Fabricante de capotas, estribos e engates ampliou faturamento em 170% em seis anos, na onda do crescimento do mercado de picapes
São Paulo – A recessão econômica do biênio 2015/2016 acertou em cheio a operação da Keko Acessórios, empresa que iniciou a operação em 1986 em Flores da Cunha, RS. Mas o pedido de recuperação judicial, que já era aventado desde aquela época, só foi protocolado três anos mais tarde, em setembro de 2018, quando as dívidas alcançavam R$ 75,5 milhões.
Corta para dezembro de 2024. Como poucas empresas que conseguem sobreviver ao período de organização das dívidas e renascimento do negócio a Keko, fundada por Henri Mantovani e que tem como CEO seu filho, Leandro Scheer Mantovani, mirou no mercado de personalização de acessórios para picapes e SUVs, pagou fornecedores, manteve montadoras como suas clientes, expandiu a operação e, seis anos depois, regenerou-se.
No ano passado a Keko Acessórios faturou R$ 350 milhões, avanço de 25% em comparação a 2023. A cifra demonstra também que a empresa dobrou de tamanho frente a 2021, quando iniciou trajetória ascendente. E, em comparação a 2018, quando a receita era de R$ 130 milhões, houve expansão de 170%.
Em entrevista à Agência AutoData Leandro Scheer Mantovani relembrou que a dívida da fabricante de capotas, estribos e engates, dentre outros, tem origem no investimento realizado de forma financiada pela empresa em 2009 para inaugurar a atual fábrica da Keko na Serra Gaúcha.
“Em 2015, em meio à crise, os bancos recolheram o capital de giro e estrangulou o nosso caixa. Suportamos por três anos, mas em 2018 começamos a ter paradas de produção por falta de matéria-prima. Após tentativas frustradas de negociações coletivas com o suporte de consultorias optamos pela recuperação judicial.”
A taxa Selic, que balizava o crédito, praticamente dobrou e fez com que o endividamento tivesse um salto e o custo da dívida se tornasse superior ao que o caixa era capaz de gerar. Naquele mesmo ano, em 2018, também houve a saída do fundo de investimentos CRP Participações, que havia adquirido fatia da companhia em 2007.
A gota d’água, porém, foi o cancelamento de projeto de uma fabricante, cujo nome o CEO prefere não falar, que causou uma redução em sua receita de R$ 20 milhões. “Mesmo assim nunca deixamos de atender as montadoras. Costuramos de forma muito forte a atenção a elas, que são nossas principais clientes”, afirmou Mantovani, ao contar que hoje seguem fornecendo a Ford, Volkswagen, Toyota, Chevrolet, Fiat, Jeep, Mitsubishi, Renault, Nissan, Honda, Mercedes-Benz e Hyundai.
Este conglomerado de marcas deverá prover à empresa 62% de seu faturamento em 2025, sendo 31% de OEM e 31% de peças e acessórios comercializados pelas montadoras nas concessionárias. Do restante, 13% virá do aftermarket, sendo um quarto dos produtos de marca própria, e 25% das exportações.
A fatia dos embarques, inclusive, que historicamente, desde o início dos anos 2000, girava de 16% a 20%, agora será ampliada, aproveitando o dólar na casa dos R$ 6 e a trajetória ascendente do mercado argentino.
Plano é ampliar a produção de 1,5 mil produtos prontos por dia para 1,7 mil este ano e, a partir de 2026, para mais de 2 mil. Foto: Divulgação.
“Durante os anos de recuperação judicial da porta para fora nada mudou, mas, da porta para dentro muita coisa foi alterada. Instalamos uma sala de crise, que foi o nosso grande maestro na superação. Lá todas as manhãs eu me juntava às equipes do financeiro e de suprimentos para garantirmos o dia e solucionar questões de curto prazo, principalmente.”
Passo substancial foi horizontalizar a gestão. Mantovani passou a lidar diretamente com a base, gerentes e supervisores, a fim de prover celeridade nas decisões. Foram enxugados projetos, reduzidos custos, refeitos mercados. O número de funcionários, porém, manteve-se. “No dia em que anunciamos a recuperação judicial levamos grupos de trinta para explicar o cenário e abrir para perguntas e respostas. Alguns, por medo, saíram, mas a maioria permaneceu. Hoje, inclusive, temos efetivo de 475 pessoas.”
O CEO reforçou que desde que entrou em dificuldades a Keko sempre foi muito transparente com as montadoras, o que não resultou na rescisão de contratos, mas no ingresso na chamada área de risco. Por isto era necessária prestação de contas por trimestre e semestre e todos os planos apresentados eram cumpridos.
Os anos de participação do fundo de investimento renderam à empresa a experiência de trabalhar com governança e compliance. Desde 2007 a Keko é auditada. Tanto que o plano de recuperação judicial foi aprovado em 2022 e a companhia ficou por dois anos com acompanhamento, quando pode solicitar a saída definitiva da situação, com a dívida negociada.
Investimento de R$ 30 milhões ampliará e modernizará a produção
O desempenho estimulou a investimento de R$ 30 milhões em 2024 e 2025, alocados na ampliação da estrutura fabril, que ganhará 3,5 mil m2 de área construída, totalizando 28,5 mil m2. Trata-se da primeira ampliação desde a inauguração da fábrica.
Estão sendo adquiridos novos equipamentos e tecnologias, como laser tubo, laser chapa, prensa, dobradoras e centro de usinagem. E, para suportar o crescimento, a empresa está com vagas abertas: a ideia é ampliar o efetivo de 475 para 530 profissionais ainda este ano.
De acordo com o CEO o plano é ampliar a capacidade de produção de 1,5 mil produtos prontos por dia — por exemplo, um par de estribos inclui dois deles mais o suporte — para 1,6 mil a 1,7 mil este ano. A partir de 2026 deverá passar de 2 mil – totalidade que era programada para a unidade desde que ela foi criada, cujo alcance foi postergado por causa da recuperação judicial.
Mantovani apontou também que antes eram feitos produtos de menor valor agregado, equação que agora se inverteu. Ele exemplificou, comparando a capota de lona, cuja produção chega a seiscentas unidades por dia, frente à capota rígida, com sessenta unidades. “Mas o produto é muito complexo e, não à toa, vale dez vezes mais que o de lona. Tem motor, componente eletrônico, então o valor agregado é muito superior.”
Fábrica ganhará 3,5 mil m2 para 28,5 mil m2 na primeira ampliação desde que foi inaugurada. Foto: Divulgação.
O que não mudou nestes seis anos?
Apesar da crise Mantovani foi explícito com relação a não deixar a inovação de lado nem abriu mão de ampliar seu portfólio. Tanto que no próprio ano do pedido de recuperação judicial a Keko adquiriu uma startup chamada Allt, a fim de criar um mercado no Brasil que ainda não tinha sido explorado, o de transformar a carroceria da picape em um porta-malas com as capotas rígidas, tanto no modo manual como no elétrico.
E a este se seguiram lançamentos de modelos de estribos, inclusive elétricos, e foi ampliado o portfólio de capotas de lona. “Nós qualificamos nosso mix de produtos e, de 2023 a 2024, houve muitas novidades de picapes e SUVs, e a Keko participou da maioria delas. Fornecemos para Rampage, RAM, Titano, F-150, F-250 e Toro, dentre outras. O mercado esteve bastante dinâmico e surfamos esta onda.”
As picapes representam atualmente em torno de 80% dos negócios da Keko, segundo o executivo. Para o faturamento a projeção é ampliar em 8% este ano, para R$ 360 milhões, uma vez que o mercado está estabilizando e deverá crescer nesta mesma proporção, de 5% a 8%. Para os próximos anos, a expectativa é que os ganhos de receita se mantenham na casa dos 10%.
“Gato escaldado tem medo de água quente. Agora somos mais conservadores em nossas projeções. Temos uma empresa saudável, rentável e não abriremos mão da saúde financeira e do equilíbrio nosso negócio. Estamos investindo para readequar nossa fábrica para em 2026 com a produção preparada para novos crescimentos. E para transformá-la em uma empresa mais competitiva.”