São Paulo — O mercado brasileiro de ônibus iniciou 2026 em ritmo bastante diferente dos dois anos anteriores. Depois de alcançar 23,8 mil unidades emplacadas em 2025, considerando todos os segmentos — urbano, rodoviário, fretamento, micro-ônibus e escolar —, o setor acumulou retração ao longo do primeiro semestre.
Segundo Walter Barbosa, vice-presidente de ônibus da Mercedes-Benz do Brasil, janeiro registrou queda de 30% na comparação anual. Em março, a retração chegou a aproximadamente 20%. Já em junho, o mercado total somou cerca de 10 mil unidades emplacadas.
“Se fizermos uma projeção até o final do ano, teremos um mercado de 19 mil a 20 mil unidades. Ou seja, se nada mudar daqui para frente”.
Nesse cenário, o desempenho varia bastante entre os segmentos. Enquanto o mercado de micro-ônibus cresce cerca de 20%, impulsionado principalmente por compras governamentais, os principais pilares do setor apresentam retração.
O segmento urbano acumula queda de aproximadamente 22%. Enquanto o fretamento recua em torno desse mesmo patamar. Já o rodoviário apresenta a maior retração. Em outras palavras, algo em torno de 35% em relação ao mesmo período do ano passado.
Até o momento, o mercado brasileiro de ônibus rodoviários registra 673 unidades emplacadas. No fretamento, são 1mil 532 veículos, com retração de 23%.
Juros altos travam a renovação
Para Barbosa, a combinação de fatores econômicos explica boa parte da retração do mercado rodoviário. A taxa básica de juros ocupa posição de destaque. “Quando você coloca o spread bancário, que é o custo do banco, essa taxa chega a 17%, 18%. Isso não é um fator que motiva o operador a fazer renovação”.
Consequentemente, diante de um custo financeiro elevado, o empresário tende a postergar a compra de novos veículos. No segmento urbano, existe o programa Refrota, com financiamento subsidiado que melhora as condições para renovação. Entretanto, no rodoviário não há atualmente um mecanismo equivalente.
Por isso, a Mercedes-Benz considera o crédito um dos principais pontos que precisam evoluir para que o mercado volte a crescer.
Frota rodoviária tem espaço para renovação
Apesar do cenário negativo, Barbosa chama a atenção para um dado que mostra o potencial do mercado nos próximos anos. Nas linhas interestaduais e internacionais regulamentadas pela ANTT, Agência Nacional de Transportes Terrestres, a frota chega a aproximadamente 32,3 mil ônibus. Desse total, 43,6% têm até cinco anos de uso, 31% estão entre seis e dez anos e 25% têm mais de dez anos.
Assim, aproximadamente um quarto da frota já supera dez anos. Enquanto uma parcela importante se aproxima de um ciclo de renovação.
“Normalmente se renovam umas 2 mil unidades desse setor específico por ano. Temos um potencial grande para renovar”.
Além das linhas interestaduais e internacionais, existe ainda uma extensa frota de ônibus rodoviários que opera em linhas estaduais e municipais. Como cada Estado tem seus próprios órgãos reguladores, não há uma consolidação simples desses dados. Nesse sentido, a Mercedes-Benz estima uma frota de 80 mil a 120 mil ônibus nesse universo, com idade média de 8 a 15 anos.
Portanto, mesmo com o mercado atual em baixa, o potencial de renovação permanece significativo.

Menos passageiros também afetam o mercado
Além dos juros, a demanda por transporte rodoviário também mudou. De acordo com Barbosa, o setor registrou queda de aproximadamente 15% a 20% na demanda de passageiros ao longo dos últimos dez anos.
Parte desse público migrou para o transporte aéreo, enquanto outra parcela passou a utilizar automóveis particulares.
Nesse sentido, o câmbio também interfere diretamente na competitividade entre os modais. Com o dólar mais alto, as passagens aéreas tendem a ganhar pressão de custos, o que pode favorecer o transporte rodoviário. Por outro lado, uma moeda estadunidense mais baixa pode contribuir para tornar o transporte aéreo mais competitivo.
Além disso, o endividamento das famílias reduz a capacidade de consumo e também pode afetar a demanda por viagens.
Marco regulatório muda a dinâmica do setor
Outro ponto que exige atenção dos operadores é a transformação do modelo regulatório do transporte rodoviário interestadual. A regulamentação que ganhou força a partir de 2023 mudou a lógica de operação do setor.
Antes a concessão de determinadas linhas ocorria por meio de licitações. Agora, o modelo trabalha com autorizações concedidas pela ANTT. Isso permite maior entrada de empresas e, consequentemente, aumento da concorrência.
Para Barbosa, essa mudança traz oportunidades. Mas também eleva os riscos para os operadores.
No modelo anterior, uma empresa que conquistava uma linha por licitação tinha maior previsibilidade para recuperar o investimento realizado na frota. Com a autorização, entretanto, aumenta a possibilidade de concorrentes disputarem os mesmos mercados.
Como resultado, o operador passa a avaliar com mais cuidado o investimento em veículos de maior valor agregado: “Você vai ter uma mescla de produtos. Algumas empresas vão continuar investindo em um carro mais sofisticado. Mas outras vão procurar um produto com menos opcionais e mais simples”.
Mercedes-Benz amplia opções para diferentes perfis
Diante dessa transformação do mercado, a Mercedes-Benz pretende ampliar a possibilidade de configuração dos seus chassis rodoviários. A estratégia considera que o operador deixou de buscar apenas veículos premium. Agora, dependendo da rota e do nível de concorrência, o cliente pode priorizar preço de aquisição, bem como custo operacional ou determinados equipamentos de segurança: “Você tem que ter flexibilidade no portfólio”.
Por isso, a Mercedes-Benz voltou a oferecer a transmissão manual GO 230 para o O500. A solução atende operadores que preferem reduzir o investimento inicial e trabalhar com uma configuração mais simples.
Ao mesmo tempo, a fabricante mantém a transmissão automatizada ZF Traxon de 12 velocidades, que recebeu atualizações para tornar as trocas de marchas mais suaves. A Mercedes-Benz também mantém a transmissão automática ZF de seis velocidades.
A estratégia também contempla diferentes níveis de equipamentos de segurança. Segundo a empresa, dependendo da configuração, o cliente pode optar por pacotes mais completos ou concentrar o investimento nos itens obrigatórios.
Com isso, a fabricante estima que a redução de opcionais, combinada à escolha da transmissão manual, pode representar entre 15% e 20% no custo do chassi em determinadas configurações.
O 500 ganha eficiência para reduzir o custo operacional
Além de trabalhar o preço de aquisição, a Mercedes-Benz aposta na redução do custo operacional para tornar o ônibus rodoviário mais atrativo. Uma das principais novidades do O 500 está na eficiência energética. De acordo com Barbosa, as mudanças podem proporcionar redução de 6% a 8% no consumo de combustível.
O resultado vem principalmente da adoção de uma relação mais longa no eixo traseiro e dos pneus Energy Michelin, desenvolvidos para reduzir a resistência ao rolamento. Para o operador, a redução no consumo tem impacto direto no TCO, especialmente porque o combustível representa uma parcela relevante dos custos de uma operação rodoviária.
Além disso, Barbosa destaca que melhorias na carroceria podem ampliar esse resultado. A redução de peso e o aprimoramento aerodinâmico, por exemplo, podem somar ganhos adicionais aos obtidos pelo chassi.
Segurança ganha novos recursos e disponibilidade entra na equação
A Mercedes-Benz também ampliou o pacote de segurança disponível para os modelos rodoviários. Entre os recursos estão sistemas como piloto automático adaptativo, frenagem eletrônica de estacionamento, frenagem automática de emergência, farol inteligente, sistema de monitoramento de ponto cego e assistente de permanência em faixa.
Outro recurso é o farol inteligente, que utiliza informações da câmera para identificar veículos e alternar automaticamente entre farol alto e baixo.
Além do consumo, a Mercedes-Benz trabalhou componentes que podem contribuir para reduzir custos de manutenção. Um dos exemplos é a adoção de um sistema de separação de ar e óleo no circuito de ar comprimido dos freios. A solução contribui para aumentar a durabilidade de válvulas e compressores e, consequentemente, pode reduzir intervenções de manutenção.
A fabricante também introduziu um novo tanque de Arla 32 com sistema de filtragem aprimorado. O objetivo é evitar que impurezas entrem no sistema durante o abastecimento e prejudiquem componentes. Assim, essas soluções buscam aumentar a disponibilidade do ônibus e reduzir o custo total de operação.























