Em destaque

Unica descarta haver incentivo ao etanol e garante oferta do produto ao mercado

Após reoneração da gasolina a diferença de imposto voltou a ser a anterior à desoneração

São Paulo – Um dia após o governo federal anunciar que a gasolina e o etanol voltaram a ser taxados pelo PIS/Cofins, o que significa incrementos respectivos de R$ 0,47 e de R$ 0,02 nos valores cobrados nas refinarias e usinas, a Unica avalia a medida como positiva pelo fato de restabelecer o equilíbrio dos combustíveis e eliminar a distorção de competitividade.

O diretor de economia e inteligência setorial da Unica, Luciano Rodrigues, relatou que desde o segundo semestre do ano passado o consumo do etanol diminuiu, uma vez que a desoneração promovida pelo governo anterior beneficiou mais a gasolina, segundo ele, devido à redução maior no preço – os tributos correspondiam, anteriormente, a R$ 0,69 no litro da gasolina e R$ 0,24 no do etanol hidratado. Distorção que, agora, foi corrigida.

“Não foi criado nenhum benefício ao etanol. Apenas foi restabelecido o equilíbrio que tínhamos até o fim do primeiro semestre. Com a desoneração havia uma situação atípica em que o consumo do combustível fóssil importado era estimulado em detrimento da opção renovável fabricada localmente.”

Luciano Rodrigues, diretor de economia e inteligência setorial da Unica

Rodrigues destacou que o etanol volta a ficar mais vantajoso com o restabelecimento das alíquotas com diferença de R$ 0,45, conforme a emenda à Constituição 123 determina – embora na prática possa ficar um pouco diferente porque com a redução de R$ 0,13 anunciada pela Petrobras o aumento líquido da gasolina na refinaria será de R$ 0,34.

E complementou que a determinação do governo sinaliza ao setor privado, de forma positiva, que todos os agentes envolvidos possam manter os investimentos em busca da promoção da mobilidade sustentável de baixo carbono.

Para o dirigente, diante disso e do fato de que a safra sucroalcooleira tem início em abril, não deverá faltar combustível, ainda que seja esperado um aumento da procura pelo renovável nas bombas de combustível:

“Hoje não há nenhum tipo de restrição na oferta do etanol e a tendência é a de que a produção aumente porque o período de chuvas ajudou a colheita e também por haver reforço de novas usinas”.

Quanto ao risco de o preço na bomba ser pressionado diante da maior demanda Rodrigues assinalou que, embora isso dependa de série de variáveis, ele não vê cenário capaz de desencadear aumento dos custos – até mesmo pela expectativa de maior oferta.  

Dados do Cepea mostram que o litro do biocombustível hidratado custava R$ 2,71 na semana passada, conforme últimos dados disponíveis. Com a volta do PIS/Cofins, deverá passar a R$ 2,73. O dirigente acredita, portanto, que a média do etanol se mantenha de R$ 3,60 a R$ 3,70 na Região Sudeste do País.   

Maior procura por etanol deve ser amparada por aumento da produção de etanol. Crédito: Freepik.

Mercado balizado pelo motor flex

Para Gonçalo Pereira, engenheiro agrônomo coordenador do laboratório de genômica e bioenergia do Instituto de Biologia da Unicamp, o mecanismo de proteção para que o preço do etanol não dispare está no motor flex dos veículos:

“Por isto não continuamos apostando nos veículos movidos somente a álcool, como ocorria na época do Proálcool. Se o preço crescer muito as usinas, ou melhor, as biorefinarias, como deveriam ser chamadas, vão vender menos. E isso não é um bom negócio a elas que, hoje, dispõem de enxoval de produtos, pois, além do etanol, têm em seu leque a bioenergia, o biometano e o crédito de carbono”.

Gonçalo Pereira, especialista em bioenergia da Unicamp

Em sua avaliação a mensagem transmitida pelo governo com a decisão de reonerar os combustíveis, de forma mais branda para o etanol, é muito importante porque mostra ao mundo a preocupação e a necessidade de reduzir a emissão de CO2 na atmosfera.

“A ferramenta do governo para fazer as coisas ficarem realmente diferentes é o tributo. E por meio desse anúncio, desse reforço na direção certa, se tem uma sinalização extraordinária do quão benéfico é o desenvolvimento desse setor, que engloba a plantação da cana, os tratores, as usinas e seus maquinários, a geração de bioeletricidade e toda a economia que ele movimenta.”

Pereira citou que o impacto na descarbonização é notável, uma vez que a cada 600 litros de etanol é evitada a emissão de 1 tonelada de carbono fóssil. Portanto: quanto mais a produção de cana for incentivada maiores a produção e os benefícios do uso do etanol e do crédito de carbono, moeda de troca que vem sendo valorizada ano a ano e que, pela primeira vez, atingiu na Europa o preço de 100 euros por tonelada.

Ano a ano colheita da cana vem se recuperando de seca histórica em 2021. Crédito: Divulgação.

Raio X do setor em recuperação  

Atualmente o País conta com 320 usinas, de acordo com a Unica, sendo que 85% da produção é gerada pela cana-de-açúcar e 15% pelo milho. A cadeia é composta, ainda, por 70 mil produtores rurais. Ao todo, são gerados 2,3 milhões de empregos, sendo 800 mil diretos.

Pereira lembrou que na recessão de 2015/2016 o preço da gasolina baixou devido ao incentivo à exportação do combustível fóssil e, diante de discussões sobre seguir ou não a tendência dos carros elétricos, muitas usinas fecharam as portas ou mudaram de mãos: “Quase matamos nossa galinha dos ovos de ouro”.

Até as próprias petroleiras, que, conforme pontuou, criaram o problema, “estão entendendo que são companhias de energia e têm se movimentado para adquirir empresas de biocombustível”.

O setor se recupera de seca histórica de 2021, em que a moagem de cana-de-açúcar, que havia atingido 605 milhões de toneladas em 2020, encolheu para 523 milhões no ano seguinte. E em 2022 deverá ser fechado em 550 milhões no Centro Sul. Rodrigues, da Unica, avaliou que a tendência é que a diferença com relação ao ano mais crítico seja recuperada. Atualmente a capacidade ociosa dessa indústria gira em torno de 20%.

No período que se encerra em março, da safra 2022/2023, terão sido produzidos 31 bilhões de litros de etanol no Brasil, o que inclui o Nordeste, e considerando todas as matérias-primas. E, até 2030, a expectativa da política nacional de biocombustíveis é que o volume anual atinja 50 bilhões de litros.

O dirigente citou que contribui para a retomada do setor a inauguração de usina de milho anexa a uma de cana para a produção de etanol, outra de cana que iniciará a operação este ano e existe a previsão de uma terceira em 2025.

vwco

Notícias relacionadas

vwco
vwco

Receba as principais notícias do setor automotivo diretamente no seu WhatsApp.

Receba diariamente as principais notícias do setor automotivo, análises de mercado e tendências da indústria no seu e-mail corporativo.

vwco