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GWM aposta em múltiplas rotas para emplacar o hidrogênio no transporte pesado

Programação da GWM combina caminhões novos, retrofit e células a combustível com produção regional de hidrogênio a partir de diferentes fontes de energia
GWM hidrogênio em pesados
Fotos: GWM

São Paulo — Para a GWM Hydrogen transformar o hidrogênio em uma alternativa real para a descarbonização do transporte pesado no Brasil não será aposta em uma única tecnologia de produção do combustível. O foco é investir em diferentes rotas, que podem aproveitar as características energéticas de cada região.

Esta ideia acompanha a expansão da empresa em veículos comerciais. Além de oferecer caminhões novos com célula a combustível a GWM desenvolve projetos de retrofit de modelos a diesel e também fornece células a combustível, tanques de alta pressão e outros componentes do sistema de hidrogênio.

Segundo Davi Lopes, chefe da GWM Hydrogen, o objetivo é construir um ecossistema no qual produção, armazenamento, abastecimento e aplicação caminhem juntos.

Caminhão novo e retrofit ampliam as portas de entrada

Neste sentido a GWM já trabalha no Brasil com caminhões a hidrogênio em diferentes configurações. A empresa trouxe inicialmente um modelo 6×4 de 49 toneladas utilizado na China para demonstrar a tecnologia. A partir dele começou a adaptar o produto às necessidades brasileiras.

Além disto avalia aplicações de 11 toneladas a 18 toneladas de PBT, conforme o perfil da operação.

No caminhão atualmente utilizado como plataforma de demonstração a configuração trabalha com até 40 kg de hidrogênio a 350 bar e autonomia próxima de 500 quilômetros. Com sistemas de maior pressão a empresa estima que a autonomia possa chegar a aproximadamente de 800 a 900 quilômetros.

Entretanto a GWM não pretende depender apenas da venda de caminhões novos. A empresa também desenvolve um projeto de retrofit para transformar caminhões a diesel em veículos elétricos com célula a combustível. Neste caso motor e transmissão deixam o veículo e entram motores elétricos, bateria auxiliar, célula a combustível e tanques de hidrogênio.

Segundo Lopes, dependendo do caminhão e do projeto, o retrofit pode representar redução de 60% a 70% no investimento em comparação com um caminhão novo a hidrogênio. O primeiro projeto em desenvolvimento prevê quatro caminhões para uma operação ligada à mineração. A partir destes testes a GWM pretende avaliar a expansão da solução.

O hidrogênio pode nascer de diferentes fontes

É justamente na produção que a empresa identifica uma das principais oportunidades brasileiras. O hidrogênio não constitui uma fonte primária de energia. Ele funciona como um vetor energético e pode resultar de diferentes processos.

A eletrólise da água, por exemplo, utiliza eletricidade para separar hidrogênio e oxigênio. Quando esta eletricidade vem de fontes renováveis, como solar, eólica ou hidrelétrica, o processo produz hidrogênio de baixa emissão de carbono. O Brasil, porém, conta com outras alternativas.

O País conta com grande disponibilidade de biomassa, etanol e biometano. Assim a produção de hidrogênio pode aproveitar diferentes matérias-primas e fontes energéticas de acordo com a vocação de cada região.

Esta diversidade não significa que todas as rotas terão o mesmo custo ou a mesma aplicação. Na prática a vantagem é, justamente, poder escolher a alternativa mais adequada para cada operação.

Produção próxima do consumo pode reduzir custos

Para a GWM o desenvolvimento do mercado brasileiro não passa necessariamente pela criação imediata de uma grande rede nacional de postos de hidrogênio. Em vez disto a empresa trabalha com a possibilidade de criar estruturas de produção e abastecimento próximas dos locais de consumo.

Uma usina de etanol, por exemplo, pode produzir hidrogênio próximo de uma frota de caminhões. Da mesma forma uma garagem de ônibus pode produzir e armazenar o combustível para abastecer seus próprios veículos.

Neste modelo o hidrogênio deixa de depender de longos deslocamentos do local de produção ao consumidor final. Além disto este modelo permite aproveitar a matriz energética de cada região.

No Sul, por exemplo, a disponibilidade de energia eólica e biomassa pode abrir diferentes possibilidades. Já no Centro-oeste a força do agronegócio amplia o potencial de utilização de resíduos e biocombustíveis. No Nordeste a geração solar e eólica cria outras alternativas para a produção de hidrogênio.

O objetivo, portanto, não é encontrar uma única fórmula para produzir hidrogênio no Brasil mas desenvolver uma cadeia flexível, capaz de utilizar diferentes fontes conforme a localização e a demanda.

Ônibus e frotas cativas podem acelerar a infraestrutura

Neste cenário aplicações com rotas previsíveis ganham importância. Os ônibus urbanos aparecem como uma possibilidade porque concentram o abastecimento em garagens. Em vez de uma rede pública extensa a operação pode instalar uma estrutura própria de produção, armazenamento e abastecimento.

O mesmo vale para caminhões que trabalham em mineração, agronegócio, logística industrial e outras operações com rotas definidas. A lógica permite começar com pequenos ecossistemas e ampliar a infraestrutura conforme cresce a frota.

Além disto a célula a combustível pode operar fora do veículo. A GWM também trabalha com aplicações estacionárias, nas quais o sistema transforma hidrogênio em eletricidade para backup de energia, data centers e outras instalações. Assim a mesma tecnologia pode atender mobilidade e geração de energia.

Escala será decisiva para reduzir o custo

Hoje o caminhão a hidrogênio ainda carrega um custo tecnológico superior ao de alternativas convencionais. Segundo Lopes o veículo pode custar cerca de 15% a 20% mais do que um caminhão elétrico a bateria equivalente, dependendo da configuração.

A célula a combustível representa uma parcela importante deste custo. No entanto a empresa aposta que a expansão da cadeia pode mudar a equação.

Mais veículos significam maior escala de produção. Mais escala reduz custos dos componentes. Ao mesmo tempo a produção regional de hidrogênio pode diminuir despesas relacionadas ao transporte e à logística do combustível.

Por isto a estratégia da GWM não depende apenas de tornar a célula a combustível mais barata. A empresa também precisa criar uma cadeia na qual produção, armazenamento, abastecimento e consumo aconteçam de maneira integrada.

GWM quer construir o ecossistema antes de ganhar escala

O plano coloca a GWM em posição diferente de uma fabricante que simplesmente importa um caminhão a hidrogênio e espera pela infraestrutura.

A empresa quer participar de diferentes etapas da cadeia. Ou seja: desde a célula a combustível e os tanques de alta pressão até o veículo e as soluções estacionárias. No Brasil esta abordagem ganha relevância justamente pela diversidade da matriz energética.

O País não precisa escolher por eletrólise, biomassa, etanol, biometano ou outras fontes. Pode desenvolver diferentes rotas e utilizar cada uma conforme a disponibilidade de energia, a localização e o perfil da demanda.

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