São Paulo – Questões regulatórias e de infraestrutura ainda travam o início das operações do eVTOL, veículo elétrico de decolagem e pouso verticais, no Brasil. Atualmente o principal desafio não é mais tecnológico, porque a aeronave já existe e está pronta para voar.
“A Anac, Agência Nacional de Aviação Civil, vem fazendo um trabalho com muita responsabilidade de homologação e certificação para construir o ambiente regulatório”, disse Adriano Buzaid, CEO da Gohobby, importadora de produtos tecnológicos. Ela representa a EHang, fabricante chinesa de veículos aéreos autônomos.
A mobilidade aérea avançada é um mercado completamente novo no mundo e com potencial enorme. Segundo Buzaid projeções indicam que, na próxima década, serão entregues mais de 10 mil carros voadores por ano. “O momento é semelhante ao da chegada de automóveis elétricos: no começo parecia nicho e hoje é uma transformação que ninguém mais questiona.”
No entanto, algumas lacunas precisam ser resolvidas, como a formação de rede de vertiportos e a integração da operação ao espaço aéreo nacional. “É um processo natural e demorado para qualquer nova tecnologia aeronáutica e o Brasil está caminhando nesta direção.”
O que é um eVTOL?
O eVTOL será um novo personagem da eletromobilidade urbana com previsão de movimentar globalmente US$ 1 trilhão até 2040, com serviços, locomoção de passageiros e atividades logísticas, além das áreas de suporte técnico e pós-venda.
De olho neste filão, a Gohobby foi a primeira companhia a apresentar o carro voador movido a bateria para o público brasileiro, com direito a voo experimental no município de Quadra, SP, em setembro de 2024.
Para Buzaid, o Brasil parte de uma posição privilegiada, pois é o segundo país do mundo em aviação.
“A cidade de São Paulo possui ecossistema pronto, tem 260 helipontos, frota acima de 400 helicópteros e 2 mil operações de voo por dia. Ou seja, a cultura da aviação executiva está consolidada. Chegou a hora de dar o próximo passo.”
Diferenças dos eVTOLS
O plano de empresas como Gohobby e Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer dedicada ao desenvolvimento de eVTOLs, é impulsionar o desenvolvimento de novos modelos assim que certificação e homologação estiverem concluídas. “A EHang já comercializou 450 aeronaves da série EH216 para atividades voltadas ao turismo e demonstrações para passageiros na China.”
O EH216 foi pensado para deslocamentos curtos. Ele transporta duas pessoas, é totalmente elétrico e opera de forma autônoma, sem piloto a bordo. A velocidade de cruzeiro chega a 100 km/h e a autonomia alcança 30 quilômetros com voos de cerca de 25 minutos, suficientes para trajetos urbanos. “O preço varia conforme a configuração e os serviços contratados, mas a média é de US$ 600 mil.”
A proposta do eVTOL da Eve, também 100% elétrico, é diferente. Ele pode transportar quatro passageiros em distâncias de 200 quilômetros. Em 3 de agosto, protótipo da companhia realizou seu primeiro voo de transição parcial na Florida, Estados Unidos.

A operação envolveu acionamento da hélice traseira de empuxo, sinalizando o início da fase de transição do voo vertical para o voo sustentado pelas asas. A viagem durou três minutos com o carro voador a 27 metros de altura. Ele percorreu a distãncia de 1,55 quilômetro a 55 km/h.
Segundo a Eve, o estágio de transição é aspecto crítico do eVTOL, porque envolve a mudança da sustentação vertical para o voo de avanço.
“O primeiro voo de transição parcial é importante na jornada de desenvolvimento da mobilidade aérea”, disse Johann Bordais, CEO da Eve Air Mobility. “O acionamento bem-sucedido da propulsão traseira valida um item essencial do projeto e nos aproxima da entrega de soluções seguras.”
Se a Eve tem por trás a estrutura da Embraer, Buzaid não descarta que futuramente a EHang invista na fabricação de carros voadores no Brasil:
“O País possui indústria aeronáutica reconhecida mundialmente, profissionais altamente qualificados e cadeia de fornecedores competente. É claro que dependerá da evolução do mercado e fará sentido discutir produção ou montagem local quando houver escala suficiente”.
Carros voadores x helicópteros
Um dos questionamentos do mercado é se o eVTOL prejudicará o tráfego de helicópteros no Brasil. De acordo com a Revo, plataforma de mobilidade urbana, as duas aeronaves terão papéis complementares.
“Os carros voadores serão destinados principalmente a deslocamentos de curta distância, enquanto os helicópteros continuarão atendendo trajetos mais longos e destinos fora do perímetro urbano”, disse João Welsh, CEO da Revo
A empresa desembolsou US$ 250 milhões na encomenda de 50 aeronaves da Eve e planeja iniciar as operações comerciais em 2028. “Os eVTOLs vão ampliar as possibilidades de deslocamento e os trajetos curtos terão uma lógica operacional própria.”
Para a operação com eVTOLs a empresa fará trajetos urbanos na região metropolitana de São Paulo, conectando pontos estratégicos como avenidas Paulista e Faria Lima e aeroportos de Congonhas e Guarulhos.
AutoData Mobility perguntou à Anac como está o processo de regulamentação dos eVTOLs no Brasil. Em nota, a agência respondeu que os trâmites regulatórios seguem em andamento.
“Os critérios de aeronavegabilidade foram divulgados pela Anac em 2024. Com a posterior publicação de normas correspondentes pela FAA, Federal Aviation Administration, a agência decidiu revisar o documento com o objetivo de promover maior harmonização com diretrizes internacionais”.


















