São Paulo – Os números da Fenabrave divulgados na quarta-feira, 2, demonstram a expansão do setor de duas rodas no País. De janeiro a junho foram emplacadas 1 milhão 170 mil motocicletas, alta de 14,1% sobre o mesmo período do ano passado e novo recorde para o segmento, impulsionado principalmente pelos modelos de baixa cilindrada e pelo uso profissional.
Em paralelo ganha espaço no País uma nova categoria de motocicletas dedicadas ao uso misto, turismo e lazer: as trails médias de 300 a 500 cm3 de cilindrada.
Mais opções ao consumidor
As motocicletas trail respondem hoje por cerca de 20% da produção nacional. Os modelos de uso misto se consolidaram como o segundo maior segmento da indústria brasileira de duas rodas, atrás apenas das street, segundo dados da Abraciclo, entidade que representa as empresas fabricantes de motocicletas. Dentro deste universo, porém, começa a ganhar forma um novo nicho: o das aventureiras médias de 300 a 500 cm3 de cilindrada.
Até poucos anos atrás o motociclista brasileiro encontrava basicamente duas opções neste tipo de moto. De um lado as trails de entrada, de 150 a 300 cm3 de cilindrada. Do outro as big trails acima de 700 cm3 de cilindrada, com preços frequentemente superiores a R$ 70 mil. A lacuna abriu espaço para uma nova categoria, dedicada ao consumidor que procura uma motocicleta para o uso diário, viagens e estradas de terra, mas não pretende migrar para modelos maiores e mais caros.
Nesse movimento a pioneira foi a Royal Enfield. Ao lançar a Himalayan 450 a fabricante com origem na Índia apostou em um segmento ainda pouco explorado no Brasil e ofereceu uma alternativa intermediária às motos de entrada e das grandes aventureiras.
Atualmente a trail de 450 cm3 de cilindrada é o segundo modelo mais vendido da Royal Enfield no País e lidera o segmento de aventureiras. De janeiro a junho foram emplacadas 3 mil 610 unidades da Himalayan, de acordo com dados da Fenabrave.
Aumento da competição
A confirmação do lançamento, no Brasil, da inédita versão Mana Black, equipada com rodas raiadas e pneus sem câmara e apelo ainda mais aventureiro, mostra que o plano Royal Enfield é defender a liderança justamente no momento em que novas concorrentes começam a desembarcar no País. Em poucos meses fabricantes da China, Europa e Japão anunciaram projetos ou confirmaram modelos para disputar espaço neste segmento de mercado.
“Quando lançamos a Himalayan começamos a explorar um segmento no qual não estávamos presentes e acabamos criando uma tendência, pois é um filão que está super em alta hoje”, observou Octávio Fernandes, gerente de produto da Royal Enfield Brasil.
CFMoto inaugura ofensiva chinesa
A primeira concorrente a chegar foi a Ibex 450, responsável também pela estreia da CFMoto no mercado brasileiro. O modelo utiliza motor bicilíndrico de 449 cm3 de cilindrada e 44 cv e adota soluções normalmente encontradas em motos de maior cilindrada, como suspensões ajustáveis, roda dianteira de 21 polegadas, pneus sem câmara e pacote eletrônico com controle de tração e ABS.
Mais importante do que o produto em si é o posicionamento da marca. A escolha da Ibex 450 e outros dois modelos nesta faixa de cilindrada para a estreia no mercado nacional mostra a confiança da fabricante chinesa no potencial do segmento.
A CFMOTO Ibex 450 chegou ao mercado com preço competitivo de R$ 35 mil 990. Mais elevado do que o da Royal Enfield Himalayan, que tem motor monocilíndrico e custa de R$ 30 mil a R$ 32 mil, porém abaixo de outras concorrentes, como a japonesa Honda NX 500, vendida a R$ 47 mil.
KTM inicia produção local com trail de 390 cm3 de cilindrada
Outra novidade no segmento é a 390 Adventure R, da KTM. Embora utilize um motor monocilíndrico e tenha cilindrada inferior às rivais a motocicleta foi desenvolvida com foco no uso fora de estrada e aposta em componentes normalmente associados ao universo das motos de competição, como suspensões ajustáveis e roda dianteira de 21 polegadas.

A produção do modelo deve começar em breve na nova planta da KTM em Manaus, AM, após a Bajaj passar a controlar as suas operações comerciais. A fabricação local deve reduzir custos logísticos e tributários e permitir política de preços mais agressiva em um segmento ainda em formação. De acordo com fontes do setor o preço final da KTM 390 Adventure R deve ficar abaixo dos R$ 40 mil.
BMW amplia a base da família GS
A BMW também trabalha para ocupar este espaço com a futura F 450 GS. O modelo utilizará um inédito motor bicilíndrico de 48 cv e ficará posicionado acima da G 310GS e abaixo das atuais F 800 GS e F 900 GS.
Mais do que ampliar a oferta de produtos o plano da fabricante alemã parece ser a criação de uma nova porta de entrada para o universo GS, tradicionalmente associado a motocicletas maiores e de preços mais elevados.

Na Europa a motocicleta deverá partir de cerca de 7 mil euros, o que sugere preços em torno dos R$ 45 mil no Brasil, quando for lançadao no mercado nacional.
Kawasaki tenta ocupar espaço histórico da KLE
A Kawasaki também prepara sua entrada neste mercado ao resgatar a sigla KLE, que utilizou nos anos 1990. A nova KLE 500 será dotada de motor bicilíndrico de 451 cm3 de cilindrada já presente em outros modelos seus e deverá ocupar posição intermediária às motocicletas urbanas e aos modelos de maior cilindrada da linha Versys.
A expectativa é de preços próximos de R$ 45 mil caso a motocicleta seja confirmada para o mercado brasileiro. A Kawasaki do Brasil tem publicado vídeos teasers de uma nova trail média em seu perfil nas redes sociais que indicam o lançamento de um modelo do segmento.
Moto Morini também terá trail bicilíndrica de 450 cm3 de cilindrada
A alemã Moto Morini seguirá caminho semelhante com a Alltrhike 450, já confirmada para o Brasil. O modelo utiliza motor bicilíndrico de 449 cm3 de cilindrada e 44,8 cv e aposta em configuração mais próxima do universo off-road, com roda dianteira de 21 polegadas e suspensões de longo curso.

O plano da empresa parece menos voltado ao volume e mais à ocupação de nichos específicos do mercado, especialmente nos consumidores interessados em viagens e uso fora de estrada. Os preços esperados ficam de R$ 40 mil a R$ 45 mil.
Mercado em evolução
Mais do que uma sequência de lançamentos a chegada destes modelos indica, também, o fortalecimento de uma nova faixa de mercado no Brasil: o das médias cilindradas. De janeiro a maio foram produzidas cerca de 175 mil motocicletas de 161 a 449 cm3 de cilindrada, segundo dados dos fabricantes instalados em Manaus. O volume corresponde a 18,7% das motos fabricadas no País.
Durante décadas as fabricantes concentraram esforços nas motos de baixa cilindrada e nas big trails. Agora surge um espaço intermediário, ocupado por motocicletas que podem ser usadas na cidade, mas também em viagens e lazer. O movimento é visto como uma evolução natural e como um amadurecimento do mercado brasileiro de motocicletas.
“Estes modelos atendem consumidores que buscam a motocicleta também para lazer e viagens”, afirmou o presidente da Abraciclo, Marcos Bento. “O crescimento do segmento evidencia a diversificação do perfil de uso do veículo e a crescente procura por modelos que oferecem mais desempenho, conforto e tecnologia.”






