São Paulo — O Brasil tem capacidade para desenvolver tecnologias próprias para o transporte, mas precisa conectar engenharia, produção industrial e políticas públicas. Essa é a avaliação de Rafael Torres, diretor executivo de engenharia da Cummins, que defende incentivos de longo prazo para fortalecer a indústria nacional e reduzir a dependência de tecnologias desenvolvidas no Exterior.
Segundo o executivo o País já reúne condições para avançar em diferentes rotas tecnológicas, especialmente nos biocombustíveis. No entanto, a falta de políticas industriais direcionadas limita a velocidade dos investimentos. Do mesmo modo, dificulta a transformação do conhecimento técnico em produtos fabricados localmente.
“Se eu não produzir nada aqui, vou continuar à mercê da demanda e das regras de fora do País”, disse Torres. Para ele o Brasil precisa criar condições para que a indústria instalada localmente desenvolva soluções, produza em escala e conquiste competitividade nos mercados interno e externo.
Nesse contexto o executivo defende uma atuação coordenada do governo com as empresas. Embora reconheça a importância dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, ele ressalta que a inovação precisa chegar à linha de produção para gerar resultados econômicos.
Biocombustíveis podem diferenciar o Brasil
Dentre as oportunidades para a indústria brasileira Torres destaca os biocombustíveis. Na avaliação dele, o País pode aproveitar sua experiência com combustíveis renováveis para desenvolver tecnologias adequadas às condições locais e, posteriormente, exportá-las para outros mercados.
O executivo cita o etanol como exemplo de uma cadeia que pode impulsionar o desenvolvimento tecnológico nacional. Para ele, o Brasil também precisa acelerar os investimentos em soluções para motores que utilizam combustíveis de origem renovável, com o objetivo de ampliar as alternativas energéticas disponíveis para o transporte. “Por que a gente não torna isso uma questão de soberania?”.
A proposta, segundo Torres, não significa apostar em uma única tecnologia. Pelo contrário, o Brasil pode desenvolver diferentes soluções de propulsão. Mas deve aproveitar as vantagens competitivas que já possui, principalmente na área de biocombustíveis.
Além do potencial tecnológico, essa rota pode reduzir a exposição do transporte às oscilações do mercado internacional de petróleo. Para os transportadores, a diversificação energética também pode diminuir a dependência do diesel fóssil e ampliar as opções de abastecimento, conforme a disponibilidade e a viabilidade econômica de cada aplicação.
Entretanto, o executivo avalia que o desenvolvimento dessa cadeia depende de políticas públicas capazes de estimular investimentos e ampliar a produção nacional. “Não existe uma política de Estado muito específica para atender a essa demanda, algo que possa transformar o Brasil em um país soberano nessa tecnologia”.

Incentivos precisam chegar à indústria
De acordo com o executivo, o Brasil precisa ir além do financiamento à pesquisa e criar mecanismos que estimulem a fabricação local. A existência de centros de desenvolvimento e parcerias com institutos de ciência e tecnologia representa um avanço, mas não resolve, isoladamente, o desafio da competitividade.
Na sua avaliação, incentivos à produção podem atrair investimentos, ampliar a geração de empregos e fortalecer a cadeia de fornecedores. Com uma indústria mais robusta, o País também teria melhores condições de desenvolver tecnologias alinhadas às suas necessidades e reduzir a dependência de soluções concebidas para outros mercados.
Como referência, Torres cita experiências internacionais em que governos e empresas atuam de forma coordenada para desenvolver setores considerados relevantes para a economia. Ele menciona os Estados Unidos, a China e a Índia como exemplos de países que buscam fortalecer suas indústrias por meio de diferentes modelos de apoio.
Nesse sentido, ele também recorda a trajetória da Embraer, que recebeu apoio estatal antes de seguir como empresa privada, e da Petrobras, criada como parte de um projeto nacional para o setor de energia. Para ele, esses exemplos mostram como decisões de longo prazo podem contribuir para consolidar capacidades industriais.
“Não estou falando de uma questão política de direita ou esquerda. Estou falando de uma política de Estado e de indústria”.
Ainda assim, Torres pondera que a proteção do mercado, sem investimentos em produtividade, não garante competitividade. Na avaliação dele, o Brasil já enfrentou dificuldades tanto ao proteger determinados segmentos quanto ao ampliar a abertura comercial sem preparar adequadamente os fabricantes locais.
“Quando protegemos o mercado não investimos em produtividade. Depois, quando abrimos, não conseguimos competir. Agora, com a chegada dos chineses, não estamos prontos de novo”.
Fabricantes chineses ampliam a pressão
A expansão das marcas chinesas no Brasil aumenta a pressão sobre os fabricantes tradicionais de veículos comerciais. Embora Torres considere que a entrada desses concorrentes no segmento de caminhões possa ocorrer em ritmo diferente daquele observado no mercado de automóveis, o alerta é que a indústria local não deve subestimar o movimento.
A venda de caminhões exige uma estrutura de atendimento mais complexa. Além do produto, transportadores e frotistas dependem de disponibilidade de peças, manutenção, assistência técnica e uma rede capaz de atender aos veículos durante toda a operação. Essa característica pode tornar a expansão mais gradual, mas não elimina a pressão competitiva. À medida que os fabricantes chineses ampliam sua presença e desenvolvem redes de atendimento, os concorrentes instalados no País precisam sustentar seus níveis de produtividade e eficiência.
Ao mesmo tempo, Torres chama a atenção para as diferenças nas condições de competição. Segundo ele, fabricantes globais podem contar com apoio de seus países de origem, enquanto empresas que produzem no Brasil enfrentam custos e condições locais que nem sempre permitem disputar o mercado em igualdade.
Para o executivo, o desafio não se resume a proteger os fabricantes nacionais da concorrência externa. O País precisa criar condições para que a indústria produza melhor, invista em tecnologia e ofereça produtos competitivos sem depender permanentemente de barreiras comerciais.
Competitividade precisa de retorno econômico
Outro ponto levantado por Torres é a necessidade de apresentar o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono também sob a perspectiva econômica. Embora os biocombustíveis e a redução das emissões tenham relevância ambiental, o executivo considera que a indústria precisa demonstrar os benefícios econômicos dessas soluções para assegurar investimentos contínuos.
“Se não tiver um fator econômico, não existe. É sustentabilidade, mas é dinheiro, é economia, é emprego. É isso que tem de ser contado”.
A avaliação reflete a importância de associar as metas ambientais à viabilidade dos produtos, à produtividade e à geração de valor. Para a indústria de veículos comerciais, o desenvolvimento de uma nova tecnologia precisa considerar não apenas as emissões, mas também os custos de fabricação, a disponibilidade de combustível, a manutenção e as condições reais de operação.
Nesse cenário, Torres observa que diferentes países adotam prioridades distintas para fortalecer suas empresas. Enquanto alguns modelos privilegiam a rentabilidade imediata, outros dão maior peso à conquista de participação de mercado e à expansão da capacidade produtiva.
Na visão do executivo o Brasil precisa definir como pretende competir e quais segmentos deseja desenvolver. Sem essa definição, o País corre o risco de manter centros de engenharia e conhecimento técnico sem conseguir converter essas capacidades em produção industrial de maior valor agregado.
Cummins defende avanço tecnológico
Para a Cummins o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas faz parte do caminho para ampliar a eficiência dos motores e reduzir as emissões. Nesse sentido, a companhia busca atuar em ambientes com exigências técnicas elevadas e desenvolver soluções para diferentes necessidades do mercado.
“Queremos biocombustíveis, queremos legislações de emissões mais rigorosas. Temos tecnologia e produtos para melhorar cada vez mais”.
O executivo também relaciona o avanço tecnológico ao fortalecimento da cadeia produtiva. Segundo ele, o desenvolvimento de soluções mais sofisticadas pode ampliar a demanda por fornecedores, estimular a geração de empregos e contribuir para a arrecadação de impostos.
Entretanto ressalta que os fabricantes de motores dependem das condições oferecidas pelo mercado e pelos fabricantes OEM. Mesmo quando existe interesse em incorporar tecnologias mais avançadas, os investimentos precisam fazer sentido diante dos custos e da competitividade dos produtos finais.
Por isso, Torres defende que o Brasil combine exigências técnicas, incentivos à produção e previsibilidade regulatória. Na avaliação dele, essa combinação pode ajudar a indústria a desenvolver soluções adequadas ao mercado brasileiro e, ao mesmo tempo, ampliar sua capacidade de competir internacionalmente. “Falta organizar”.























