unidos superam 120% do PIB e o Japão passa de 200%. Mesmo assim, os dois países convivem com juros muito inferiores aos brasileiros.
Naturalmente, existem diferenças importantes. O dólar é a principal moeda de reserva mundial, enquanto o Japão possui elevada poupança interna. Os dois países também contam com mercados financeiros profundos e longa credibilidade junto aos investidores. Esses exemplos demonstram, porém, que não existe uma relação automática entre o tamanho da dívida e a taxa de juros.
No Brasil há, ainda, uma contradição evidente. Os juros são mantidos elevados, em parte, devido à preocupação com a trajetória da dívida, mas esses mesmos juros aumentam o custo de seu financiamento, ampliam o déficit nominal e fazem o endividamento crescer ainda mais.
Ao mesmo tempo, reduzem os investimentos e limitam o crescimento da economia. Com um PIB menor, a relação entre dívida e produção torna-se ainda mais difícil de controlar. Forma-se, assim, um círculo vicioso: a dívida ajuda a manter os juros elevados e os juros elevados alimentam a dívida.
A responsabilidade fiscal é indispensável. Mas é legítimo perguntar se o remédio aplicado para controlar o problema não está também contribuindo para agravá-lo.
No caso específico do transporte, juros menores permitiriam renovar uma frota envelhecida, reduzir emissões, melhorar a segurança e elevar a produtividade. Também estimulariam a produção e a geração de empregos em toda a cadeia.
Mas essa discussão não interessa apenas ao setor automotivo. Toda a indústria brasileira precisa de crédito acessível para investir, inovar e competir. Um país que exige de suas empresas padrões internacionais de eficiência não pode submetê-las permanentemente a um custo de capital tão elevado.
O Fórum AutoData deixou uma mensagem final muito clara: existe demanda, existem produtos e existe disposição para investir. O que falta é fazer o dinheiro voltar a circular!
O Brasil precisa controlar a inflação, mas também precisa voltar a crescer. Encontrar o equilíbrio entre esses dois objetivos não é tarefa apenas do Banco Central. É uma decisão estratégica sobre o futuro que desejamos para o País.























