Os veículos chineses estão ganhando por goleada o jogo do mercado brasileiro. Por incapacidade de competir os fabricantes instalados no País recorrem à velha tática de virar a disputa no tapetão – no caso, apelam ao governo pela mudança de regras no meio da partida, com imposição de taxação extra a ser cobrada de produtos importados.
Foi o que ouviu de representantes da Anfavea na quinta-feira, 29, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, importante interlocutor da indústria junto ao governo desde que era ministro do Desenvolvimento, agora reeleito para mais quatro anos ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem se espera a continuidade das políticas de incentivo à reindustrialização do País.
Igor Calvet, presidente da Anfavea, acompanhado de treze vice-presidentes que representam montadoras na entidade que reúne os fabricantes instalados no País, fizeram uma visita a Alckmin levando propostas para, segundo eles, “tentar sobreviver” ao cenário atual de mercado volátil, juros altos, elevação de custos e a concorrência de novas marcas de veículos leves, pesados e máquinas que chegam da China com preços e tecnologias que as empresas já instaladas no País não conseguem replicar sem perder dinheiro.
Ironia do destino foi justamente os preços baixos dos chineses – que nem são tão baixos assim mas têm melhor relação de custo-benefício – que derrubaram os valores médios dos veículos e fizeram o mercado crescer este ano bastante acima das expectativas dos próprios fabricantes, que no início de 2026 esperavam por avanço da ordem de 5%, três vezes menos do que a agora esperada expansão de 16%, para quase 3 milhões de veículos leves.
O problema, para os fabricantes, é que esse crescimento não veio deles, mas dos importados chineses, montados e desmontados.
Propostas para sobretaxar os chineses
Para tentar conter a invasão chinesa a Anfavea levou três propostas ao vice-presidente, todas ainda pendentes de mais elaboração e negociações, conforme apurou este colunista em reportagem publicada no portal AutoData.
O primeiro pleito é pela adoção de salvaguardas de defesa comercial específicas para veículos importados da China, na prática um aumento do imposto de importação atualmente estabelecido em 35%.
E para salvaguardar os interesses de muitas das empresas associadas da Anfavea ficariam de fora da sobretaxação as importações das montadoras que têm produção nacional. Também ficariam isentas as importações de kits CKD e SKD de veículos desmontados ou semimontados, pois a operação já é usada por associadas como Stellantis, General Motors e Renault Geely.
A segunda proposta é parecida com a primeira: prevê uma sobretaxação por meio a criação da CIDE Automotiva, Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, que seria aplicada diretamente sobre o valor do veículo importado em paralelo com o imposto de importação de 35%.
A CIDE é um tributo com alíquota variável utilizado atualmente para regular os preços de combustíveis e seria adaptada às importações de veículos leves, pesados e máquinas de qualquer origem, mas com claro objetivo de tentar limitar a aceleração das importações da China. Dependendo das negociações a CIDE Automotiva também poderia incidir sobre autopeças e partes importadas.
Cotas de importação
A terceira proposta levada a Alckmin requer mais tempo de maturação e negociações dos governos brasileiro e chinês. A Anfavea propõe a adoção de cotas máximas de importação de veículos da China equivalentes a 2,5% a 3% do mercado brasileiro, o que este ano corresponderia a aproximadamente 75 mil a 90 mil veículos.
Esta medida reduziria expressivamente o volume de importação de veículos da China com relação aos volumes atuais: em apenas nove meses, de janeiro a setembro, foram importados quase 255 mil veículos de mais de uma dezena de marcas chinesas. Isto sem contar mais de 100 mil unidades importadas desmontadas em kits CKD/SKD.
A proposta imita o que já fez a União Europeia, que recentemente fechou acordo com a China para limitar a 350 mil unidades por ano – número equivalente a 2,5% do mercado europeu – as importações de veículos híbridos pelos 27 países do bloco.
A UE já aplica, desde o ano passado, tarifa que pode chegar a 45% sobre carros elétricos importados da China, mas os híbridos ficaram de fora da sobretaxação, o que motivou aumento expressivo das importações de modelos eletrificados, que podem superar 800 mil unidades este ano.
Preservação de interesses
As propostas de sobretaxação levadas a Alckmin pela Anfavea lembram o que foi feito em 2012 com o Inovar-Auto, que aplicou 30 pontos porcentuais extras na alíquota de IPI cobrado de carros importados.
Mas na época houve a liberação de cotas isentas de menos de 5 mil veículos por ano para todos os importadores, além de de isenções adicionais para empresas que investissem em construir fábricas no Brasil, em volumes equivalentes a até 50% da capacidade de produção nacional anunciada.
A principal diferença do Inovar-Auto é que, desta vez, ninguém no governo falou em pedir contrapartidas em troca da proteção contra os importados. O programa adotado em 2012 e os que vieram depois, Rota 2030 e Mover, introduziram benefícios à indústria em troca de investimentos na produção local, adensamento da cadeia de fornecedores, inclusão tecnológica, ganhos de eficiência energética e redução de emissões.
O cenário econômico também é bem diferente. Na época do Inovar-Auto o principal motivador das importações recordes de veículos foi o câmbio a menos de R$ 2,00 por dólar, acompanhado de crescimento da economia, juros menores e crédito fácil.
Desta vez os fabricantes instalados no Brasil estão pedindo uma proteção tributária que será inerte a eles mesmos, pois pensam em punir os importadores com sobretaxações mas preservam interesses daqueles que produzem no País e também fazem importações, inclusive da China, a título do que chamam de “complementação de portfólio”.
A adoção de salvaguardas da maneira como está proposta também não protegeria a indústria automotiva nacional como um todo, vez que também ficariam isentos de sobretaxação aqueles que estão apenas montando carros no Brasil com quase todas as partes importadas, seja peça a peça ou com kits CKD e SKD desmontados e semimontados, como é o caso atualmente de Stellantis, General Motors, Renault Geely, BYD e GWM, só para citar os que já têm operações de montagem em curso, pois muitos outros estão chegando para explorar o mercado brasileiro desta mesma forma.
Estas isenções claramente servem para proteger os interesses dos fabricantes associados da Anfavea que importam ou montam veículos importados da China e de outros países – quase todos eles.
A pergunta é: qual efeito teria a sobretaxação somente de carros importados montados e de empresas que não produzem nem montam veículos no Brasil?
A questão, portanto, não parece ser de proteger a indústria nacional, mas sim de preservar os lucros de multinacionais que, de resto, já estão perdendo muito dinheiro para a concorrência da China.























