São Paulo — O mercado brasileiro de ônibus convive com crédito mais restrito e taxas elevadas, cenário que dificulta a renovação das frotas. Segundo André Vidal Armaganijan, CEO da Marcopolo, o paradoxo do setor está justamente no fato de que os operadores precisam renovar seus veículos mas encontram dificuldades para financiar as compras.
“Os operadores querem renovar as frotas, que estão envelhecidas. Querem implementar novas tecnologias e buscar mais inovação. Mas existe cada vez menos crédito disponível para renovação.”
Apesar da necessidade de renovação Armaganijan não vê uma queda pequena dos juros, com a Selic indo a 14%, como suficiente para destravar o mercado no curto prazo.
Segundo o executivo o problema está na combinação de taxas ainda elevadas com spread bancário. Com isto muitos operadores já consumiram parte de sua capacidade de crédito e encontram dificuldade para assumir novos financiamentos.
“A necessidade de renovação é grande e importante. O segmento quer renovar. Por outro lado o cliente está com crédito tomado e tem dificuldade para renovar neste momento.”
Neste cenário a Marcopolo espera que soluções capazes de reduzir o custo operacional possam ajudar os clientes a justificar novos investimentos, mesmo em um ambiente financeiro mais apertado.
Eficiência ganha peso nas decisões de compra
É assim que o plano de negócios da Marcopolo passa a ir além da venda de ônibus. A companhia pretende ampliar a oferta de tecnologias e serviços que ajudem os operadores a reduzir despesas durante a operação. Neste sentido algumas novidades já chegam na Lat.Bus, de 11 a 13 de agosto.
Assim eficiência de combustível, maior disponibilidade dos veículos, redução do tempo de manutenção e tecnologias de monitoramento ganham importância na decisão de compra.
A lógica é simples: com financiamento mais caro o operador precisa enxergar retorno econômico no investimento. Um ônibus que consome menos combustível, permanece mais tempo em operação e permite antecipar problemas de manutenção, portanto, pode compensar parte do aumento do custo financeiro.
“Cada vez que eu melhorar o consumo e a eficiência de combustível achei um caminho. Toda vez que eu der um produto mais seguro, que pare menos e tenha mais disponibilidade, é um ganho para ele.”
Segundo semestre ainda está em construção
Neste ambiente a Marcopolo trabalha com cautela com relação ao desempenho do segundo semestre. De acordo com o executivo o terceiro trimestre apresenta nível maior de visibilidade enquanto o quarto ainda está em construção.
Além disto o programa Move Brasil deve contribuir para as vendas do terceiro trimestre. Mas não representa volume suficiente para garantir um quarto trimestre forte.
Por isto a companhia não fornece projeção para o fechamento de 2026. Armaganijan afirmou que o cenário continua sujeito à disponibilidade de crédito e ao ritmo de renovação das frotas.
Argentina reduz ritmo, mas operação global dá flexibilidade
No Exterior a Argentina representa um dos principais pontos de atenção. A operação teve desempenho inferior ao registrado no ano anterior. Por isto passou por reestruturação para adequar sua estrutura ao cenário de menor demanda.
Ao mesmo tempo a presença industrial em diferentes mercados permite à Marcopolo ajustar sua produção de acordo com a demanda.
Segundo Armaganijan a empresa pode combinar produção brasileira e argentina e utilizar diferentes formatos de exportação conforme as condições de cada mercado.
Esta flexibilidade também reduz parte dos riscos provocados pelas mudanças nas relações comerciais internacionais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Marcopolo mantém participação em empresas locais e utiliza a produção no México para atender parte da demanda.
Além disto a companhia mantém cadeia de fornecedores bastante concentrada no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul. Por isto o impacto direto das atuais tensões comerciais internacionais ainda é limitado para a operação.
Desta forma a companhia tenta transformar o cenário de crédito restrito em uma agenda mais ampla de eficiência e financiamento.
O desafio, porém, permanece econômico, porque existe demanda potencial para renovar as frotas e o dinheiro disponível para financiar esta renovação ainda não acompanha a necessidade dos operadores.
Enquanto o crédito não destrava a Marcopolo aposta em tecnologia, eficiência e novos produtos para reduzir o custo total da operação e estimular o investimento. E, neste ambiente, a recuperação dos modelos urbanos e rodoviários será fundamental para melhorar o mix e recuperar margens ao longo dos próximos trimestres.





















