São Paulo — A indústria chinesa de caminhões deseja mais do que espaço nos estandes da IAA Transportation 2026. As fabricantes chegam a Hannover, na Alemanha, com uma estratégia clara de conquistar participação no mercado europeu e transformar a presença no continente em negócios de longo prazo.
A IAA Transportation será realizada 15 a 20 de setembro, em Hannover, Alemanha, com novo peso da presença chinesa. Se na edição anterior as marcas chamaram atenção principalmente por caminhões elétricos, hidrogênio e soluções tecnológicas, agora elas querem mostrar também como pretendem vender, produzir e atender clientes dentro da Europa.
Segundo o site alemão Eurotransport a mudança de estratégia ocorre com diferentes fabricantes. A Sinotruk, por exemplo, iniciou neste ano a montagem de caminhões na fábrica da Steyr Automotive, na Áustria.
Além disso a SuperPanther também prepara produção europeia de caminhões elétricos. A empresa pretende avançar no continente com o eTopas 600. Já a Sany aposta na experiência prática: a fabricante levará caminhões elétricos para test drives durante a feira, incluindo modelos para aplicações pesadas, construção e betoneiras.
China amplia o arsenal tecnológico
Entretanto, a ofensiva chinesa não se limita à eletrificação tradicional. Nesse sentido, a FAW Jiefang, por exemplo, trabalha com baterias de íon-sódio. Em parceria com a Hina Battery, a fabricante testou um caminhão semirreboque J6P equipado com bateria de 339 kWh, inclusive em condições de frio extremo. A tecnologia aparece como alternativa às baterias convencionais de íon-lítio e às células LFP.
Da mesma forma, a Dongfeng chega à IAA com uma nova plataforma de célula de combustível de até 400 kW para caminhões pesados. O sistema foi desenvolvido para operar em temperaturas de até -40°C. Assim, reforça a aposta chinesa também no hidrogênio para operações de longa distância.
Por outro lado, a Farizon, marca de veículos comerciais do Grupo Geely, aposta em uma arquitetura mais digital. A empresa combina sistemas drive-by-wire, plataformas modulares e motores elétricos e pretende levar essa proposta para o mercado europeu de vans com os modelos SuperVAN e SV.
A DeepWay segue uma linha ainda mais tecnológica. A startup desenvolve o Shenxiang, caminhão elétrico de longa distância com foco em aerodinâmica, sensores, software e condução autônoma.
Fabricantes chineses buscam espaço na Europa

Seja como for, estes movimentos revelam uma mudança importante na estratégia da indústria chinesa. As empresas não querem apenas exportar caminhões para a Europa. Elas buscam construir uma estrutura completa, com produção, vendas, serviços, parceiros e fornecedores locais.
Além disso, alguns grupos chineses começam a atuar como fornecedores de tecnologias para outras fabricantes. A Shandong Heavy Industry, que reúne empresas como Weichai e Sinotruk, possui um portfólio que inclui motores de combustão, células de combustível, transmissões e eixos elétricos.
Essa verticalização aumenta a pressão sobre a indústria europeia. Afinal, a competição não ocorre apenas pelo caminhão pronto, mas também por componentes e sistemas que formam a cadeia tecnológica dos veículos comerciais.
A presença chinesa já aparece em diferentes pontos dessa cadeia. Ou seja, inclui baterias, motores, sistemas de propulsão, infraestrutura de recarga, eletrônica e outros componentes.
Nesse cenário, Hannover será mais do que uma vitrine de novidades. A feira deve funcionar como um importante termômetro da disputa entre fabricantes tradicionais e novos concorrentes que chegam com tecnologia, escala industrial e disposição para investir localmente.
Na Fenatran, em novembro, marcas chinesas também estarão presentes
No Brsil amarcas chinesas chegam à Fenatran 2026 em uma posição diferente da registrada em edições anteriores. E também de modo mais ousado, como na IAA.
Ou seja, em vez de ocupar espaços discretos, elas passam a dividir o protagonismo com fabricantes tradicionais e devem usar a feira para mostrar ao mercado brasileiro que avançaram na estrutura necessária para atuar no segmento de veículos comerciais.
Dessa forma, a expectativa é que apresentem caminhões e soluções com diferentes propostas de motorização, incluindo eletrificação e novas tecnologias de eficiência, além de mostrar investimentos em produção local, rede de concessionárias, peças, serviços e pós-venda. A presença ganha ainda mais relevância porque algumas empresas já avançam na fabricação no Brasil, enquanto outras ampliam sua atuação a partir do segmento de comerciais leves para chegar aos pesados.
Na avaliação de Thiago Braga, gerente executivo da Fenatran, o evento pode funcionar como um divisor de águas para essas fabricantes, pois permite o contato direto com transportadores de todo o País. E coloca à prova a capacidade das chinesas de entregar não apenas um produto competitivo, mas também o suporte necessário para manter um caminhão trabalhando.























