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13/02/2017

Duas no cravo e duas na ferradura

Por S Stéfani

- 13/02/2017

Que o Brasil não é para principiantes, isto todo mundo já sabe e há muito tempo. Mas mesmo para empresários e executivos que gostam de emoções fortes, este início de 2017 está sendo um pouco demais.

A cada dia são pelo menos duas no cravo e outras duas na ferradura. Indicadores positivos e negativos se cruzam e se entrelaçam continuamente, o que torna muito difícil, quase impossível, projetar e programar não apenas o médio e longo prazos, mas, também e, principalmente, até o amanhã, a próxima semana, o mês seguinte.

Há certo consenso de que, de forma geral, a vida econômica do País parou de piorar. Mas ainda não há como se saber com maior dose de certeza se isto já pode ser considerado válido para todos os setores. E muito menos em qual momento do ano cada curva setorial específica começará, enfim, a embicar para cima.

A área econômica do governo federal trabalha com a projeção de que, considerado o período como um todo, o PIB fortemente negativo dos dois últimos anos será substituído, enfim, neste 2017, por um número positivo. Algo em torno de 1%. Talvez um pouquinho a mais ou, na pior das hipóteses, ligeiramente a menos.

No entanto, sempre que tal projeção é colocada na mesa ela vem acompanhada da ressalva de que a retomada se dará de forma gradativa e poderá apresentar algumas flutuações ao longo do período. Como compensação, no quarto final do ano o PIB já navegaria na faixa de 2% de crescimento.

Haja unhas, portanto, para serem roídas neste primeiro semestre. Como, aliás, muito bem constatou o setor automotivo logo no primeiro mês do ano: em janeiro, na comparação com o mesmo período do ano passado, o setor aumentou a produção em 17,1% para atender a… a… a… uma queda de vendas domésticas de 5,2%. Os dados são oficiais e foram computados pela Anfavea e pela Fenabrave.

Resultado prático: fevereiro abriu com a várias das principais montadoras de automóveis – General Motors, Volkswagen e Ford – anunciando férias coletivas e até retomada de PDVs.

Sempre caberá aqui, é claro, uma dúvida legitimamente tostiniana: a produção cresceu em janeiro por que as montadoras já haviam programado férias coletivas ou, por outro lado, as férias coletivas é que decorreram de a produção ter subido, no primeiro mês do ano, bem mais do que a prudência recomendaria?

Pelo menos dois fatores parecem indicar que a segunda hipótese, a do erro de projeção e de planejamento, pode estar mais perto da verdade.

Antes de tudo, sempre é bom lembrar que em épocas nas quais todas as montadoras estão operando com larga capacidade ociosa, ninguém quer perder participação no mercado pelo engano primário de ter sido conservador demais num momento de retomada do mercado.

E tanto o quadro macroeconômico geral quando o mercado em si abriram o ano, de fato, com diversas sinalizações positivas.

Para apontar apenas alguns elementos, a inflação de janeiro foi a menor para um primeiro mês do ano em mais de vinte anos, o que animou o Banco Central a aumentar o ritmo de redução da Selic, a taxa básica de juros da economia e fundamento básico para a retomada do crescimento.

Na frente específica do mercado, de seu lado, os dados referentes às vendas domésticas nos quinze primeiros dias do mês indicavam que pareciam grandes as possibilidades de que os números de janeiro deste ano registrassem no mínimo empate técnico em relação ao primeiro mês do ano passado – um grande alento em se tratando de um setor, como o automotivo, no qual nos últimos vinte quatro meses, pelo menos, o resultado de cada mês sempre apanhou, e de lavada, dos números anotados no mesmo período do ano anterior.

Havia, assim, uma difícil escolha a ser feita. Onde estaria a verdade? Na ferradura do resultado positivo de vendas da primeira quinzena, da inflação em queda e dos juros declinantes? Ou no cravo dos 13 milhões de desempregados, da insegurança generalizada em relação ao futuro, das famílias ainda muito endividadas e, de quebra, com um complicado quadro político tornado ainda mais imprevisível a cada nova delação premiada no âmbito da operação Lava Jato?

Numa época como a atual de intensa troca de posições no ranking do setor, o butim para quem tivesse a coragem de arriscar era, de fato, compensador: preciosos pontos de participação de mercado, quiçá uma melhora de posicionamento na escada setorial.

Desta vez, infelizmente, não funcionou. A segunda quinzena não apenas frustrou as expectativas para janeiro como, principalmente, levantou uma dúvida cruel: será que mesmo depois de dois anos seguidos de quedas nas vendas que reduziram o setor praticamente pela metade, o fundo do poço automotivo, em particular, e do Brasil como um todo ainda não foi alcançado?

O que afinal se pode esperar dos meses a frente? E, mais importante, como projetar e programa a produção e as vendas de fevereiro, março e abril?

Na dúvida, o melhor a se fazer talvez seja seguir o que o jornalista Celso Ming escreveu em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo, na edição de sexta-feira, 3 de fevereiro, ao definir o atual momento da economia brasileira: “O amanhecer nunca chega de repente. A escuridão continua, mas o canto do sabiá na varanda já vara a madrugada, o burburinho vai crescendo nas ruas e quem acordar cedo pode vislumbrar o roseado que se forma pelos lados do nascente”.

E que cante o sabiá. Muito e forte. E, de preferência, com a urgência que se faz cada vez mais necessária.


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