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21/02/2017

Quando a esmola é muita, lá vem chumbo grosso

Por S Stéfani

- 21/02/2017

Numa época como a atual de tantas e tão frequentes mudanças de cenários nas áreas da economia e da política, até antigos ensinamentos populares merecem ganhar nova leitura, algo mais agudo. É o caso do tradicional “quando a esmola é muita, o santo deve desconfiar”. Nesses novos tempos, mais do que desconfiar, o santo precisa mesmo é se precaver pois muito chumbo grosso pode estar vindo pela frente.

Esta é uma dura realidade com a qual as montadoras de caminhões estão aprendendo a lidar. E a duras penas. Depois de um bom período no início da década de esmolas fartas e generosas – juros negativos, financiamentos do valor total dos bens, economia em crescimento e, de quebra, compras governamentais a mão cheia – o santo vem se deparando com uma fase de chumbo grosso que ninguém no setor consegue prever exatamente nem o tamanho exato e nem a duração.

Os números do ano passado mostram bom retrato da situação. Depois de ter amargado queda na faixa de 40% em 2015, as montadoras entraram no ano passado acreditando que o pior já havia passado.

Em 2016, de fato, conforme mostra matéria do repórter Bruno de Oliveira publicada na Agencia AutoData, edição de 11 de fevereiro, o trafego de caminhões nas estradas brasileira caiu 5,3% na comparação com o ano anterior. Praticamente em linha, portanto, com a queda do PIB, que ficou em 3,5%.

As vendas domésticas de caminhões, todavia, considerados os mesmos períodos, caiu mais de 30%. E pelo segundo ano consecutivo. Em total desalinho, assim, com todos os demais índices econômicos registrados. Todos negativos, é certo. Mas em padrões no mínimo bem mais assimiláveis.

Sem que o santo desconfiasse e muito menos tivesse o cuidado de se precaver em relação ao que vinha pela frente, as mesmas esmolas que haviam motivado aumento da capacidade de produção de todas as montadoras acabaram desembocando, agora, três anos depois, numa ociosidade da ordem de 70%. Vale repetir: 70%.

A lição devidamente aprendida pelo santo: esmola, quando é muita, não gera aumento do mercado, mas, sim, e até principalmente, antecipação da demanda futura. Gera, sem dúvida, de imediato, dia bem ensolarado. Mas que, todavia, apresenta no horizonte amontado de nuvens negras, por vezes bem negras.

Todos sabem, agora, o quanto era falso o recorde de 180 mil unidades vendidas registrado nos primeiros anos desta década. Parte dele decorreu da politica econômica anticíclica adota pelo governo anterior e que resultou em grandes compras governamentais, tanto de caminhões quanto de ônibus, tudo para manter as vendas, a produção e o emprego em alta.

Caminhões e ônibus foram fartamente distribuídos pelo governo federal para prefeituras de pequenas cidades de todo o país dentro de generosos programas de apoio a obras de infraestrutura básica e transporte de escolares. Prefeituras que, por sua própria conta e risco, não teriam – como continuam não tendo – condições de adquirir nem uma mera bicicleta.

De outro lado, acionados ao mesmo tempo e com a mesma finalidade, programas da Finame com juros negativos e financiamento do valor total do bem tornaram extremante vantajosa a antecipação dos programas de renovação de frota por parte das transportadoras.

Era irresistível a possibilidade de vender o caminhão usado, aplicar o resultado da venda no mercado financeiro e, de quebra, ainda colocar no pátio bom número de veículos zero quilômetro, na garantia.

Resultado prático: é de conhecimento geral que, hoje, fruto da combinação de tais antecipações de compra com dois anos seguidos de PIB negativo, não são poucos os caminhões comprados naquela fase que permanecem parados, ainda sem uso, no pátio de muitas transportadoras. Quantos? Ninguém sabe exatamente.

Mais uma lição para o santo: esmola quando é muita desvirtua a realidade e, nos casos mais graves, pode, como agora, tornar praticamente impossível projetar qual seria, afinal, a consistência do solo no qual se passa a pisar dali para a frente.

No caso especifico do setor de caminhões, o cenário macro deste inicio de ano – inflação declinante, juros em queda, projeção de PIB positivo e safra recorde pela frente – deveria ser razão mais que suficiente para as montadoras estarem promovendo grandes festas e soltando rojões.

E, de fato, praticamente todas as montadoras abriram 2017 apostando em crescimento. Algo próximo de 10%, pelo menos. Mas, conforme mostra matéria da repórter Aline Feltrin publicada na edição da Agencia AutoData de 4 de fevereiro, as 2 mil 490 unidades emplacadas em janeiro ficaram 32,3% abaixo das registradas no primeiro mês de ano passado e 27,8% aquém das realizadas na margem, em dezembro.

Foi um janeiro, sem dúvida, capaz de abalar o bom humor de qualquer santo. Mas que, ao menos até agora, parece não ter abalado o ímpeto das montadoras instaladas no País: matéria da editora Ana Paula Machado publicada na edição de 15 de fevereiro da Agencia AutoData, constata que as quatro principais montadoras de caminhões – Mbb, Man, Volvo e Scania – anunciaram nos últimos meses investimentos ainda nesta década que, somados, chegam a R$ 6 bilhões.

Os recursos destinam-se basicamente a modernização das fábricas, bem como ao desenvolvimento e lançamentos de novos produtos, sem os quais não haveria como defender a tão duramente conquistada participação no mercado.
Assim funciona o setor automotivo. Por mais ressabiado que esteja o santo.


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