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Mercado de ônibus pode fechar 2026 perto de 19 mil unidades, estima Mercedes-Benz

Mercedes-Benz aponta juros altos, queda nos segmentos tradicionais e redução das compras governamentais como principais desafios para o segundo semestre
Walter Barbosa, vp Mercedes-Benz
Fotos: Mercedes-Benz

São Paulo — O mercado brasileiro de ônibus enfrenta um cenário de forte pressão em 2026. Embora as compras governamentais tenham ajudado a sustentar as vendas no primeiro semestre a Mercedes-Benz avalia que a segunda metade do ano pode trazer um ritmo ainda mais fraco.

Segundo Walter Barbosa, vice-presidente de Ônibus da Mercedes-Benz, as compras públicas chegaram a representar aproximadamente metade do volume total registrado até junho: “É uma mudança de comportamento de mercado muito grande”.

O principal destaque fica com o programa Caminho da Escola. Barbosa estima que aproximadamente 4 mil ônibus escolares serão emplacados ao longo do ano e que outros programas governamentais também contribuíram para o resultado.

Entretanto este movimento não deve manter a mesma força nos próximos meses.

Calendário eleitoral reduz compras públicas

A partir de julho o calendário eleitoral limitou a realização de novas compras governamentais. Além disto processos de licitação ainda em andamento precisam passar por etapas de recursos, documentação, homologação e, posteriormente, produção dos veículos.

No caso do novo lote do Caminho da Escola, por exemplo, os vencedores preliminares já foram divulgados. Mas ainda existem etapas até a homologação definitiva. Existe também questionamentos na Justiça.

Por isto Barbosa considera praticamente impossível que os novos lotes produzam impacto significativo nos emplacamentos de 2026.

O executivo estima que a homologação possa ocorrer apenas no fim de setembro. Depois disto os vencedores ainda precisam produzir e apresentar os protótipos antes do início efetivo das entregas. Assim boa parte deste volume deve aparecer somente em 2027.

Urbano, fretamento e rodoviário recuam

Enquanto as compras públicas sustentam o mercado os três principais segmentos comerciais apresentam retração. O urbano registrou queda de aproximadamente 22% no primeiro semestre. Já o fretamento recuou cerca de 25%, e o rodoviário apresentou redução próxima de 35%.

Estes segmentos normalmente formam os principais pilares do mercado de ônibus no Brasil. Por isto a retração simultânea gera pressão significativa sobre os volumes totais: “Se não houver recuperação do urbano, do rodoviário e do fretamento, possivelmente não teremos um segundo semestre melhor do que o primeiro”.

Até junho o mercado acumulava cerca de 10 mil unidades. Caso o ritmo permaneça semelhante, o ano poderia terminar próximo de 20 mil ônibus.

Entretanto, como a segunda metade do ano pode apresentar volume inferior à primeira, a estimativa da Mercedes-Benz aponta para algo próximo de 19 mil unidades.

Juros continuam travando a renovação

Além da retração econômica, a taxa de juros é um dos principais obstáculos para a renovação das frotas. Com a Selic em patamar elevado, o operador enfrenta um custo financeiro maior para adquirir um ônibus novo. Barbosa explica que, quando o custo de captação do dinheiro recebe o spread bancário, a taxa final do financiamento fica ainda mais alta. Como resultado, muitos operadores adiam a renovação da frota.

O problema afeta especialmente segmentos nos quais o empresário precisa financiar o veículo e recuperar o investimento ao longo de vários anos de operação.

Compras públicas ainda priorizam menor preço

Barbosa também aponta uma diferença importante do modelo brasileiro de compras governamentais com o adotado em diversos mercados europeus.

Mercado 2026 de ônibus Mercedes-Benz
Mercado de ônibus entra no segundo semestre sob pressão, com queda nos segmentos urbano, fretamento e rodoviário e juros elevados dificultando a renovação das frotas

No Brasil, o preço tem peso determinante nas licitações. Já em vários países europeus, os governos consideram o custo total de operação, o chamado TCO.

Nesse modelo, o órgão público não avalia apenas quanto paga pelo ônibus. Também considera manutenção, disponibilidade, consumo, atendimento e custos ao longo da vida útil.

Para Barbosa, esse sistema permitiria ao poder público escolher um veículo que eventualmente custe mais na aquisição, mas gere uma despesa menor ao longo dos anos. No Brasil, entretanto, a busca pelo menor preço dificulta a participação de fabricantes que não trabalham com a estratégia de menor custo inicial.

Caminho da Escola também levanta debate sobre renovação

Barbosa também defende uma discussão sobre o ciclo de vida dos ônibus escolares adquiridos por programas governamentais.

Segundo ele, o Caminho da Escola já colocou mais de 60 mil veículos em circulação desde o início do programa, em 2007. Entretanto, depois de três a cinco anos de operação, muitos desses ônibus já acumulam elevada depreciação.

Além disso, a manutenção de veículos pertencentes ao poder público envolve processos burocráticos e licitações, o que pode dificultar intervenções rápidas. Por isso, o executivo considera necessário discutir um programa permanente de renovação.

A Mercedes-Benz entende que o poder público poderia planejar a substituição dos veículos antes que eles alcancem um estágio avançado de desgaste e depreciação.

Por outro lado, a Mercedes-Benz vê oportunidades maiores em segmentos como rodoviários e elétricos, nos quais consegue trabalhar diferentes configurações e níveis de equipamento.

Segundo semestre será decisivo

Seja como for, diante desse cenário, o mercado entra na segunda metade de 2026 com poucas certezas. As compras governamentais perderão força, enquanto urbano, fretamento e rodoviário precisarão apresentar alguma recuperação para compensar essa redução.

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