Hannover, Alemanha — A descarbonização do transporte pesado terá mais de um rota tecnológica. Essa foi uma das principais mensagens de Karin Rådström, CEO da Daimler Truck, na IAA Transportation 2026. Na Europa a executiva vê caminhões elétricos a bateria e movidos a hidrogênio como as principais alternativas para atender às metas de redução de emissões. Mas a realidade será diferente em outras regiões do mundo.
O movimento mais concreto em hidrogênio começa agora. A Mercedes-Benz Trucks anunciou na IAA que 100 unidades do NextGenH2 Truck serão colocadas gradualmente em operação com clientes a partir do fim de 2026. A primeira empresa a receber o caminhão será a transportadora alemã Dachser, que utilizará o modelo principalmente em operações de longa distância.
O programa representa uma mudança de estágio para a tecnologia. Em vez de apenas testar protótipos, a Mercedes-Benz passa a acompanhar uma frota de 100 NextGenH2 Trucks em operações reais com diferentes clientes europeus.
O caminhão utiliza célula de combustível e hidrogênio líquido e foi desenvolvido para oferecer autonomia superior a 1 mil quilômetros, aproximando a operação do padrão de flexibilidade dos caminhões a diesel em viagens de longa distância.
Para Rådström, o hidrogênio terá papel importante principalmente nas aplicações em que autonomia, carga útil e rapidez no abastecimento forem fatores determinantes.
Infraestrutura é o grande desafio
Para a CEO da Daimler Truck, a indústria já avançou bastante no desenvolvimento dos veículos elétricos. O problema agora está na velocidade com que a infraestrutura acompanha essa evolução.
A expansão dos pontos de recarga na Europa vem ocorrendo, mas ainda precisa acelerar para atender ao crescimento esperado da frota elétrica pesada.
Por isso, na visão da executiva, regulação e infraestrutura precisam caminhar juntas. Os governos precisam criar as condições para que transportadores consigam efetivamente adotar os veículos de emissão zero.
Europa terá elétricos e hidrogênio
A regulamentação europeia exerce forte pressão sobre fabricantes e transportadores para reduzir emissões. Nesse cenário, a Daimler Truck aposta em uma combinação de caminhões elétricos a bateria e soluções movidas a hidrogênio.
Rådström demonstra confiança no posicionamento da empresa nesse mercado. Segundo ela, a Daimler Truck já conta com um portfólio competitivo de caminhões elétricos e pretende permanecer na liderança tecnológica.
O avanço do NextGenH2 reforça essa estratégia. A pequena série de 100 veículos permitirá ampliar a experiência prática com a tecnologia e, ao mesmo tempo, entender os desafios de operação, abastecimento e infraestrutura.
Diesel não sai de cena
Enquanto a Europa acelera rumo às tecnologias de emissão zero, Rådström não descarta o motor a combustão em escala global. A CEO avalia que o diesel continuará importante em determinados mercados e aplicações, especialmente onde a infraestrutura para eletrificação ainda não está madura.
Nesse cenário, motores mais eficientes e combustíveis de menor emissão também terão espaço na estratégia de descarbonização.
O Brasil aparece nesse contexto como um mercado com características próprias. Rådström cita os biocombustíveis como uma das alternativas que podem contribuir para a redução das emissões no País.
Parcerias ganham peso
A multiplicação das tecnologias também muda a forma como a Daimler Truck desenvolve seus produtos.
Segundo Rådström, a empresa passou a trabalhar cada vez mais com parceiros para acelerar o acesso a novas tecnologias. A estratégia combina desenvolvimento interno de competências consideradas estratégicas com alianças em áreas nas quais fornecedores especializados podem acelerar a evolução.
Essa lógica também aparece na infraestrutura de recarga e no ecossistema necessário para o hidrogênio.
Autonomia entra no radar
Outra frente destacada pela executiva é a condução autônoma. Os Estados Unidos aparecem como um dos mercados mais avançados para essa tecnologia, principalmente em operações específicas e ambientes nos quais a automação pode ser implementada inicialmente com maior facilidade.
A estratégia, entretanto, não depende necessariamente de grandes mudanças na infraestrutura rodoviária. A Daimler Truck trabalha para desenvolver sistemas capazes de interpretar diferentes situações de tráfego e operação.
A adoção em larga escala ainda exigirá tempo, mas Rådström considera a condução autônoma uma tecnologia com potencial para ganhar relevância no transporte pesado.
O caminhão do futuro terá mais de uma tecnologia
A fala da CEO sintetiza uma mudança importante na estratégia da indústria: não existe mais uma aposta única. A Daimler Truck trabalha simultaneamente com baterias, hidrogênio, motores a combustão mais eficientes, combustíveis de menor emissão, automação e novos modelos de serviços.
Na Europa a pressão regulatória empurra o mercado para emissão zero. Em países como o Brasil, a disponibilidade de biocombustíveis pode prolongar e transformar o papel do motor a combustão.
O início da operação de 100 NextGenH2 Trucks com clientes europeus mostra que o hidrogênio entra agora em uma fase mais concreta de validação comercial. Ao mesmo tempo, a estratégia para diferentes mercados mantém o diesel e os combustíveis de menor emissão no radar.
Para Rådström, portanto, a indústria precisa estar preparada para diferentes soluções tecnológicas convivendo durante a transição energética.
A disputa, daqui para frente, não será apenas para desenvolver o caminhão mais eficiente. Será também para criar a infraestrutura, os parceiros e o modelo de operação capazes de fazer cada tecnologia funcionar na estrada.























