Poucos setores industriais conseguem, ao mesmo tempo, contar a história de um país e projetar seu futuro com a mesma intensidade. A indústria automotiva brasileira é um desses raros casos no mundo.
Neste 2026 dois marcos se encontram de forma simbólica: os 70 anos da criação da Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, e a sua chegada à marca de 100 milhões de veículos produzidos no Brasil, volume que, por si só, posiciona o País em um grupo restrito de nações que conseguiram construir, ao longo de décadas, uma base industrial automotiva robusta, diversificada e tecnologicamente relevante.
De projeto de Estado a pilar da economia – mais do que números estes marcos representam trajetória que ajudou a moldar a própria industrialização brasileira. A indústria automotiva brasileira nasceu como estratégia. Não foi um movimento espontâneo de mercado, mas uma decisão estruturada de política industrial, iniciada no segundo período de governo de Getúlio Vargas e abraçada pelo governo Juscelino Kubitschek.
A criação da Anfavea, em 1956, organizou este esforço. Ao longo das décadas seguintes a entidade atuou como elo permanente das montadoras com o governo, ajudando a construir modelo baseado em substituição de importações, proteção de mercado, nacionalização de componentes e forte coordenação institucional.
Mas a importância da Anfavea ultrapassou, desde cedo, os limites do próprio setor automotivo. De certa forma a entidade transformou-se, também, em uma espécie de laboratório permanente para o governo brasileiro em temas ligados à industrialização, modernização regulatória e organização setorial.
Muitas discussões que hoje parecem naturais no ambiente industrial brasileiro passaram, em algum momento, pela experiência acumulada da relação da indústria automotiva com o poder público. Questões ligadas a políticas tributárias, segurança veicular, emissões, certificações técnicas, campanhas de recall, rastreabilidade e padronização regulatória foram, em diferentes momentos, desenvolvidas ou amadurecidas a partir deste diálogo constante da Anfavea com o Estado brasileiro.
A forma organizada de interlocução construída pela Anfavea, baseada sempre em estudos técnicos, negociação permanente e construção de consensos tornou-se, ao longo do tempo, inspiração para outras associações industriais e empresariais.
E talvez um dos aprendizados mais importantes dessa trajetória tenha sido justamente a compreensão de que a simples resistência raramente produz avanços duradouros. A lógica que passou a prevalecer foi outra: vamos fazer ou, pelo menos, vamos tentar fazer. Esta postura pragmática ajudou o setor a atravessar diferentes governos, crises econômicas e mudanças tecnológicas profundas ao longo do tempo.
CRESCER, RESISTIR, REINVENTAR
Esta reportagem foi publicada na edição 432 da revista AutoData, de Maio de 2026. Para lê-la completa clique aqui.