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Crescer não basta: o Brasil precisa transformar o mercado em indústria.

O verdadeiro desafio não é apenas vender mais veículos: é garantir que este crescimento se traduza em produção local, empregos, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da cadeia de fornecedores.
Congresso AutoData Revisão das Perspectivas 2026

Os números apresentados durante o Congresso AutoData Revisão das Perspectivas 2026, realizado em 28 de julho, em São Paulo, deixam poucas dúvidas: a indústria automobilística brasileira voltou a crescer e o mercado deverá encerrar o ano próximo de 3 milhões de veículos vendidos, resultado muito superior às previsões formuladas no início do ano.

O consumidor voltou às concessionárias, o crédito apresentou sinais de recuperação e programas governamentais estimularam a renovação da demanda. Com tudo isso meio que acontecendo ao mesmo tempo ao longo do primeiro semestre deste ano seria até natural imaginar que esse cenário bastasse para justificar otimismo.

Mas as discussões realizadas ao longo do seminário revelaram uma realidade, no meu ponto de vista, um pouco mais complexa: o verdadeiro desafio da indústria brasileira já não é apenas vender mais veículos. É garantir que este crescimento se traduza no futuro em produção local, empregos, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da cadeia de fornecedores.

Entendo que estamos vivendo no Brasil e, em particular, no seu setor automotivo, um período de transformação sem precedentes. Novas montadoras estão chegando, especialmente asiáticas, trazendo junto com elas tecnologias, modelos de negócio e uma competitividade que, é verdade, temos que reconhecer, beneficia muito o consumidor.

Este movimento é positivo e irreversível. Isto porque o Brasil realmente precisa continuar atraindo investimentos externos e inserindo-se nas novas cadeias globais de valor se quiser se desenvolver no futuro. Mas, ao mesmo tempo, essa nova realidade já está exigindo, na minha opinião, a criação de uma política industrial igualmente moderna.

Neste sentido talvez a contribuição mais provocativa do seminário tenha vindo de Ricardo Roa, sócio da KPMG, que defendeu a ideia de que a indústria brasileira de autopeças precisa ampliar acordos estratégicos com empresas estrangeiras, especialmente chinesas, para continuar sendo competitiva e, porque não dizer, continuar próspera.

Trata-se realmente de uma visão muito pragmática pois, em um mundo cada vez mais integrado, competitividade também significa cooperação tecnológica, compartilhamento de conhecimento e acesso a novas plataformas produtivas.

Mas tenho a certeza de que essa abertura não elimina outra necessidade: preservar e fortalecer a capacidade produtiva instalada no Brasil, algo que, tenho certeza, é muito importante principalmente para a geração de empregos de qualidade. E, isto, em um País em desenvolvimento como é o nosso, é um elemento com que também precisamos estar sempre atentos.

Foi exatamente esta preocupação de preservar a indústria brasileira que apareceu principalmente nas manifestações do Sindipeças, da BorgWarner e da Cummins. A cadeia nacional perdeu fornecedores importantes durante as crises da última década e, em muitos casos, componentes deixaram simplesmente de ser fabricados no País. Reconstruir essa base exigirá, portanto, tempo, escala, previsibilidade e investimentos.

Nesse contexto a discussão sobre os ex-tarifários ganha importância estratégica. O mecanismo é necessário quando permite importar componentes inexistentes no mercado brasileiro, tornando viáveis investimentos e mantendo a competitividade da indústria instalada no País. Sua utilização, entretanto, perde sentido quando passa a beneficiar, por longos períodos, produtos que poderiam ser fabricados localmente.

Nestes casos o instrumento deixa de suprir uma deficiência temporária e passa a desestimular exatamente aquilo que deveria incentivar: a nacionalização da produção. E atenção: isto está acontecendo em larga escala hoje no setor automotivo brasileiro e não só por parte das montadoras chineses que estão chegando. As próprias montadoras tradicionais e as empresas sistemistas já há muito tempo instalados no País estão fazendo uso, acho que não é exagero afirmar, quase que excessivo deste instrumento.

Não estou aqui insinuando que temos de defender reserva de mercado nem de dificultar a chegada de novas empresas. É óbvio que o Brasil precisa continuar aberto ao investimento estrangeiro, à inovação, à concorrência internacional e abertura de novos mercados, principalmente em um momento geopolítico delicado como esse que estamos vivendo em todo o mundo.

Mas também tenho a certeza de que essa abertura precisa, obrigatoriamente, caminhar ao lado de políticas que estimulem conteúdo local, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da cadeia de fornecedores.

Por tudo isto quero deixar aqui uma proposta à medida que considero que a pergunta que precisa orientar os próximos anos talvez seja simples: queremos apenas um mercado consumidor cada vez maior ou pretendemos consolidar uma indústria automotiva igualmente mais forte?

A resposta para isto determinará o papel do Brasil na nova geografia mundial da mobilidade. Se conseguirmos combinar segurança jurídica, ambiente competitivo, parcerias internacionais, acesso à tecnologia e mecanismos inteligentes de incentivo à produção nacional o crescimento do mercado poderá transformar-se em desenvolvimento industrial sustentável.

Caso contrário corremos o risco de, simplesmente, celebrar recordes de vendas enquanto assistimos, lentamente, à perda de relevância da nossa própria cadeia produtiva. Tenho a certeza de que este caminho não é bom para um País cujo desenvolvimento ainda depende da criação de empregos de qualidade nos próximos anos.

aumovio

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