A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para se consolidar como um dos principais vetores de transformação da indústria automotiva. Em um cenário marcado pela eletrificação, conectividade, digitalização e mudanças no comportamento do consumidor, a IA assume papel estratégico e passa a influenciar desde o desenvolvimento de veículos até a experiência do cliente e a gestão da cadeia de suprimentos. Nesse contexto, o conceito de Trusted AI, desenvolvido pela KPMG, ganha relevância ao propor um framework de governança voltado ao uso seguro, transparente e responsável da tecnologia.
O modelo busca garantir que os sistemas operem dentro de critérios claros de confiabilidade, rastreabilidade e controle. Entre seus pilares, estão qualidade e origem dos dados, privacidade, mitigação de vieses, segurança da informação e explicabilidade dos algoritmos. Segundo o Líder de Tecnologia e Inovação da KPMG no Brasil e América do Sul, Frank Meylan, a IA tende a reproduzir os padrões presentes nos dados utilizados durante treinamentos realizados. Caso ocorramproblemas como distorções, preconceitos ou inconsistências, eles acabam sendo amplificados em escala, gerando impactos não apenas técnicos, mas também sociais, reputacionais e regulatórios.
“Para a KPMG, a governança deve ser vista como aceleradora da inovação e não como barreira. Empresas que estruturam controles desde o início conseguem avançar com mais segurança e velocidade, enquanto organizações que ignoram essa etapa ficam expostas a riscos relevantes, como vazamento de informações estratégicas e uso inadequado de plataformas públicas de IA”, explica Meylan.
A própria KPMG atuou como “cliente zero” do framework antes de oferecê-lo ao mercado. Em uma operação global presente em 143 países e responsável pelo gerenciamento de dados sensíveis de grandes corporações concorrentes entre si, a companhia precisou desenvolver sistemas robustos de proteção e segregação de informações. O resultado foi uma estrutura baseada em monitoramento contínuo, compliance, certificação de risco, contratos específicos e parcerias com provedores globais de nuvem.
Na indústria automotiva, os impactos da IA já são visíveis em diferentes frentes. Simulações virtuais aceleram crash tests, reduzem custos de desenvolvimento e encurtam ciclos de engenharia. Ao mesmo tempo, modelos avançados permitem prever rupturas logísticas, otimizar estoques e aumentar a resiliência da cadeia de suprimentos.
A transformação também altera o próprio conceito de veículo. O automóvel deixa de ser apenas um produto físico para se consolidar como uma plataforma digital. Nesse novo cenário, software, conectividade e experiência do usuário passam a concentrar parcela crescente do valor agregado da indústria, redefinindo modelos de receita e competitividade.
No marketing automotivo, a IA impulsiona estratégias muito mais orientadas por dados. Ferramentas analíticas permitem segmentações sofisticadas, campanhas personalizadas em tempo real e monitoramento completo da jornada do consumidor. Isso torna os investimentos mais precisos e acelera a tomada de decisão comercial.
Apesar do enorme potencial, ainda existe um grande desafio entre ambição e execução. Muitas empresas enfrentam dificuldades relacionadas à organização de dados, definição de prioridades e integração entre tecnologia e estratégia de negócios. Em diversos casos, iniciativas de IA permanecem restritas às áreas técnicas e não conseguem gerar transformação organizacional ampla. Por isso, a KPMG defende que o board das empresas deve dar o primeiro passo dessa jornada. “Líderes precisam compreender como a IA impacta processos, cultura corporativa e modelos de negócio. Mais do que eficiência operacional, a tecnologia exige uma revisão profunda da lógica de geração de valor”, destaca o executivo.
A tendência é que a IA se torne tão indispensável nas empresas quanto ferramentas básicas de produtividade são hoje. Nesse contexto, empresas capazes de combinar governança sólida, visão estratégica e capacidade de execução estarão mais preparadas para liderar a próxima década da mobilidade.