São Paulo – O mapa da indústria automotiva brasileira segue em pleno processo de descentralização e encontra no Espírito Santo promissor polo de atração. Impulsionado pela decisão da GWM de instalar operação em Aracruz, o governo capixaba, por meio da Nova ES, agência de atração de investimentos do Espírito Santo, contabiliza atualmente 21 empresas mapeadas em seu ecossistema automotivo, sendo dezesseis da cadeia e outras cinco do ramo imobiliário.
A movimentação sinaliza mudança histórica para o setor, que tem seu berço ABC Paulista mas, nos últimos vinte anos experimentou evasão de empresas e mudança para regiões não cogitadas anteriormente, o que se fortaleceu frente a incentivos fiscais e com o movimento da vinda de montadoras chinesas ao Brasil, que buscaram se estabelecer em locais próximo a portos, a fim de facilitar o trânsito de importação de veículos.
“O setor automotivo tem o potencial de mudar não apenas uma região, mas a economia de todo um Estado. Quando as empresas se perguntaram ‘por que a GWM foi para o Espírito Santo?’, a provocação imediata foi ‘por que a minha empresa também não está lá?’”, relatou o diretor de negócios da Nova ES, Danilo Pescuma. “Em um raio de 1 mil quilômetros conseguimos atingir 70% do PIB nacional e 60% da população consumidora, além de estarmos a um raio curto das fábricas da BYD em Camaçari, BA, da Stellantis em Goiana, PE, e de fábricas no Rio de Janeiro e São Paulo”.
Conforme Pescuma o Espírito Santo já responde por mais de 90% das importações de veículos do Brasil, beneficiado por portos de águas profundas na região de Aracruz, onde foi instalada a primeira Zona de Processamento de Exportação.

O peso da Sudene
Um dos pilares decisivos para esta atração está na localização geográfica de municípios do norte capixaba, como Jaguaré e Aracruz, enquadrados na área da Sudene, Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Diferentemente dos benefícios estaduais de ICMS — como o Invest e Compete do Espírito Santo –, que sofrerão transição até 2032 devido às mudanças impostas pela reforma tributária, os incentivos federais da Sudene, que preveem redução de até 75% no Imposto de Renda Pessoa Jurídica, foram preservados pela reforma. Além disso há acesso a linhas incentivadas do FNE, Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste.
Para acelerar o encadeamento produtivo executivos capixabas viajam para a China para participar de conferência internacional com fornecedores globais da GWM. Parcerias estratégicas também estão sendo consolidadas com o Sindipeças, a fim de atrair integrantes da cadeia. A unidade no Estado, segunda no País — a primeira já opera em Iracemápolis, SP –, será instalada em área de 1,7 milhão de m², em Barra do Riacho, e tem início previsto para 2029, com a produção anual de 200 mil veículos.
“A GWM encarou o projeto do Espírito Santo como o mais estratégico fora da China. E, para ser eficiente, precisa atrair sua cadeia de fornecedores para perto de sua operação. Nosso objetivo na agência é atuar como one-stop shop, simplificando a jornada do investidor desde o licenciamento até a conexão com a infraestrutura local”.
Até o momento, das 21 empresas com as quais a Nova ES mantém conversas, dezesseis fazem parte da cadeia de partes e peças e quatro são montadoras. Duas já estão instaladas, caso da Marcopolo e Agrale, em São Mateus, pioneiras, no Estado há onze anos, ou em vias de, como a GWM em Aracruz e a E-Motors em Jaguaré, onde prevê a produção de elétricos subcompactos com investimento inicial de R$ 112 milhões.
Pescuma afirmou que existem atualmente R$ 5 bilhões em investimentos anunciados no Estado pelo setor, direta ou indiretamente. O que inclui projeto da ArcelorMittal para a implantação de um laminador de tiras a frio. “Embora seja um investimento do setor siderúrgico, o insumo de chapas finas é essencial para a estamparia de carrocerias automotivas, criando sinergia direta com as montadoras instaladas no Estado.”
As outras companhias com as quais a Nova ES tem negociado são das áreas de baterias automotivas, desmontagem veicular, blindagem, ar-condicionado, distribuidoras de importação e centro automotivo. Pescuma disse haver procura por parte de empresas do segmento de ônibus elétricos e a gás interessadas em se instalar por lá. A própria Agrale, que fabrica ônibus a gás na Argentina, teria demonstrado interesse em expandir a linha com a atração de fornecedores locais.

Investimentos podem dobrar
Segundo Pescuma o valor anunciado em investimentos poderá dobrar nos próximos anos, alavancando a geração de empregos e transformando de vez a matriz econômica capixaba, que busca focar na descarbonização e transição energética. “Com a negociação em andamento de mais doze empresas do setor automotivo — cujas definições devem ocorrer até o primeiro quadrimestre do próximo ano —, o volume de investimentos atraídos para o Estado pode dobrar.”
Entram nesta conta reflexos indiretos do comércio e de serviços locais — desde padarias e restaurantes até redes de serviços. “O Espírito Santo se preparou para ser o mais eficiente do ponto de vista logístico e agora se consolida como uma vertical fabril altamente competitiva.”























