São Paulo — Ao mesmo tempo em que as montadoras há mais tempo instaladas no Brasil preparam seus parques industriais para produzir modelos com mais tecnologia, com os investimentos anunciados desde 2024 puxados pelo Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação, um grande volume de veículos importados, a maior parte chineses, entra no mercado a preços mais baixos. Para Ciro Possobom, presidente e CEO da Volkswagen do Brasil, este cenário continuará pressionando as vendas e poderá estender seus efeitos até 2027.
O desafio das fabricantes que já estavam aqui há décadas é diferente do encontrado pelas entrantes, avaliou o executivo: elas precisam adaptar estruturas industriais complexas para uma nova realidade tecnológica. E a chegada das novas marcas ocorreu justamente durante este período de transição:
“Nós estamos fazendo isto, a GM está fazendo, a Hyundai está fazendo, a Toyota está fazendo. Todo mundo está se adaptando”, afirmou a jornalistas durante o Anfavea Visions, evento organizado pela associação das montadoras. “A plataforma nova de eletrificados que estamos trazendo é de altíssimo padrão, não deve nada aos novos concorrentes. Só que isso requer um tempo de adequação”.
O mercado continuará a crescer, projetou o CEO, mas dentro de uma pressão grande de redução de preços. Este cenário está forçando descontos e promoções em praticamente todas as marcas: “O mercado cresce. Já cresceu 18% até maio, enquanto a Volkswagen cresceu 20%. Eu acho que vai continuar nessa batida até o final do ano”.
Na avaliação do executivo a recomposição gradual do imposto de importação não será suficiente para aliviar a pressão provocada pelos veículos que já chegaram ao País. “Eu acho que reduz, mas não imediatamente. Eles têm que escoar cerca de 300 mil carros. Muita gente importou muito. Então o segundo semestre será pesado, até o ano que vem ainda deverá ser pesado por causa disso”.
CKD e SKD preocupam mais do que a desindustrialização
Embora descarte um risco imediato de desindustrialização do setor automotivo brasileiro, Possobom demonstrou preocupação com a expansão de projetos excessivamente dependentes de importações. Segundo ele, alguns projetos parecem competitivos apenas porque se beneficiam de condições conjunturais.
“Existe uma onda grande de começar a trazer mais peças de fora. Muitas vezes o planejamento só para de pé porque você tem uma alíquota mais baixa e uma taxa de câmbio mais favorável. Vejo empresas não localizando aqui porque a taxa de câmbio está mais baixa e eu acredito que isso não é sustentável”.
Para o CEO da VW do Brasil a volatilidade cambial continua sendo uma das maiores ameaças para projetos industriais de longo prazo. “Ninguém imaginava um câmbio a R$ 4,90 há quinze dias. Agora o câmbio está em R$ 5,20. Qualquer confusão pode levar para R$ 5,50 facilmente.”
O executivo defende que a indústria trabalhe com projetos capazes de resistir aos ciclos econômicos. “Eu preciso ter uma coisa sólida, um negócio mais durável.”
Volkswagen avalia tecnologias desenvolvidas na China
A operação da Volkswagen na China também se tornou uma importante fonte de tecnologia para o grupo. Possobom afirmou que futuras plataformas destinadas ao mercado brasileiro podem ter origem chinesa. “Talvez não tragamos uma plataforma elétrica da Europa. Pode ser uma plataforma Volkswagen da China, adaptada à realidade do Brasil.”
Segundo ele a evolução dos produtos desenvolvidos naquele país foi significativa nos últimos anos. O executivo lembrou que a primeira geração de elétricos da marca enfrentou desafios importantes. Mas agora a situação mudou. “O que está vindo agora é muito diferente. Com um custo muito diferente.”
Etanol continua no centro da estratégia brasileira
Questionado sobre a possibilidade de novas soluções baseadas em etanol, como o Chevrolet Onix Eco, Possobom evitou confirmar projetos específicos da Volkswagen, mas reconheceu que o tema voltou a ganhar relevância diante dos incentivos previstos nos programas governamentais. “A solução do etanol sempre existe. A questão é verificar se o consumidor está preparado para isso.”
Segundo ele, a Volkswagen acompanha a evolução do mercado e avalia oportunidades criadas pelas novas regras de incentivo à descarbonização. O CEO afirmou que os benefícios tributários concedidos a tecnologias associadas ao biocombustível podem estimular a demanda por esse tipo de solução. “Com as regras agora do Mover, o etanol tem uma vantagem fiscal. Isto pode ajudar realmente a motivar o consumidor a buscar uma solução baseada em etanol.”
Apesar disso, o executivo não confirmou novos produtos, cronogramas de lançamento ou programas específicos relacionados ao combustível renovável. A única sinalização foi que a montadora segue observando o comportamento do mercado antes de tomar decisões.




