São Paulo — A indústria automotiva brasileira terá de avançar, obrigatória e rapidamente, em competitividade, ampliar suas exportações e preservar a cadeia local de fornecedores para superar uma nova etapa de transformação, marcada pela chegada das fabricantes chinesas e pela reforma tributária.
Essas foram as principais conclusões do encontro promovido pela Thomson Reuters na quinta-feira, 3, em São Paulo, reunindo representantes da indústria para discutir a situação atual do setor, os caminhos para assegurar seu desenvolvimento no Brasil e as consequências das novas regras tributárias, cuja implementação começará em 2027.
A discussão ocorreu em um momento de forte crescimento do mercado brasileiro de veículos, notadamente nos segmentos de automóveis e comerciais leves, cujas vendas avançaram 19,9% de janeiro a agosto deste ano na comparação com igual período de 2025. O resultado supera com folga as expectativas do início do ano, quando as projeções apontavam para crescimento próximo de 6%.
O quadro é diferente no segmento de caminhões, que ainda acumula retração. A queda está concentrada sobretudo nos pesados e extrapesados, mais dependentes de financiamento. Segundo os participantes, leves e médios apresentaram desempenho melhor, beneficiados, dentre outros fatores, pelo crescimento do comércio eletrônico e das entregas urbanas.
Os juros elevados foram apontados como um dos principais entraves à recuperação do mercado de veículos comerciais. Um cavalo mecânico com semirreboque pode representar investimento próximo de R$ 2 milhões, o que torna sua aquisição praticamente inviável sem financiamento.
Diante do elevado custo atual do crédito, os transportadores podem estar adiando a decisão de renovar suas frotas, mesmo quando os modelos mais novos oferecem ganhos de consumo, produtividade e custo operacional.
Para as empresas de autopeças, os juros também dificultam os investimentos necessários à modernização das fábricas, justamente em um momento no qual a concorrência internacional se intensifica e exige evolução tecnológica e ganhos de produtividade.
Novo patamar de concorrência
Outro movimento importante é a rápida expansão dos veículos eletrificados, que já se aproximam de 25% das vendas brasileiras de automóveis e comerciais leves em 2026. Os híbridos ainda predominam, e parte relevante desse crescimento está sendo impulsionada pelas fabricantes chinesas, sobretudo BYD e GWM. Para os participantes do encontro, a evolução dessas empresas está alterando a percepção do consumidor brasileiro. A antiga imagem de que os veículos chineses teriam baixa qualidade está perdendo espaço diante de modelos que oferecem elevado conteúdo tecnológico, conectividade e preços competitivos.
Em razão desse avanço, tornou-se muito mais difícil enfrentar a escala e o nível de competitividade alcançados pela indústria chinesa de veículos. Foi lembrado que, em 2000, o setor automotivo chinês produzia aproximadamente 1 milhão de veículos por ano. Atualmente, sua produção já alcança cerca de 30 milhões de unidades anuais, o que coloca a China como o maior fabricante de veículos do mundo.
Além da escala, as empresas chinesas avançaram por meio da verticalização, com maior domínio sobre baterias, componentes eletrônicos, softwares e diferentes etapas da produção. Esse modelo contribuiu para reduzir custos, ganhar competitividade e acelerar o desenvolvimento tecnológico.
Na avaliação dos participantes, o Brasil ganhou importância nos planos internacionais dessas companhias, sobretudo diante das barreiras comerciais impostas aos produtos chineses na Europa e nos Estados Unidos. A expectativa, inclusive, é de que o País seja utilizado tanto como grande mercado consumidor quanto como plataforma de produção e exportação para outros mercados, principalmente da América Latina.
Diante dessa constatação, o desafio será transformar a expansão da participação local das marcas chinesas em produção efetivamente localizada, com nacionalização de componentes, geração de empregos, desenvolvimento tecnológico e participação da indústria brasileira de autopeças.
Sistemistas buscam produtividade
Do ponto de vista dos sistemistas a pressão por competitividade também exige mudanças profundas. Jivago Bolognani, gerente de trade compliance da Versigent, antiga Aptiv, afirmou que os fornecedores já estão trabalhando na revisão de custos e na aplicação de novas tecnologias para atender às exigências das montadoras.
Segundo ele a globalização ampliou a concorrência e reduziu distâncias, permitindo que produtos fabricados na China cheguem ao Brasil com rapidez e preços competitivos. Para ele a resposta da indústria local passa por inovação, produtividade e maior eficiência dos processos. “Precisamos de inovação e criatividade sem limites para sobreviver a todas essas transformações”.
Bolognani destacou também que as empresas precisam acompanhar permanentemente as mudanças regulatórias, manter suas equipes treinadas e contar com suporte técnico capaz de interpretar as novas regras.
Esse processo ganha importância especial diante da reforma tributária e das alterações previstas nos regimes aduaneiros. Dessa forma, segundo ele, a implantação de instrumentos como o Recof se torna cada vez mais estratégica e não exige apenas mudanças nos sistemas, mas também uma transformação cultural dentro das empresas.
Para que o regime funcione de forma segura, explicou, é necessário o envolvimento da alta direção, a revisão dos processos internos e a adoção de elevado nível de compliance. “Muitas empresas já estão habilitadas a operar esses mecanismos, mas não os utilizam plenamente por ainda não terem realizado as adaptações necessárias”.
Capacidade depende das exportações
A ampliação das exportações também foi apontada como condição necessária para aproveitar melhor a estrutura produtiva instalada no Mercosul.
Brasil e Argentina possuem, juntos, capacidade para produzir aproximadamente 6 milhões de veículos por ano. As duas indústrias foram estruturadas de forma complementar, com fábricas e fornecedores integrados em uma mesma cadeia regional.
Os mercados internos dos dois países, entretanto, não são suficientes para ocupar toda essa capacidade. Por isso, a celebração de acordos comerciais e a abertura de novos mercados serão fundamentais para sustentar o crescimento da produção no futuro.
Márcio Fernandes, gerente de comércio exterior e alfândegas da Mercedes-Benz, observou que a produção local é essencial para abastecer os mercados brasileiro e argentino. Ele avaliou, contudo, que o Mercosul também possui potencial para se transformar em uma plataforma de exportação para outras regiões, incluindo países emergentes e a África do Sul.
Segundo Fernandes o acordo do Mercosul com a União Europeia poderá criar oportunidades importantes para veículos e componentes brasileiros, embora também aumente a concorrência no mercado interno à medida que as tarifas de importação forem reduzidas.
Além dos acordos comerciais, a competitividade das exportações dependerá de regras de origem adequadas, da harmonização de normas técnicas e ambientais e da utilização eficiente dos regimes aduaneiros especiais.
Reforma muda estratégias
Tema central do encontro, a reforma tributária começará a produzir efeitos práticos no início de 2027 e exigirá mudanças nos sistemas, nos processos internos e na gestão financeira das empresas.
Fernandes alertou que essa preparação não pode ser deixada para o último momento. A mudança nas regras de apropriação dos créditos tributários, por exemplo, poderá afetar o fluxo de caixa de montadoras e fornecedores. “Regimes como Recof, drawback e ex-tarifário precisarão ser analisados de forma integrada. Cada empresa terá de avaliar a origem dos componentes, o destino dos produtos, os acordos comerciais disponíveis e os impactos financeiros de cada operação”.
Fernandes comparou esse processo a um jogo de tabuleiro, no qual as empresas precisarão movimentar suas peças de acordo com as características de cada negócio. Segundo ele, o Recof compartilhado poderá ganhar importância nesse novo cenário, com o regime permitindo integrar montadoras e fornecedores e reduzir os impactos tributários ao longo da cadeia, alcançando inclusive empresas de diferentes níveis de fornecimento.
Fernandes informou que a Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus já trabalha atualmente com 54 fornecedores no Recof compartilhado e pretende incluir outros trinta. “Nossa expectativa é de que a reforma tributária estimule mais empresas a migrar para esse regime.”
Para aproveitar essas possibilidades, as companhias precisarão investir em sistemas de controle, governança, integração das informações e conformidade tributária. A reforma poderá representar uma oportunidade caso simplifique o sistema, assegure a desoneração efetiva das exportações e ofereça maior previsibilidade. O risco será apenas substituir os tributos atuais por uma carga mais elevada e por novas incertezas operacionais.
Também preocupa a incidência do Imposto Seletivo sobre os veículos. A tributação adicional poderá elevar os preços, limitar o crescimento do mercado e reduzir a competitividade de uma cadeia produtiva responsável atualmente por aproximadamente 1 milhão 300 mil empregos no País.
O debate deixou uma conclusão clara: as transformações já estão em curso. A concorrência chinesa, a abertura comercial, a transição tecnológica e a reforma tributária exigirão decisões imediatas. As empresas que demorarem a se preparar poderão perder espaço na nova configuração da indústria automotiva brasileira.























