Hannover, Alemanha – O Brasil deixou de ser apenas um importante mercado consumidor para assumir papel estratégico no desenvolvimento global de ônibus da Mercedes-Benz. A avaliação é de Till Oberwörder, presidente da Mercedes-Benz Buses, que vê no País escala, engenharia, diversidade de aplicações e capacidade de adaptação para gerar soluções destinadas a outros mercados.
Segundo o executivo, a operação brasileira funciona como centro de competência para chassis e soluções de transporte de passageiros. “O que funciona no Brasil pode funcionar em outros lugares. E o que funciona em outros mercados também pode ser levado para o Brasil”.
A estratégia ganha relevância em um momento de transformação do transporte coletivo. Para Oberwörder a transição energética não terá uma única tecnologia: a eletrificação avança nos centros urbanos, enquanto aplicações rodoviárias exigem alternativas em razão das distâncias e da infraestrutura disponível.
Escala brasileira influencia decisões globais
No ano passado a Mercedes-Benz Buses comercializou cerca de 27 mil unidades globalmente, das quais aproximadamente 17 mil no Brasil. O País respondeu por parcela expressiva das vendas mundiais da divisão.
Além da escala Oberwörder destaca a diversidade das condições de operação brasileiras. Estradas, clima, aplicações, características de frota e diferentes níveis de infraestrutura criam um ambiente de testes para novas soluções e ajudam a desenvolver produtos e serviços para mercados semelhantes, incluindo países da América Latina e da África.
O executivo também cita a força da engenharia brasileira, cujo conhecimento alimenta uma rede global de competências dentro da companhia.
Eletrificação avança, mas não será igual para todos
Oberwörder considera que a eletrificação encontrou um caminho mais claro nos ônibus urbanos. Rotas previsíveis e possibilidade de recarga em garagens ou pontos determinados favorecem a adoção dos modelos elétricos.
O cenário muda nos ônibus rodoviários. As maiores distâncias exigem baterias maiores, mais autonomia e uma rede de carregamento compatível com as rotas.
Por isso, a Mercedes-Benz mantém uma abordagem multi tecnológica. A empresa continuará desenvolvendo ônibus elétricos, mas também avalia alternativas para aplicações de longa distância, incluindo combustíveis de menor emissão.
Para o executivo biocombustíveis podem desempenhar papel relevante durante a transição, principalmente em mercados como o Brasil, com forte produção agrícola e disponibilidade de combustíveis renováveis.
Do produto ao ecossistema
A transformação também muda a relação da fabricante com os clientes. Oberwörder destaca que a Mercedes-Benz precisa acompanhar o veículo durante todo o ciclo de vida, combinando produto, pós-venda, gestão de dados e soluções financeiras.
Nesse cenário o conceito de veículo definido por software começa a ganhar espaço nos ônibus. A coleta e análise de dados operacionais podem permitir ajustes mais precisos de desempenho, manutenção e consumo, além de criar novos serviços para operadores.
A eletrificação, portanto, não representa apenas uma mudança de motorização, mas abre espaço para um modelo de negócio mais conectado ao ecossistema de mobilidade.
Brasil como laboratório
Oberwörder vê na capacidade de combinar engenharia, fabricação, vendas e pós-venda uma das principais forças da operação brasileira.
A estratégia é aproveitar a experiência acumulada no País para desenvolver soluções globais e trazer tecnologias de outras regiões ao mercado brasileiro. Nesse processo, a operação local precisa manter flexibilidade para acompanhar diferentes velocidades de transição energética.
“Confiança não é construída apenas quando o veículo é vendido. Ela precisa ser construída durante todo o ciclo de vida”.
Para a Mercedes-Benz Buses, essa relação de longo prazo, associada à engenharia e à capacidade de adaptação, pode manter o Brasil no centro da estratégia global de ônibus da companhia.























