Itupeva, SP – Os números apresentados por Herlander Zola, presidente da Stellantis América do Sul, comprovam que a companhia tem, ao menos por ora, demonstrado resiliência frente ao avanço dos veículos chineses no mercado brasileiro. Suas marcas ganharam participação no Brasil e encerraram 2025 com recorde de vendas na América do Sul, superando pela primeira vez a barreira de 1 milhão de unidades. É quase um quarto de tudo o que foi vendido nos países da região. No Brasil e na Argentina a participação das marcas chega a cerca de um terço dos mercados.
Esta escala alcançada pela companhia regionalmente, seu parque industrial e seu volume de produção, porém, estão conseguindo apenas combater por ora a invasão chinesa, segundo a avaliação do presidente da Stellantis. Questionado se todos estes ingredientes são suficientes para isto ele respondeu categoricamente:
“Não. Não é suficiente. Precisamos evoluir sempre, é algo claro. Hoje, no momento atual, conseguimos garantir um bom nível de competição e defesa de nossa participação de mercado no Brasil e na Argentina. Para os outros mercados da América do Sul, não”.
Uma das razões, em sua avaliação, é a falta de convergência regulatória nos mercados. O custo de desenvolvimento cresce para que os modelos atendam às diferentes regulamentações de países da região, especialmente para conseguir adequar as tecnologias à realidade destes mercados. Por isto o foco está no Brasil e Argentina que, juntos, representam mais de 50% das vendas.
Os chineses, com sua larga escala e capacidade de atender a demandas de exportação, por haver muito mais produção do que vendas internas, apesar do seu grande mercado doméstico, são mais competitivos e conseguem trazer seus veículos com preços baixos, possibilidade de oferecer mais tecnologia E não encontram barreiras nos países sul-americanos.
“Mercados mais maduros já perceberam e criaram barreiras para tentar se defender e privilegiar a indústria nacional. Esperamos que, aqui, o mesmo seja feito em breve”.
Barreiras brasileiras são insuficientes no longo prazo
No meio do ano o imposto de importação de eletrificados sobe a 35%. O mesmo ocorre com os impostos de importação para kits CKD e SKD. Para Zola ainda é insuficiente:
“Se os chineses de fato não localizarem boa parte da produção, a indústria nacional sofrerá muito. Enquanto o modelo envolver operação de montagem SKD e CKD, do jeito que está elaborada hoje, o negócio deles pode prevalecer, o que seria muito ruim para a indústria porque é um modelo facilmente replicável por qualquer empresa ocidental já instalada diante da capacidade ociosa que a China tem”.
Tanto é facilmente replicável que exemplos começam a aparecer. No fim do ano passado modelos 100% elétricos Chevrolet começaram a ser montados no Pace, Polo Automotivo do Ceará, mantido pela Comexport. Importados da China com o aval da General Motors.
A Stellantis mesmo se movimenta para algo semelhante, com a montagem de veículos eletrificados Leapmotor em Goiana. “É um primeiro movimento nosso alinhado com o dos outros chineses que têm vindo pra cá. Temos a possibilidade de usar nosso parque de fornecedores, mas só se for uma vantagem competitiva para nós”.
Zola não descarta localizar a produção gradualmente no futuro: todas as possibilidades ainda estão na mesa. Mas alerta:
“Se este modelo de negócio, CKD e SKD, for mais atraente, utilizaremos também. O objetivo de uma indústria é tornar seu futuro viável, ter rentabilidade e gerar mais investimento. Sem isso não tem futuro. E para ter esta rentabilidade e futuro precisamos utilizar as mesmas armas dos nossos concorrentes”.