Há algumas verdades econômicas que resistem ao tempo. Uma delas é que nenhum país rico construiu sua prosperidade abrindo mão da sua indústria. Ao contrário as economias que hoje lideram o mundo consolidaram, em algum momento de sua história, uma base industrial forte, inovadora e competitiva, capaz de gerar empregos qualificados, desenvolver tecnologia, formar mão de obra especializada e elevar a produtividade.
Este foi o modelo adotado pela China ao longo das últimas duas décadas. O Brasil, que ainda busca alcançar este estágio de desenvolvimento, não deveria seguir caminho diferente. E é justamente por isso que os números recentemente divulgados pela Anfavea sobre o avanço da eletrificação da frota, do aumento da importação e da produção local gerada por kits SKD ou CKD, merecem uma reflexão cuidadosa.
Estes dados levantam uma questão importante: durante a transição para a nova mobilidade que estamos vivendo o Brasil será apenas um grande mercado consumidor ou continuará sendo, também, um produtor de tecnologia, conhecimento e empregos?
Os números, por si só, são expressivos. No primeiro semestre foram emplacados 245 mil veículos híbridos e elétricos, crescimento de 114,8% com relação ao mesmo período do ano passado. Isto realmente é muito importante analisado somente do aspecto ambiental ou tecnológico. Só que 146 mil unidades deste total foram importadas e outras 54 mil montadas no Brasil em regime CKD ou SKD.
Apenas 45 mil foram efetivamente produzidas no País.
Não se trata aqui de condenar a importação ou de ignorar que muitas empresas iniciam ou iniciaram sua operação local por meio da montagem de kits antes de ampliarem seus investimentos industriais. O grande problema é que todo este crescimento pode estar deixando de ser acompanhado pela evolução da produção local e, principalmente, pela geração de empregos de maior valor agregado.
Em outras palavras: quantos empregos, quantos projetos de engenharia, quantos fornecedores, quantos laboratórios e quantos centros de desenvolvimento tecnológico estão sendo criados a partir deste crescimento? Vender automóveis é obviamente muito importante. Mas produzi-los, principalmente num País relativamente ainda pobre que precisa gerar empregos de qualidade é, com absoluta certeza, ainda mais.
A indústria automobilística nunca representou, de fato, no Brasil apenas a fabricação de veículos. Ao longo de sete décadas que este setor automotivo trabalha no País ele se transformou em uma das principais plataformas de desenvolvimento e geração locais de empregos industriais. Em torno das montadoras consolidaram-se centenas de fabricantes de autopeças, empresas de logística, ferramentarias, laboratórios, universidades, centros de pesquisa e companhias de tecnologia. O cálculo é que cada emprego gerado em uma montadora tem potencial de gerar outros dez em todo a cadeia produtiva e comercial. E poucos setores possuem capacidade semelhante de irradiar conhecimento e inovação para tantos segmentos da economia.
Não é por acaso que governos de todo o mundo continuam disputando investimentos da indústria automobilística. Uma montadora dificilmente chega sozinha num novo país. Ao seu redor surgem dezenas de fornecedores, prestadores de serviços, empresas de tecnologia, concessionárias e toda uma infinidade de oportunidades de negócios que multiplicam o impacto daquele investimento sobre a economia local.
O mesmo raciocínio vale para o processo inverso. Quando uma parcela crescente do mercado passa a ser atendida por veículos importados ou apenas montados a partir de kits produzidos no Exterior parte importante do valor agregado deixa de ser gerada aqui. O consumidor continua comprando veículos, as concessionárias seguem vendendo e os números de emplacamentos continuam crescendo. Mas a engenharia, o desenvolvimento de componentes, a fabricação de sistemas, os investimentos em pesquisa e, principalmente, parte dos empregos mais qualificados passam a ser criados em outros países.
A concorrência é saudável, acelera a chegada de novas tecnologias e obriga toda a indústria a evoluir e não significa que operações CKD e SKD que novas montadoras precisam para iniciar suas operações não tenham importância.
O ponto central é outro: esta etapa, que teoricamente precisa ser ultrapassada por uma nova montadora que pretende se instalar localmente, precisa necessária e obrigatoriamente ser vista como uma transição e não como destino final. A política industrial deve sempre estimular que ela evolua para maior nacionalização de componentes, desenvolvimento de fornecedores, instalação de centros de engenharia e ampliação da produção local.
É justamente aí que está localizado o papel do governo. Não cabe ao Estado escolher quais empresas terão sucesso nem fechar as portas para a concorrência internacional. Mas cabe a ele, sim, formular políticas públicas que transformem crescimento de mercado em desenvolvimento econômico, criando um ambiente competitivo, previsível e capaz de incentivar investimentos produtivos de longo prazo e desenvolvimento local. Em resumo cabe ao governo preocupar-se, sim, principalmente com a geração de empregos na indústria local.
O momento é particularmente importante porque o mundo vive a maior transformação tecnológica da história do automóvel. A eletrificação, a digitalização, os veículos definidos por software e a inteligência artificial estão redesenhando completamente a indústria.
Tudo isto obviamente é louvável do ponto de vista da preservação ambiental. Mas precisamos continuar atentos para o fato de que países que conseguirem participar deste processo não apenas como consumidores mas como desenvolvedores e produtores de tecnologia colherão benefícios durante décadas a partir de agora. Os demais correrão o risco de se transformar apenas em grandes mercados compradores de soluções produzidas em outras regiões.
E não é isto que o Brasil precisa. Todos nós sabemos que o País reúne condições raras para ocupar posição de destaque nessa nova etapa. Possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, liderança mundial em biocombustíveis, experiência consolidada em motores flex, uma cadeia automotiva construída ao longo de décadas e um mercado interno entre os maiores do mundo. São vantagens que poucos concorrentes conseguem reunir simultaneamente. Aproveitá-las, entretanto, dependerá da capacidade de transformar a expansão do mercado em expansão da produção nacional.
O aviso dado pela Anfavea na semana passada deve ser interpretado exatamente desta forma: não como motivo para alarmismo mas como um alerta. O avanço da eletrificação é positivo. A chegada de novos fabricantes também. Mas nenhuma dessas conquistas será completa se o Brasil deixar escapar justamente aquilo que fez da indústria automobilística um dos pilares de seu desenvolvimento: a capacidade de gerar empregos qualificados, desenvolver tecnologia e produzir riqueza.
O momento da escolha é agora. Podemos nos limitar à condição de grande mercado consumidor ou aproveitar esta oportunidade histórica para fortalecer nossa indústria. A diferença dos dois caminhos será medida muito menos pelo número de veículos vendidos e muito mais pela quantidade de conhecimento, tecnologia e empregos de qualidade que permanecerão no País nos próximos anos.












