A economia brasileira vive a síndrome do gato escaldado, aquele que tem medo até de água fria. Apesar dos sinais da retomada começarem a aparecer em várias frentes e já se refletirem nas pesquisas que medem o ânimo nacional, a demanda permanece estagnada neste primeiro trimestre e, em alguns casos, como o do automotivo, por exemplo, até apresenta nova redução.
Os sinais verdes começam a aparecer em diversas frentes. Entre tantos outros, depois de 22 meses em queda, o número de empregados com carteira assinada, por exemplo, voltou a crescer em fevereiro. Ao mesmo tempo, a inflação se aproximou do centro da meta, a Selic foi novamente reduzida, os juros bancários mostraram alguma contenção e até as exportações cresceram em relação ao mesmo mês do ano passado, o que não acontecia há 17 meses.
No entanto, escaldadas e ainda trazendo no corpo os hematomas gerados pelas duras dificuldades amargadas nos últimos anos, empresas e consumidores até se animam um pouco com as várias boas notícias, mas, ao menos por enquanto, mantém aceso o sinal vermelho, quando muito o amarelo.
Em decorrência, embora não estejam mais demitindo em massa, as empresas continuam retardando ao máximo qualquer recomposição de seu quadro de funcionários, a espera de que tudo se reflita em consistente aumento da demanda por seus produtos.
E os consumidores, de seu lado, embora constatem algum aumento da estabilidade em relação ao emprego, preferem, por precaução, restringir o consumo ao que for absolutamente indispensável, pelo menos até que a temporada de retomada das contratações se apresente de forma mais firme e convincente.
Ou seja, embora já tivesse boas razões para embicar na direção do virtuoso, o quadro econômico nacional permanece engolido por um nefasto circulo vicioso: como a demanda não aumenta, as empresas não contratam e, em contrapartida, como as empresas não contratam, os consumidores, mesmo os já empregados, não se animam a ativar o consumo.
O quadro é mais complexo e bem mais difícil de ser equacionado do que pode parecer à primeira vista. Acontece que, para conseguir sobreviver a três anos seguidos de recessão, as empresas tiveram de enxugar sua estrutura e aumentar substancialmente a eficiência.
Na entrevista que concedeu na segunda-feira, 20, para o From the top da edição de abril da revista AutoData, José Eduardo Luzzi, presidente da Navistar Mercosul, contou que sua empresa concentrou toda sua produção de motores na planta de São Paulo, SP, e colocou em hibernação a fábrica de Canoas, RS, agora exclusiva da produção de caminhões, a espera da retomada do mercado de veículos comerciais.
Simultaneamente, passou um pente fino na operação como um todo. Com o auxilio de uma consultoria externa, o processo foi completamente revisto em todas as áreas. Resultado prático: 25% de aumento na eficiência, com reflexo proporcional nos custos.
E a Navistar não é, por certo, caso isolado. A maior parte das empresas que conseguiram sobreviver a estes três últimos anos foram forçadas a encarar de frente processos de ajustes semelhantes. E, agora, em decorrência, necessitariam de bem menos funcionários para fabricar o mesmo tanto que produziam antes do inicio desta crise, que reduziu em 9% o PIB, Produto Interno Bruto nacional, e é, assim, a maior da história do País.
Além disso, a queda de vendas e de produção foi tão pronunciada que, hoje, a maior parte das empresas opera com apenas um turno e, ainda assim, com parte de seus funcionários dentro do PPE – Programa de Proteção ao Emprego, agora reformatado e rebatizado de PSE, Programa Seguro-Emprego.
Ou seja, mesmo depois que o crescimento da demanda começar a dar o ar da graça de forma mais significativa, as empresas, em particular as ligadas ao setor automotivo, tem muita margem para aumentar a produção ainda sem necessidade de voltar a abrir novas vagas em suas linhas ou escritórios. E margem que certamente vão utilizar até o limite das horas extras.
Ainda mais quando se considera as dificuldades de planejamento que decorrem da instabilidade que ainda predomina no quadro político nacional e dos eventuais e imprevisíveis desdobramento da operação Lava Jato e, agora, também a Carne Fraca, que igualmente ameaça respingar na área política.
Tudo anda tão confuso em Brasília, DF, que no curto espaço de duas semanas dois projetos tratando da Terceirização da mão de obra tramitaram simultaneamente, um na Câmara e outro no Senado. E com diferenças substanciais entre si.
Num quadro assim, como projetar os desfechos mais prováveis para as reformas trabalhista e previdenciária também em fase de tramitação no Congresso?
E, para ir pouco além, a pouco mais de um ano das próximas eleições presidências, como projetar, com um mínimo de dose de certeza, não quem tem maiores chances de ganhar a eleição, mas, ao menos, quais poderão ser os candidatos de cada partido?
Em meio a tantas incertezas, prudência e carne de galinha passam compreensivelmente a ser artigos de primeira necessidade. É um quadro que dá toda razão tanto as empresas que adiam as novas contratações quanto aos consumidores que se negam a consumir nada além do básico.
Empresas ou consumidores, cada um por suas boas e concretas razões, ninguém se atreve a dar o primeiro passo. É a síndrome do gato escaldado. Tai um nó econômico difícil, muito difícil, de desatar.