São Bernardo do Campo, SP — A escassez de motoristas de caminhão e ônibus tornou-se um dos principais desafios do transporte rodoviário brasileiro. Diante desse cenário, a Mercedes-Benz ampliou sua estratégia de relacionamento com quem está atrás do volante e passou a investir em projetos que vão além da divulgação de produtos. A fabricante utiliza iniciativas como o Embaixadores das Estradas e o movimento A Voz Delas para fortalecer sua imagem, ouvir quem utiliza seus veículos diariamente e, ao mesmo tempo, incentivar a entrada de novos profissionais no setor.
O programa Embaixadores das Estradas surgiu há cerca de um ano. A proposta passou a reunir doze instrutores da fabricante, homens e mulheres, que atuam como representantes da marca nos eventos e nas redes sociais.
Segundo Isabella Escudeiro, analista de marketing caminhões da Mercedes-Benz, a mudança permitiu ampliar o diálogo com diferentes perfis de motoristas. “O objetivo é mostrar o dia a dia da profissão, apresentar curiosidades sobre os caminhões, aproximar a fábrica do motorista e levar a voz das estradas para dentro da empresa.”
Além da participação em feiras e demonstrações, os embaixadores produzem conteúdos nas redes sociais que misturam informações técnicas, bastidores, tendências e situações típicas da rotina nas estradas. Assim, a estratégia busca conversar com um público mais jovem, habituado ao ambiente digital.
Retorno dos motoristas já influencia produtos
Mas mais do que criar conteúdo, o programa também funciona como um canal de escuta. Comentários recebidos nas redes sociais e durante eventos chegam às áreas de engenharia e desenvolvimento da Mercedes-Benz.

Nos exemplos citados pela executiva está a evolução do modelo especial Actros Estrela Delas. Inicialmente desenvolvido apenas como veículo-conceito, o caminhão passou a integrar o portfólio comercial da marca após sucessivos pedidos do público. A fabricante também ampliou a oferta de cores do modelo e incorporou sugestões recebidas diretamente dos motoristas.
No segmento de ônibus, outra demanda encaminhada pelos usuários envolve melhorias no sistema de regeneração dos modelos elétricos. O tema já entrou na pauta das equipes técnicas.
Segundo Escudeiro esse fluxo de informações fortalece o relacionamento da fábrica com os clientes. “Os embaixadores representam a Mercedes-Benz, mas também representam os motoristas dentro da empresa.”
Redes sociais ajudam a despertar interesse dos jovens
Embora ainda esteja em fase de consolidação, o projeto também busca contribuir para enfrentar um problema crescente no transporte que é a renovação da mão de obra.
A fabricante acredita que a linguagem utilizada nas redes sociais aproxima a profissão das novas gerações. Vídeos sobre os caminhões, tendências, desafios da rotina e conteúdos descontraídos têm despertado o interesse de jovens que ainda não atuam no setor.
De acordo com Escudeiro a empresa pretende ampliar essa aproximação por meio de novos canais digitais e iniciativas voltadas ao relacionamento direto com motoristas.
A Voz Delas completa sete anos e amplia participação feminina
Enquanto o Embaixadores das Estradas aproxima a fábrica dos profissionais, o movimento A Voz Delas atua em outra frente considerada estratégica. Ou seja, aumentar a presença feminina no transporte.
Criado em 2019, o programa nasceu após a Mercedes-Benz identificar que a falta de motoristas também poderia ser enfrentada com a ampliação da participação das mulheres na profissão.
Segundo Rannielly Moreira, coordenadora do movimento, o projeto passou a reunir empresas, entidades e organizações para reduzir barreiras enfrentadas pelas profissionais.
Hoje o movimento conta com 65 empresas parceiras e atua em diferentes frentes. Dentre elas o incentivo à contratação, melhoria da infraestrutura em postos de combustíveis, garagens, terminais e centros logísticos, além do apoio à criação de políticas públicas voltadas às mulheres do transporte.
Uma das principais iniciativas foi a campanha Direção dos Seus Sonhos, que já concedeu 57 CNHs acompanhadas de cursos de formação para mulheres que desejavam ingressar na profissão.
O movimento também criou a comunidade Eu Sou A Voz Delas, que reúne mais de 2 mil participantes motoristas de caminhão, condutoras de ônibus, gestoras de empresas, profissionais de recursos humanos e esposas de caminhoneiros.
Infraestrutura passa a fazer parte da retenção de profissionais
Outro foco do movimento envolve melhorias nas condições de trabalho. Depois da revitalização de um posto de combustíveis em Goiás, realizada no início do projeto, outras empresas passaram a investir em espaços voltados aos profissionais do transporte.
Dentre os exemplos está a criação de áreas exclusivas para caminhoneiras em centros logísticos, com banheiros, chuveiros, espaço para descanso. Além de Wi-Fi, área de amamentação e ambientes destinados às famílias.
A iniciativa também inspirou redes de postos de combustíveis a criarem estruturas com academias ao ar livre, churrasqueiras e áreas de convivência para motoristas.
Segundo Moreira oferecer infraestrutura adequada beneficia homens e mulheres. Além disso, contribui para fidelizar clientes.
Motorista relata avanços, mas diz que barreiras permanecem
Quem acompanha essa transformação diariamente é a motorista de ônibus Carolina Antunes, que atua há 23 anos na profissão. Ela afirma que a presença feminina avançou significativamente ao longo das últimas duas décadas.
“Hoje a mulher pode dirigir ônibus rodoviário, fretado e veículos de dois andares. Quando comecei, praticamente só existia espaço no transporte urbano.”

Apesar da evolução a motorista afirma que ainda enfrenta limitações. Ela gostaria de operar linhas mais longas, as interestaduais. Mas afirma que algumas empresas continuam restringindo mulheres em determinadas operações sob a justificativa de falta de alojamentos adequados.
Segundo a Antunes o preconceito também diminuiu em relação aos passageiros. “No início, muitas mulheres esperavam o próximo ônibus quando viam uma motorista ao volante. Hoje isso praticamente acabou. Pelo contrário, muitas dizem que se inspiram na nossa história.”
Ela também integra o movimento As Brabas do Busão, grupo que reúne cerca de 300 motoristas de ônibus e caminhão nas redes sociais para compartilhar experiências, orientar novas profissionais e denunciar casos de discriminação.
Para ela ainda existe resistência em parte do mercado. Mas a mudança já está em curso. “Queremos mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser. Ela tem capacidade para dirigir qualquer veículo.”
Marketing com propósito
Seja como for, ao unir relacionamento digital, escuta ativa dos clientes e ações voltadas à inclusão, a Mercedes-Benz procura transformar iniciativas de marketing em ferramentas de fortalecimento do próprio setor de transporte.



















