São Paulo — Picape de trabalho costuma seguir uma receita conhecida. Ou seja, motor forte, capacidade de carga, resistência e o mínimo necessário a bordo. Mas a Ford Ranger XL Cabine Simples foi concebida de forma diferente. Embora tenha sido desenvolvida para enfrentar a rotina profissional não abre mão de características que normalmente aparecem nas versões mais sofisticadas.
Foi esta a impressão depois de aproximadamente 20 quilômetros ao volante, em um percurso do prédio da Ford, na Vila Olímpia, ao Senai Ipiranga, em São Paulo. O trajeto, totalmente urbano e de tráfego pesado, não permitiu explorar a vocação fora de estrada da picape. Mas foi suficiente para revelar como ela se comporta quando o trabalho acontece no asfalto.
E há uma surpresa logo nos primeiros quilômetros. A Ranger XL é mais agradável de dirigir do que a aparência de ferramenta de trabalho sugere.
Motor que responde rápido
O propulsor Panther 2.0 turbodiesel gera 170 cv a 3,5 mil rpm e 41,3 kgfm de torque a 1 mil 750 rpm. Na prática os números fazem sentido.
O motor responde rapidamente às solicitações do acelerador e movimenta os quase 2 mil quilos da picape com desenvoltura. Não há aquela sensação de que o conjunto precisa de alguns segundos para acordar quando o motorista pisa mais fundo.
Além disto o torque aparece relativamente cedo e ajuda nas retomadas, especialmente quando surge a necessidade de ganhar velocidade de um semáforo a outro ou de fazer uma mudança de faixa em uma avenida movimentada.
A Ranger XL também mostra que potência não é o único ingrediente para produzir agilidade. O escalonamento do câmbio manual de seis marchas contribui bastante para isto.

Câmbio manual sem esforço
Em tempos de transmissões automáticas cada vez mais comuns o câmbio manual da Ranger poderia parecer uma escolha puramente racional. Não é.
As seis marchas têm engates leves e rápidos, e a alavanca não exige movimentos exagerados. Assim, mesmo no trânsito pesado de São Paulo, trocar de marcha não se torna tarefa cansativa.
Outro recurso que ajuda bastante no uso urbano é o assistente de partida em rampa. Basta imaginar uma parada em uma subida: o sistema evita que a picape recue enquanto o motorista tira o pé do freio e começa a acelerar. A Ranger XL também traz controle de estabilidade e tração e controle automático em descida.
São equipamentos que fazem diferença justamente porque trabalham nos bastidores. O motorista não precisa pensar neles o tempo todo mas percebe a tranquilidade adicional que proporcionam.
Direção que esconde o tamanho do utilitário
Outro ponto que merece destaque é a direção elétrica. Em uma picape com 5m37 de comprimento e 1m88 de altura seria razoável esperar um volante mais pesado e uma condução menos amigável. Entretanto a Ranger contraria essa expectativa.
O volante tem assistência suficiente para tornar manobras e mudanças de trajetória mais fáceis. No trânsito urbano isto ajuda bastante. E a posição elevada do motorista completa a sensação de controle.
A ampla área envidraçada também contribui. Dentro da cabine o motorista enxerga melhor o entorno e consegue antecipar movimentos de carros, motos e pedestres. Em uma cidade como São Paulo esta vantagem vale quase tanto quanto qualquer equipamento eletrônico.

Uma cabine simples que não parece tão simples
É aqui que a Ranger XL começa a se afastar da imagem tradicional de picape de trabalho. A cabine tem painel digital de 8 polegadas e central multimídia SYNC 4 com tela de 10 polegadas, além de conexão sem fio com Android Auto e Apple CarPlay.
Ou seja: mesmo quem compra a Ranger para trabalhar passa a ter diante dos olhos uma interface que remete às versões mais topo de linha. O conjunto ainda inclui modem embarcado com atualizações Over-the-Air, piloto automático e limitador de velocidade.
É uma combinação interessante porque preserva a essência de uma ferramenta profissional mas reduz aquela sensação de que o motorista precisa abrir mão de conforto e conectividade para ter capacidade de carga.
Na caçamba leva 1,2 tonelada
A vocação profissional aparece mesmo quando se olha para trás. A caçamba tem 2m24 de comprimento e 1m42 de largura, com volume declarado de 1 mil 690 litros. Na configuração manual a capacidade de carga chega a 1 mil 223 kg. São números que justificam melhor o propósito da Ranger XL.
Além disto a caçamba oferece múltiplas possibilidades de amarração, algo especialmente importante para quem transporta equipamentos, ferramentas ou materiais que precisam permanecer firmes durante o deslocamento.
E aqui aparece outra característica interessante. Apesar de a Ranger XL ser uma picape de cabine simples seu projeto não transmite improviso. Tudo parece pensado para quem efetivamente vai colocar a picape para trabalhar.
Segurança que não ficou pelo caminho
Por isto chama atenção o fato de a Ranger XL trazer sete airbags, além dos controles de estabilidade e tração e dos assistentes eletrônicos de condução.

Para uma picape que pode operar em circunstâncias profissionais, inclusive em ambientes mais severos, este pacote representa uma camada importante de proteção.
A própria configuração mecânica reforça esta proposta. A Ranger XL tem tração 4×4 com modos 2H, 4H e 4L, diferencial traseiro com bloqueio eletrônico e pneus 255/70 R16 de uso todo-terreno.
Durante meu percurso, porém, não houve necessidade de ir além do 2H. Em outras palavras os cerca de 20 quilômetros foram feitos com a picape operando no modo de tração traseira, suficiente para o asfalto seco e o trânsito urbano daquele dia.
É justamente aí que a Ranger mostra uma de suas qualidades. Ela consegue circular pela cidade sem parecer deslocada, mas mantém recursos suficientes para, quando necessário, deixar o asfalto para trás.
O veredicto
A Ranger XL Cabine Simples não tenta esconder sua finalidade. Ela é uma ferramenta de trabalho. Só que a Ford entendeu que, atualmente, isto não significa entregar uma picape despojada de tudo.
O motor 2.0 turbodiesel de 170 cv tem força para o uso cotidiano, o câmbio manual agrada pela leveza, a direção elétrica reduz o esforço ao volante e a posição elevada melhora a percepção do trânsito.
Além disto a central SYNC 4, o painel digital e os recursos de conectividade dão à cabine um nível de modernidade que combina pouco com a ideia antiga de picape básica.
E talvez esta seja a melhor definição para a Ranger XL. Ela é simples onde precisa ser simples mas não abre mão do que realmente melhora a vida de quem passa muitas horas atrás do volante.























