São Paulo — A abertura econômica promovida pelo governo de Javier Milei está redesenhando o mercado automotivo argentino. A avaliação é de Andrés Civetta, especialista em mobilidade da consultoria Abeceb, durante palestra no Congresso AutoData Revisão das Perspectivas 2026.
Segundo o executivo a redução das exportações brasileiras para a Argentina não decorre de novas restrições comerciais mas de uma transformação estrutural do mercado argentino, marcada pela liberalização da economia, pela entrada de novos concorrentes e pela mudança no comportamento do consumidor.
“Existe queda das exportações de veículos brasileiros para a Argentina, mas não se trata de um problema como houve em outros momentos, como algum tipo de restrição imposta às importações pelo governo. Desta vez é um fenômeno que tem mais a ver com o mercado.”
Para fazer entender este cenário Civetta destacou três fatores centrais: o contexto geopolítico mundial, as mudanças econômicas internas da Argentina e os desafios de competitividade enfrentados pela indústria local: “O mundo está em uma situação de geopolítica de alta tensão. Essa situação impacta sobretudo as cadeias de valor, o fornecimento de componentes e os fluxos de comércio dos países”.
Ao mesmo tempo o especialista da Abeceb ressaltou que a América Latina permanece relativamente protegida destes conflitos por produzir, em grande parte, para o próprio mercado regional.
“O outro elemento é que a Argentina está passando por um processo de mudança de regime econômico. Há dois anos colocou em ordem sua macroeconomia e realizou um redirecionamento dos incentivos que redefinem a forma de fazer negócios no país.”
A indústria argentina também enfrenta dificuldades para manter sua competitividade: “Temos uma taxa de câmbio alta na economia argentina e um mercado cada vez mais aberto, o que tem obrigado as empresas argentinas a serem muito mais competitivas”.
Segundo a Abeceb essa perda de competitividade já aparece na produção destinada ao Brasil: “Nos carros, por exemplo, temos visto cair a participação argentina no mercado brasileiro em modelos que até o ano passado exportávamos, como Fiat Cronos, Peugeot 208 e Peugeot 2008”.
Já o segmento de picapes médias e veículos comerciais leves continua sendo um ponto forte da indústria argentina, “é onde a Argentina continua liderando o mercado latino-americano, com bons volumes de produção e exportação”.
Mercado entra em fase de estabilidade
Apesar da previsão de retração em 2026 Civetta afirmou que o mercado argentino caminha para uma estabilização em níveis considerados históricos.
A expectativa da Abeceb é de que o mercado encerre 2026 com 551 mil veículos vendidos, queda de 10% sobre 2025, quando foram comercializadas 612 mil unidades. Para 2027 a consultoria projeta recuperação de 5,4%, chegando a 581 mil veículos.

“Como fotografia poderíamos pensar que é um ano ruim porque temos queda na venda de veículos. No entanto é preciso considerar que durante os anos anteriores a Argentina teve um mercado que não ultrapassava as 400 mil unidades.”
Para ele o mercado retorna ao seu padrão histórico: “Acreditamos que entramos em um processo de estabilidade do mercado, cuja média de longo prazo é de 550 mil a 650 mil veículos por ano”.
Importados
Um dos principais efeitos da abertura econômica foi o aumento expressivo da participação dos veículos importados. Segundo a Abeceb os importados responderão por 70% das vendas de veículos na Argentina em 2026, ante 50% em 2024 e cerca de 30% antes do governo Javier Milei.
“Antes da entrada do presidente Milei a participação dos importados era muito baixa, em torno de 30%. Após o processo de abertura voltamos a um patamar de 70%, que é um valor médio do que tivemos historicamente.”
Para Civetta essa mudança ajuda a entender a perda de espaço das montadoras brasileiras: “A participação que o Brasil teve em nosso mercado em 2024 girava em torno de 70%. Este ano está em torno de 45%”.
Segundo ele o aumento da concorrência internacional ampliou a oferta de veículos no país: “Estamos assistindo a um mercado muito ofertado, com uma grande variedade de modelos. Essa oferta tira espaço de alguns veículos argentinos e também de modelos brasileiros”.
O especialista ressaltou que a maior abertura comercial favoreceu principalmente a chegada de fabricantes chineses, que passaram a disputar espaço com produtos eletrificados: “A Argentina criou uma cota de importação de 50 mil veículos eletrificados por ano com tarifa zero para importações extrazona. Em um mercado de 500 mil veículos isto representa 10% do mercado”.
Crédito segue como principal desafio
As projeções macroeconômicas da ABECEB apontam crescimento moderado da economia argentina nos próximos anos. A consultoria estima expansão do PIB de 2,9% tanto em 2026 quanto em 2027. A inflação deve recuar de 29,7% neste ano para 19,1% em 2027, e a taxa Badlar, referência dos juros no país, deve cair de 19,3% para 15%.
Mesmo assim Civetta considera que o principal entrave ao setor automotivo continua sendo o financiamento: “Este é, hoje, o elemento mais difícil e o que mais está afetando o mercado automotivo argentino: a taxa de juros”.
Segundo ele o aumento da inadimplência reduziu a oferta de crédito. Os dados apresentados mostram que as vendas financiadas caíram para 45,8% do mercado no segundo trimestre de 2026, retração de 21% na comparação anual e perda de 2,6 pontos percentuais.
“Hoje estamos sofrendo um problema de financiamento. Isso afetou particularmente o mercado automotivo e explica parte dessa queda de 10% nas vendas.”
Outro reflexo do excesso de oferta aparece nos preços dos veículos: “Os preços crescem muito abaixo dos preços gerais da economia. Não há margem para aumentar preços no mercado automotivo”.
Segundo ele o setor enfrenta simultaneamente excesso de oferta e retração da demanda: “Temos um duplo efeito: um excesso de oferta em nosso mercado e uma falta de demanda. Ainda assim o mercado continua caindo”.


















