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Jeep aposta no Avenger para recuperar terreno perdido para chineses no Brasil

Missão do lançamento, que amplia alcance da Jeep, é voltar a conquistar participação de mercado, segundo o presidente da Stellantis, Herlander Zola
Herlander Zola

São Paulo — A Jeep entra no segmento de B-SUVs com o Avenger carregando uma missão que vai além de mais um lançamento: reverter a perda de participação de mercado que a marca vem sofrendo diante do avanço das montadoras chinesas.

Produzido no Polo Industrial de Porto Real, RJ, o novo modelo estreia em três versões: Altitude, Longitude e Limited, com motorização híbrida-leve MHEV de 12V de série em toda a linha e preço de entrada promocional de R$ 114 mil 990 para o primeiro lote de 1 mil unidades e depois R$ 124 mil 990 para outras 2 mil. As versões Longitude e Limited chegam por R$ 135 mil 990 e R$ 145 mil 990, respectivamente.

Para Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, o momento é decisivo: “Agora temos o ponto de inflexão. O lançamento do Avenger fará com que a Jeep volte a crescer”.

Preço para baixar o tíquete de entrada da marca

Zola reconhece os motivos que levaram a Jeep a perder espaço no mercado brasileiro nos últimos anos. Segundo ele três fatores se combinaram: o aumento do número de concorrentes no segmento, o atraso na renovação do portfólio e, principalmente, a faixa de preço em que a marca operava. “O Avenger inicia um tíquete de entrada mais baixo para a marca Jeep e nos dá a possibilidade de atingir um número maior de clientes.”

O valor de lançamento restrito às primeiras 3 mil unidades é uma ferramenta comercial que a Stellantis já usou “inúmeras vezes”, nas palavras do executivo. Questionado sobre a possibilidade de reajuste de preço após o primeiro lote esgotar, Zola mostrou o racional por trás do plano:

“Limitar volume para criar preços atraentes específicos para lotes pequenos sempre gerou uma corrida que é exatamente aquilo que toda montadora busca no mercado. Se eu tenho um lote pequeno, que é propositalmente pequeno, com um preço muito atraente, eu vou gerar uma busca grande de pessoas para tentar aquele produto naquele momento”.

A decisão sobre estender o preço promocional, segundo ele, dependerá puramente da velocidade de resposta do consumidor: “O que determinará as nossas atividades é exatamente a velocidade da demanda, como sempre foi. Se a demanda começa a demonstrar um nível de evolução muito maior ou muito menor do que o que a gente tinha planejado mexemos nas nossas atividades, seja no preço ou em qualquer outra atividade que me permita melhorar a demanda”.

Por que Porto Real e não outra fábrica?

A escolha por produzir o Avenger em Porto Real, historicamente ligada aos modelos da Citroën e Peugeot, também tem lógica industrial. Zola apontou o nível de ociosidade da fábrica fluminense como fator decisivo diante da saturação das demais unidades da Stellantis no Brasil.

“A planta de Pernambuco hoje gira em algo próximo a 93% de saturação, já com três turnos de produção. Betim, com o terceiro turno, também roda acima de 90% de saturação. A planta de Porto Real é uma planta que rodava com uma saturação que beirava os seus 40% até então, antes da chegada do Avenger.”

Some-se a isto à menor complexidade operacional da planta do Rio de Janeiro, que tinha três modelos em linha contra cinco ou seis nas demais fábricas do grupo: “Colocar mais um produto é uma complexidade gigantesca para administrar em termos de número de peças, logística, toda a parte de estocagem. A planta de Porto Real tinha três modelos. Então o nível de facilidade para que a gente pudesse optar por ela era muito maior”.

A resposta da Jeep ao avanço chinês

O pano de fundo de todo o plano de vendas é a disputa crescente pelo consumidor de entrada com as marcas chinesas, que Zola reconheceu como a principal força por trás da perda de espaço da Jeep:

“A Jeep é talvez uma das marcas que mais sofre com o avanço chinês e a adoção de novas tecnologias naquela faixa de preço em que opera. É por isto que precisamos responder, e não tenho dúvida de que o Avenger é uma arma poderosíssima para que voltemos a responder com a marca dentro de um segmento onde perdemos espaço.”

Mesmo diante desta pressão o executivo opina que a corrida pela liderança de mercado não é, e não deve ser, o objetivo em si: “A Jeep é, sem dúvida, a marca que precisa ter o portfólio mais completo daquilo que a gente pode oferecer em SUVs. Mas posso garantir: a nossa busca na Jeep é por manter a marca competitiva, a marca saudável e a marca relevante. Não é uma busca a qualquer custo pela liderança. Definitivamente, não”.

Um efeito esperado sobre o restante da linha

O presidente da Stellantis também espera que o Avenger funcione como uma porta de entrada capaz de puxar vendas de outros modelos da marca, a começar pelo Renegade, hoje posicionado acima do novo SUV: “Eu ainda acredito que o próprio Avenger pode fazer com que algumas versões do Renegade vendam mais. Você passa a ter um fluxo muito maior, e vão ter aqueles que vão descobrir: o Renegade tem um motor de 180 cv e custa R$ 125 mil, entrega um espaço interno maior. Eu tenho certeza que tem gente que vai descobrir que o Renegade é muito mais legal do que ele imaginava e que pode voltar a comprar”.

Segundo ele um reposicionamento amplo de preços na linha Jeep não está nos planos imediatos, mas ajustes pontuais em algumas versões do Renegade devem ser feitos à medida em que a demanda real pelo Avenger for mapeada nos primeiros meses de vendas.

Avenger como primeiro capítulo de um plano maior

Por fim Zola situou o lançamento dentro de uma reformulação mais ampla da marca no Brasil, que ainda inclui a chegada de novas gerações de Renegade, Compass e Commander nos próximos anos, parte do que ele chama de correção de uma “velocidade de renovação do portfólio” que deveria ter acontecido antes.

Ele reconheceu, ainda, que o plano de eletrificação da marca segue sujeita a variáveis externas, como a definição do imposto seletivo e as regras que o governo vier a adotar para favorecer diferentes tecnologias, mas garante que o Avenger é apenas o primeiro movimento de uma resposta mais completa do que ainda está por vir.

Dois Jeeps inéditos vindos da parceria com a Dongfeng

A resposta da Stellantis à ofensiva chinesa também passa por um movimento pouco convencional: uma aliança com a Dongfeng, que deixou de ser regional para tornar-se global.

Segundo Zola o acordo já garante à Jeep dois modelos inéditos vindos desta parceria. “Hoje já nos dá a possibilidade, em nível global, de contar com quatro produtos. Dois Jeep e dois Peugeot. Isto é decisão, já foi divulgado no Fastlane, inclusive, globalmente“.

Os quatro modelos, segundo ele, serão produzidos na China e exportados, com a possibilidade de fabricação também na Europa ainda em discussão entre as duas empresas:

“São modelos inéditos”, confirmou, adiantando que o portfólio Jeep resultante da parceria combinará diferentes tecnologias de propulsão: “O portfólio da Jeep terá tanto 100% combustão quanto eletrificado. Pode ser que tenha um modelo que é 100% elétrico, ou outro que é 100% híbrido, e tem um outro que é, como é o caso do Avenger, 100% MHEV”.

Zola fez questão de esclarecer que o acordo não é exclusivo de uma marca do grupo: “A parceria é com a Stellantis, não é com a marca A ou com a marca B”.

Ele também associou o valor da rede de distribuição da Stellantis a este tipo de aliança, num comentário mais amplo sobre marcas chinesas entrando no País: “Ter a oportunidade de contar com a nossa rede de distribuição e com a expertise comercial que temos, com quase 30% de mercado no Brasil, como Stellantis, é algo valioso”.

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