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“Last Mille é a etapa mais complexa na cadeia do e-commerce”, diz Abralog

Pedro Moreira, presidente da Abralog, revela quais são os desafios que a última milha enfrenta na logística do comércio eletrônico brasileiro

São Paulo — Por trás de cada entrega das compras feitas por e-commerce, o comércio eletrônico que ganhou notoriedade principalmente no período da pandemia da covid-19, há uma operação logística complexa que o consumidor desconhece. Neste contexto, o last mile, ou última milha, etapa final do processo, tornou-se crucial para avaliar a qualidade do serviço, a confiança na marca e a experiência do comprador.

“É o momento em que a promessa de indústria, varejo, empresas de e-commerce e logística é percebida pelo cliente”, afirmou Pedro Moreira, presidente da Abralog, Associação Brasileira de Logística.

Em entrevista ao AutoData Mobility, Moreira abordou a evolução da última milha no setor logístico e seu potencial de crescimento. Mas não escondeu que ela está cercada de desafios que precisam ser superados, principalmente nos grandes centros urbanos.  

No Brasil as operações de last mile se intensificaram mais no período da pandemia?

O last mile sempre existiu, pois representa a etapa final da entrega, quando o produto sai do centro de distribuição, loja, hub logístico ou ponto de apoio e chega ao consumidor ou ao estabelecimento comercial. O que ocorreu durante a pandemia foi uma aceleração sem precedentes. O crescimento do e-commerce, das entregas domiciliares e dos serviços de delivery aumentou significativamente o volume e a complexidade das operações. A última milha deixou de ser percebida apenas como etapa operacional e passou a ocupar uma posição estratégica. Hoje ela interfere diretamente na experiência do cliente, na reputação das marcas, nos custos logísticos e na competitividade das empresas.

Como o crescimento do comércio eletrônico impacta na última milha?

O crescimento do comércio eletrônico – que movimenta R$ 200 bilhões por ano no Brasil – é um dos principais vetores de transformação da última milha. Estima-se que ele representa 18% das vendas do varejo brasileiro nas categorias mais aderentes ao canal digital e com grande potencial de expansão. Nos próximos cinco anos o porcentual deverá se aproximar de 30%, impulsionando a demanda por operações de última milha eficientes, tecnológicas e sustentáveis.

Quais são os maiores gargalos enfrentados pelo last mile atualmente?

Encontrar o equilíbrio do custo com velocidade, qualidade, previsibilidade e sustentabilidade. As empresas precisam atender a consumidores exigentes, que desejam entregas rápidas, acompanhamento em tempo real, flexibilidade de horários e, em muitos casos, frete gratuito ou de baixo custo. Ao mesmo tempo a atividade enfrenta congestionamentos, restrições municipais à circulação de veículos, falta de áreas adequadas para carga e descarga, escassez de motoristas e entregadores, baixa produtividade, tentativas de entrega sem sucesso, roubos de carga, devoluções e custos operacionais elevados. Há ainda o desafio ambiental. Não basta entregar rapidamente: é necessário reduzir quilômetros percorridos, aumentar a ocupação dos veículos, utilizar fontes energéticas mais limpas e mitigar emissões geradas pelas operações urbanas.

Estudo do Insper, Instituto de Ensino e Pesquisa, de 2025 revelou que a principal preocupação das empresas é a eficiência nas entregas, mas existe pouca colaboração delas próprias. O senhor concorda?

Concordo. Apesar dos avanços tecnológicos existe pouca colaboração das empresas no trabalho de última milha. Frequentemente diferentes organizações percorrem as mesmas regiões, atendem endereços próximos e utilizam veículos parcialmente ocupados, sem compartilhar infraestrutura, informações ou capacidade logística. Há enorme potencial para sistemas colaborativos envolvendo centros urbanos de consolidação, compartilhamento de veículos e recursos, pontos de retirada, lockers, micro-hubs e integração de indústria, varejo, operadores e transportadores. Colaboração não significa eliminar a competição, mas sim identificar atividades nas quais é possível compartilhar recursos e infraestrutura para aumentar a produtividade, reduzir custos, melhorar a mobilidade urbana e diminuir as emissões.

Existem políticas públicas e regulamentações sobre last mile ou a operação ainda esbarra em questões legais?

Há regulamentações relacionadas à circulação de veículos, horários de entrega, áreas de restrição, emissão de poluentes, estacionamento e utilização dos espaços urbanos. Entretanto as regras variam muito nos municípios. Uma empresa que entrega em diversas cidades precisa lidar com legislações, horários e restrições diferentes, aumentando a complexidade operacional. O desafio é construir políticas públicas que conciliem mobilidade urbana, abastecimento, sustentabilidade e eficiência logística. As cidades dependem da logística para funcionar. Afinal, hospitais, supermercados, restaurantes, indústrias, farmácias e consumidores são abastecidos diariamente. Desta forma o transporte de mercadorias deve ser considerado no planejamento urbano desde a sua origem. Isto se organiza com diálogo do poder público com empresas, operadores logísticos, transportadores, entidades setoriais e sociedade.

Quanto o mercado de last mile movimenta anualmente no Brasil e quantos empregos gera?

Não existe uma estatística oficial, porque a última milha reúne transportadoras, operadores logísticos e postais, varejistas, marketplaces, aplicativos, empresas de delivery e frotas próprias. Mas estudos internacionais de mercado estimaram o segmento brasileiro de last mile em aproximadamente US$ 5 bilhões em 2025. As projeções apontam crescimento anual superior a 15%. O número de empregos é mais difícil de separar, porque abrange trabalhadores de diversas atividades econômicas. São motoristas, motociclistas, ciclistas, ajudantes, profissionais de armazéns, planejadores, equipes de atendimento, manutenção, tecnologia, roteirização e gestão. Falamos, certamente, de centenas de milhares de empregos diretos e indiretos.

Como é a operação de last mile em outros países? Há exemplos que o Brasil pode adotar?

Países europeus e cidades da Ásia e dos Estados Unidos estão desenvolvendo soluções interessantes. Dentre os exemplos estão centros urbanos de consolidação, micro-hubs próximos aos consumidores, lockers inteligentes, pontos de retirada, bicicletas de carga, veículos elétricos, entregas em horários alternativos e plataformas compartilhadas pelas empresas. Há também utilização intensa de dados, inteligência artificial e algoritmos para previsão de demanda, roteirização dinâmica, definição das melhores janelas de entrega e redimensionamento das redes logísticas. O Brasil precisa estudar tais referências, adaptar as melhores práticas e aproveitar as competências dos operadores e das empresas, que já possuem larga experiência em ambientes complexos.

A eletrificação das frotas é encarada como boa solução para o setor?

Trata-se de oportunidade importante, especialmente nas operações urbanas realizadas em trajetos curtos, rotas recorrentes e com retorno dos veículos às bases. Carros elétricos podem contribuir para reduzir emissões, ruído e custos operacionais, dependendo da aplicação e do perfil da rota. Neste tema ainda existem desafios relevantes: investimento inicial elevado, disponibilidade e preço dos modelos, infraestrutura e tempo de recarga, autonomia, valor residual e necessidade de adequação das instalações elétricas. A transição ocorrerá gradativamente e combinada com outras tecnologias. Enquanto a eletrificação não alcança, maior escala é fundamental otimizar rotas, elevar a ocupação dos veículos, eliminar viagens improdutivas, renovar as frotas e ampliar o uso de combustíveis de menor emissão. A descarbonização da última milha não depende de tecnologia única: é uma combinação de eficiência operacional com inovação energética e planejamento.

O last mile é a parte mais cara e crítica do processo logístico? Representa quanto do custo total?

Ele é uma das etapas mais caras e complexas da cadeia de distribuição. Isso acontece porque envolve grande número de paradas, pequenos volumes por entrega, trânsito urbano, dificuldade de estacionamento, restrições de circulação, baixa previsibilidade e ausência do destinatário. Segundo estudos a operação representa de 40% a 55% dos custos de transporte ou entrega, de acordo com fatores como produto, densidade das rotas, prazo prometido, tipo de veículo e modelo operacional. O last mile também é a etapa mais visível para o cliente. A empresa pode executar corretamente toda a cadeia de suprimentos, mas se a entrega final falhar a percepção será negativa.

Quais são os investimentos necessários para a operação perfeita?

Não há last mile perfeito. A operação é continuamente aperfeiçoada, com investimento em inteligência operacional. Isto abrange automação das operações intralogísticas, sistemas de gestão de transporte, roteirização dinâmica, inteligência artificial, telemetria, visibilidade em tempo real, integração de plataformas, análise de dados, previsão de demanda e comunicação com o consumidor. As empresas devem adotar centros de distribuição mais próximos dos mercados consumidores, micro-hubs, pontos de apoio, lockers, veículos adequados a cada perfil de rota e infraestrutura de recarga para operações eletrificadas.

Há ainda muitos erros cometidos no last mile?

Um dos principais é acreditar que os problemas da operação são resolvidos com mais veículos. Quando o processo não está bem planejado aumentar a frota pode significar mais congestionamento, quilômetros improdutivos e custos. Outras falhas recorrentes são a baixa ocupação dos veículos, roteirização inadequada, falta de integração dos sistemas, pouca utilização de dados e comunicação insuficiente com o consumidor. Prometer prazos curtos sem avaliar o custo real da decisão é outro pecado capital. Não se pode analisar a última milha isoladamente, porque ela começa antes de o veículo sair para a entrega. Muitas ineficiências da entrega são causadas antes, na gestão de estoques, na separação dos pedidos, no planejamento da demanda ou na localização inadequada dos centros de distribuição.  

Então como alcançar o last mile ideal?

Cada empresa precisa considerar características como perfil do produto, valor da mercadoria, densidade das entregas, urgência, índice de devoluções e nível de serviço prometido. Operação eficiente combina planejamento, segmentação das entregas, integração de sistemas, acompanhamento em tempo real e comunicação com o cliente. O segredo não é simplesmente entregar mais rápido, mas cumprir a promessa feita ao consumidor, equilibrando custo, serviço e impacto ambiental.

Metrópoles como São Paulo aumentam a complexidade da operação?

Sem dúvida. Grandes cidades reúnem os fatores que elevam a complexidade da logística urbana, como congestionamentos, alta densidade populacional, restrições de circulação, dificuldade de estacionamento e grande volume diário de entregas. Além disto existem consumidores com diferentes expectativas, desde entregas agendadas até serviços realizados no mesmo dia ou em poucas horas. Por outro lado a complexidade serve de laboratório para inovação logística, pois pode viabilizar micro-hubs, lockers, veículos elétricos, bicicletas de carga, sistemas avançados de roteirização e modelos colaborativos.

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