São Paulo — A atualização da NR-1, norma que estabelece as diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho no Brasil, entrou em vigor na terça-feira, 26, ampliando oficialmente o escopo do GRO, gerenciamento de riscos ocupacionais, para incluir os chamados riscos psicossociais. Na prática as empresas passarão a ter que mapear fatores ligados à saúde mental no ambiente corporativo, como pressão excessiva, assédio, sobrecarga de trabalho, jornadas exaustivas e problemas de organização laboral.
O texto atualizado da norma determina que “o gerenciamento de riscos ocupacionais deve abranger os riscos que decorrem dos agentes físicos, químicos, biológicos, riscos de acidentes e riscos relacionados aos fatores ergonômicos, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho”. A NR-1 também estabelece que as empresas deverão considerar “as condições de trabalho, nos termos da NR-17, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho”.
Para a diretora médica da Howden Brasil, Sílvia Prinholato, a mudança representa uma transformação cultural dentro das organizações: “As empresas terão que olhar para isto, fazer o diagnóstico e se inserir dentro do GRO, com análise ergonômica do trabalho, plano de ação e mensuração desses fatores”.
Segundo ela o fator psicossocial não está ligado ao indivíduo mas ao ambiente organizacional: “As empresas podem utilizar questionários validados, clima organizacional, dados de denúncias por assédio, informações da medicina ocupacional e da segurança do trabalho para identificar esses fatores”.
A especialista destacou que um dos maiores desafios está justamente em medir estes riscos:
“Diferente do ruído, que você mede com um decibelímetro, o fator de risco psicossocial não tem uma régua. Por isto as empresas acabam utilizando indicadores de clima organizacional e questionários para conseguir obter esses dados”.
O diretor superintendente do IQA, Alexandre Xavier, afirmou que a atualização aproxima a gestão de saúde mental dos modelos já consolidados internacionalmente em sistemas de gestão corporativa: “A principal mudança é ampliar o escopo do gerenciamento de riscos, incluindo de forma explícita os fatores psicossociais. Na prática exigirá mais estrutura, critérios claros e evidências de gestão, aproximando o tema de modelos já consolidados em normas como a ISO 45001”.
A norma determina ainda que o PGR, programa de gerenciamento de riscos, deve conter inventário de riscos e plano de ação formalizado. O documento também estabelece que as organizações precisam implementar mecanismos de participação dos trabalhadores, consulta sobre percepção de riscos e comunicação das medidas preventivas adotadas.
Outro ponto reforçado na atualização envolve assédio moral e sexual: a NR-1 determina que empresas obrigadas a constituir CIPA adotem medidas de prevenção e combate ao assédio, incluindo canais de denúncia e treinamentos periódicos.
Cenário para o setor automotivo
Segundo Sílvia Prinholato as lideranças terão papel central nesse novo cenário: “A liderança brasileira está acostumada a pensar em resultado e produtividade. Agora ela terá que mudar a visão e aprender a identificar quando um colaborador está entrando em exaustão mental ou física correlacionada ao fator de risco psicossocial.”
Ela ressalta que o desafio tende a ser ainda maior em ambientes industriais e linhas de produção.
“Quando você olha para uma linha de produção essas pessoas precisam estar extremamente atentas e focadas. Isto exige muito do organismo e pode levar à exaustão. Além disso ruído, temperatura e trabalho em turnos aumentam o cortisol, o hormônio do estresse, elevando ansiedade e risco de acidentes.”
Na avaliação do IQA a cadeia automotiva possui pontos críticos: “O setor automotivo tem maturidade superior à média em gestão e conformidade, mas o desafio está na estruturação e mensuração dos riscos psicossociais, que ainda são menos consolidados do ponto de vista técnico”.
Ele acrescentou que há risco de empresas tratarem a atualização apenas como uma obrigação burocrática: “O principal erro potencial é diagnosticar de forma simplista e tratar o tema de forma isolada ou apenas documental. Quando não há integração com os sistemas de gestão existentes perde-se consistência, rastreabilidade e efetividade”
Adaptação e fiscalização
A fiscalização ficará sob responsabilidade do Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo Sílvia Prinholato os auditores já possuem informações: “O Ministério do Trabalho já definiu os auditores fiscais e realizou levantamentos dentro do eSocial. Eles verificarão quais empresas possuem maiores fatores de risco psicossociais e não apresentam ações efetivas”.
De acordo com ela as primeiras auditorias poderão resultar em prazo de adequação antes de multas imediatas pois “a empresa pode receber um prazo de 90 dias para adequação antes de eventual autuação”.
A NR-1 prevê que “o não-cumprimento das disposições legais e regulamentares sobre segurança e saúde no trabalho acarretará a aplicação das penalidades previstas na legislação pertinente”.
Outro ponto atualizado pela norma é a flexibilização dos treinamentos em segurança do trabalho. O texto passa a permitir capacitações em formato remoto ou semipresencial desde que atendidos critérios técnicos e pedagógicos previstos no Anexo II da NR-1.
No caso das pequenas e médias empresas especialistas avaliam que a adaptação tende a ser mais desafiadora, afirmou Xavier: “Setores com maior pressão operacional e menor maturidade em sistemas de gestão, assim como organizações com mais dificuldades para obter informações e realizar investimentos, podem ter desafios adicionais, como as PMEs”.
Dados citados pela diretora médica da Howden mostram o avanço das discussões sobre saúde mental no mercado de trabalho brasileiro. Segundo ela o Brasil registrou 4 milhões de afastamentos previdenciários em 2025, dos quais 546 mil 254 estavam relacionados à saúde mental, alta de 15,6% com relação ao ano anterior.
“Quando a empresa consegue identificar os fatores organizacionais que impactam os trabalhadores e corrige estes riscos ela terá menos afastamentos, maior produtividade e melhores resultados.”
Para Xavier o principal legado da atualização será uma mudança estrutural na forma como as empresas encaram desempenho e produtividade: “A consolidação de uma visão mais ampla de gestão de riscos reforça que desempenho, produtividade e qualidade dependem também das condições organizacionais e humanas do trabalho”.