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Nova corrida da eletrificação passa pela preservação da cadeia automotiva brasileira

Gastón Diaz Perez, presidente e CEO da Bosch para a América Latina, e Tiago Tasso, diretor geral da Moura, participaram do Anfavea Visions

São Paulo — A cadeia automotiva brasileira vive um momento decisivo. E, ao contrário do que muitas vezes se imagina, o desafio da eletrificação não está restrito apenas ao desenvolvimento de novos veículos ou à chegada de novas tecnologias. A grande discussão passa, agora, e cada vez mais, pela capacidade de o País manter localmente competências industriais, engenharia, produção e desenvolvimento tecnológico ligados aos sistemas eletrônicos e baterias que começam a redefinir o automóvel moderno.

Foi o centro das discussões do painel sobre investimentos, talento e localização na cadeia de autopeças realizado durante o Anfavea Visions, que reuniu dois importantes representantes do setor: Gastón Diaz Perez, presidente e CEO da Bosch para a América Latina, e Tiago Tasso, diretor geral da Moura.

Estruturas produtivas competitivas

Os dois executivos dividem a opinião de que o avanço da eletrificação no Brasil dependerá diretamente da capacidade da indústria de combinar investimentos produtivos, desenvolvimento tecnológico e boa formação de mão de obra especializada. Ao abordar os desafios da transformação tecnológica da indústria automotiva Perez ressaltou que a Bosch vem realizando investimentos no Brasil da ordem de R$ 1 bilhão em digitalização, novas linhas produtivas e adaptação tecnológica para atender às novas demandas da mobilidade eletrificada e conectada.

Segundo ele o projeto atual passa não apenas pela expansão industrial tradicional mas, principalmente, pela criação de estruturas produtivas mais flexíveis, capazes de operar de maneira competitiva mesmo com volumes menores de produção, realidade que ainda caracteriza parte do mercado brasileiro de veículos eletrificados.

O executivo destacou também a importância crescente da engenharia brasileira dentro da estrutura global da companhia. Um dos exemplos citados foi justamente o desenvolvimento local de tecnologias aplicadas ao primeiro veículo híbrido equipado com tecnologia flex recentemente lançado na Índia, projeto que utilizou sistemas e componentes desenvolvidos e produzidos pela Bosch no Brasil, demonstrando a capacidade da engenharia nacional de participar de programas globais de eletrificação.

A formação de talentos apareceu como outro tema central da discussão. Perez revelou que a Bosch realizou recentemente um processo seletivo para cerca de quatrocentas vagas ligadas à área digital, recebendo aproximadamente 22 mil currículos. Segundo ele o índice de retenção dos profissionais formados ultrapassou 90%, evidenciando tanto a demanda crescente por especialistas quanto a importância estratégica da capacitação contínua.

De acordo com Perez a companhia mantém atualmente dezenas de engenheiros dedicados exclusivamente ao desenvolvimento de soluções relacionadas a baterias, energia e eletrônica embarcada, além de parcerias permanentes com universidades e instituições técnicas.

Retorno de médio e longo prazo e localização produtiva

Na avaliação dos participantes do painel o desenvolvimento de competências locais possui horizonte de retorno de médio e longo prazo, mas representa condição fundamental para que o Brasil continue relevante dentro da nova cadeia global automotiva.

Tiago Tasso, diretor geral da Moura, reforçou que a transformação do setor exige visão estratégica e investimentos consistentes em inovação e reciclagem, mencionando os investimentos realizados pela companhia em digitalização industrial. E destacou o projeto da nova planta recicladora, que a empresa estabelecerá brevemente e que deverá receber aporte superior a R$ 800 milhões.

Ainda segundo Tasso o fortalecimento da cadeia nacional de baterias dependerá diretamente da ampliação do conteúdo local e da capacidade de criar ecossistema produtivo mais integrado e competitivo.

A discussão também avançou sobre o papel da localização produtiva na preservação da indústria automotiva brasileira diante do aumento da competição internacional e das constantes mudanças tecnológicas. Tanto Gastón Diaz Perez como Tiago Tasso acreditam na construção de pactos de longo prazo capazes de ampliar o adensamento da cadeia produtiva nacional, estimular exportações e garantir escala industrial para os investimentos.

Apesar das preocupações com inflação, juros elevados, barreiras comerciais e instabilidade regulatória os dois executivos transmitiram visão relativamente otimista sobre a capacidade de adaptação da indústria brasileira. A avaliação predominante foi a de que o Brasil possui competência técnica, engenharia qualificada e experiência industrial suficientes para participar de forma relevante da nova era da mobilidade.

Mas também ficou claro que velocidade de adaptação, coordenação setorial e previsibilidade serão decisivas para impedir a perda de competitividade e evitar o esvaziamento da cadeia local de valor.

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