As negociações envolvendo a venda da divisão brasileira da Affinia, fabricante de autopeças com atuação exclusiva no mercado de reposição, foram protagonizadas por um dos mais tradicionais grupos empresariais do setor automotivo brasileiro, o Comolatti. A companhia adquiriu 100% das ações da Pellegrino, uma das principais distribuidoras de autopeças nacionais, e ficou com 20% da operação industrial com fábricas em Diadema e Osasco, no Estado de São Paulo.
Dono das distribuidoras Sama, Laguna, Matrix, da rede Pit Stop e de concessionárias MAN e Iveco, dentre outras operações, o Grupo Comolatti foi fundado há 57 anos e desde 1994 é presidido por Sergio Comolatti, que comanda mais de 4 mil funcionários. O empresário considera a compra da Pellegrino, uma rede voltada à reposição com mais de setenta anos de existência, um marco para a sua empresa.
Não foi, porém, uma negociação simples – e esta ainda depende da aprovação do Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Ela já chama a atenção por ocorrer em um momento em que o mercado está retraído, com perspectivas econômicas pouco animadoras, mas havia outro componente que dificultava a transação, segundo contou Sergio Comolatti à Agência AutoData.
Para entender a história no contexto completo é preciso voltar a 2004, quando as operações de reposição da Dana foram adquiridas pelo fundo estadunidense Cypress Group – ação que deu origem à Affinia. Além das marcas Nakata, Spicer e Wix, fazia parte do portfólio a Pellegrino, distribuidora que atualmente possui 22 lojas espalhadas pelo país.
Anos mais tarde o fundo de investimentos colocou a toda operação à venda, prática comum nesse tipo de negócio: compra de empresas, valorização de ativos e depois revenda. Mas, segundo Comolatti, não era possível adquirir os negócios em separado.
“Nosso interesse era no negócio comercial da Affinia. Trata-se de uma empresa bem administrada, com equipe qualificada e um bom resultado. Mas o fundo só vendia o pacote completo: se quiséssemos uma, precisaríamos comprar as duas. Buscamos então uma solução.”
Temendo uma investida estrangeira que acirraria a competição no mercado brasileiro de distribuição de peças, Comolatti buscou apoio na própria concorrência para fechar o negócio. A operação industrial da Affinia acabou adquirida por seis sócios, que formaram a Autopartners Participações: a DASA – Distribuidora Automotiva SA, do próprio Grupo Comolatti – a Auto Norte Distribuidora de Peças, a Cobra Rolamento e Autopeças, a Sedim Administração e Participações e duas pessoas físicas, Jorge Schertel e Pedro Molina Quaresma.
Schertel é justamente o presidente da Affinia, mantido no cargo após a transação. Quaresma é diretor da Car Central, que faz parte do Grupo Comolatti.
Em outras palavras, a Affinia foi comprada por seus principais clientes. O negócio, de acordo com o SEC, espécie de Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, exigiu desembolso de R$ 215 milhões pela Pellegrino, via Grupo Comolatti, e mais R$ 146,3 milhões pela Affinia Automotiva, valor dividido pelos sócios. As operações da Argentina e do Uruguai ficaram de fora da transação, assim como as outras divisões internacionais.
Comolatti garantiu a independência da Affinia Automotiva em seus negócios: “Ficou acertado que não haverá ingerência dos acionistas. A empresa tem uma governança muito boa”.
O empresário, porém, evita comentários sobre o futuro da Pellegrino, que faturou R$ 800 milhões no ano passado – ainda que igualmente assegure sua autonomia. “Primeiro precisamos da aprovação do Cade. No primeiro momento nossa intenção era evitar que grupos estrangeiros entrassem no segmento: seria complicado para o setor”.
A espera pela aprovação do Cade foi a razão para que Jorge Schertel, presidente da Affinia Automotiva, não atendesse pedido da reportagem.
As fábricas de Diadema e Osasco seguem produzindo o portfólio de peças Nakata, Spicer e Wix. Na quinta-feira, 25, a companhia divulgou o lançamento de nova linha de bomba d’água para modelos Hyundai e Kia.
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