São Bernardo do Campo, SP – Muito antes da formação da Mercedes-Benz a Daimler já produzia veículos comerciais na Alemanha. O Daimler 1909, como ficou conhecido no Brasil, surgiu nove anos após a morte de Gottlieb Daimler e dezessete anos antes da união da Daimler-Motoren-Gesellschaft com a Benz & Cie., em 1926.
A fábrica de Berlim-Marienfelde construiu o caminhão em 1909. Documentos da época identificavam o modelo como um “caminhão Daimler utilizável em tempos de guerra”, com capacidade para transportar 4 toneladas. A empresa também oferecia uma versão em forma de trem rodoviário, composta por um caminhão e um reboque de 4 toneladas.
O exemplar brasileiro, guardado na fábrica da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, SP, representa, segundo o material histórico da empresa, o caminhão mais antigo da família Daimler encontrado no País. Ele chegou ao Brasil quando a indústria automobilística nacional ainda não existia. No entanto não há informação precisa sobre a data da importação nem sobre seus primeiros anos de atividade.

Da fazenda gaúcha à estação ferroviária
Na década de 1970 pesquisadores encontraram o caminhão em uma fazenda de Bagé, RS. O veículo pertencia a José Gomes Filho, empresário rural que mantinha uma fábrica de sebo, sabão e velas de cera.
Gomes Filho utilizava o Daimler para levar a produção da fazenda até a estação ferroviária da região. Na volta carregava carvão para abastecer as atividades da fábrica. Desta forma o caminhão cumpria uma rotina essencial para o empreendimento e conectava a propriedade ao sistema ferroviário.
Apesar das estradas precárias e dos limites tecnológicos daquele período o Daimler realizava transportes pesados. Além disso, a carroceria de madeira maciça, ampliava o peso total que o conjunto precisava movimentar. Assim o projeto priorizava robustez e capacidade de trabalho.
Motor de 35 cv e três sistemas de freio
O Daimler 1909 utiliza um motor a gasolina de quatro cilindros em linha, com 35 cv de potência. Embora este valor pareça baixo para os padrões atuais o conjunto atendia às exigências do transporte no início do século 20.
Carregado o caminhão alcançava 16 km/h e enfrentava inclinações de até 12%. A caixa de câmbio oferecia quatro marchas à frente e uma à ré, todas sem sincronização. Além disto o motorista dispunha de três sistemas mecânicos independentes de frenagem, recurso importante para controlar um veículo de grande peso em descidas.
O fabricante montou o chassi sobre uma estrutura de aço rebitada e adotou suspensão por molas semielípticas. O caminhão também recebeu rodas de ferro, pneus de borracha maciça e rodado duplo no eixo traseiro. Por outro lado a ausência de pneus pneumáticos reduzia o conforto e transmitia mais impactos ao chassi e ao condutor.
Os faróis funcionavam a gás, solução comum nos primeiros anos da indústria automobilística. Ainda assim o veículo reunia soluções avançadas para a época, como lubrificação automática por bomba e mancais de esferas duplos.

Versão com reboque dobrava a capacidade
A Daimler também comercializava uma configuração de 8 toneladas. Neste caso o caminhão transportava 4 toneladas e puxava reboque com a mesma capacidade. O fabricante equipava ambos com rodas de borracha maciça e mantinha o motor de 35 cv.
A ficha técnica da versão com reboque indicava consumo aproximado de 0,600 kg de benzol e 0,02 kg de óleo por quilômetro, considerando o conjunto completo. Além disto o catálogo estimava um percurso mensal de 1,8 mil km. A documentação também informava que a Daimler já havia fornecido esses trens rodoviários a diferentes localidades alemãs.
O modelo também podia trabalhar com carrocerias específicas. Uma fotografia histórica mostra uma versão basculante destinada ao transporte de carvão, identificada com o nome da mina Konsolidierte Braunkohlengrube Mathilde bei Neusädtel. Assim a Daimler adaptava o mesmo chassi a diferentes operações comerciais e industriais.
Restauração preservou uma relíquia
A Mercedes-Benz do Brasil localizou o exemplar gaúcho e coordenou sua restauração do fim da década de 1970 e o início dos anos 1980. Técnicos da empresa recuperaram o veículo com o objetivo de preservar suas características originais. Como resultado o caminhão voltou a funcionar e manteve elementos como a carroceria de madeira, o motor a gasolina e os componentes mecânicos de época.
Uma reportagem publicada quando o veículo completava cerca de 75 anos destacava que o motor ainda funcionava. O texto também descrevia o caminhão com peso bruto total de 5 a 6 toneladas, considerando o veículo e sua capacidade de carga.
Atualmente o Daimler 1909 integra o acervo histórico da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Além dele a empresa preserva o L-312, conhecido como Torpedo, e o LP-321, modelos importantes para a sua consolidação no mercado brasileiro.
Mais do que uma peça de exposição o Daimler 1909 registra uma época em que os caminhões começavam a substituir carroças movidas por animais.



















