São Paulo — A Vidroforte pretende mudar a maneira como as encarroçadoras de ônibus recebem e instalam as janelas dos veículos. Desenvolveu a linha Prisma, que reúne vidro, estrutura de alumínio, sistema de abertura, articulação, travas e vedação em um único módulo, pronto para ser instalado na linha de produção. A proposta é substituir um processo que hoje envolve diferentes fornecedores e etapas internas das fabricantes de carrocerias.
Em entrevista à Agência AutoData José Maurício Toledo, CEO da Vidroforte, afirmou que a mudança atende a uma transformação que a empresa já identificava havia cerca de oito anos no mercado de ônibus, com as encarroçadoras assumindo cada vez mais o papel de montadoras e transferindo parte da produção para fornecedores especializados.
“As encarroçadoras de ônibus trabalhavam com a produção interna de janelas. Compravam o vidro de um fornecedor, a estrutura de alumínio do outro, puxador, articulação, borracha. Era uma cadeia que fornecia os componentes para eles montarem o sistema internamente.”
De acordo com Toledo a janela acabou ficando em segundo plano dentro da produção das carrocerias. “Nunca foi um produto muito bem resolvido. Mesmo nas principais marcas do mercado, sempre tinha problema de ruído, entrada de pó, água, e questão de atender normas de segurança também.”

De vários fornecedores a um único módulo
Foi a partir dessa percepção que a Vidroforte começou a desenvolver a solução. Representantes fizeram viagens à China, Espanha, Alemanha, Turquia e Estados Unidos para conhecer fabricantes e sistemas utilizados em outros mercados. A Espanha, segundo Toledo, é hoje uma das principais referências europeias na produção de janelas para ônibus.
A tecnologia, porém, não foi simplesmente reproduzida no Brasil. A empresa adaptou o conceito às características dos veículos produzidos no País, inclusive à elevada variedade de configurações. “Lá existia a questão de vidro duplo para controle de temperatura. São países mais frios, não é muito o nosso caso aqui.”
A solução brasileira também incorporou componentes desenvolvidos especificamente para o mercado nacional. Uma das diferenças está no sistema de vedação. Em vez de reproduzir o mecanismo encontrado nas janelas europeias, a Vidroforte buscou referência em sistemas pneumáticos.
“O sistema de vedação não foi inspirado na Europa. Foi inspirado no mesmo sistema de vedação usado hoje em sistemas pneumáticos, chamados de gaxeta. O pistão pneumático veda o ar, consequentemente não passa nada de água”. Segundo ele, o mecanismo permite reduzir o esforço necessário para abrir e fechar a janela. “Temos uma vedação labial, que é muito mais eficiente. Gera menos pressão para fechamento e é muito mais leve para abrir e fechar a janela
Outra adaptação está no sistema de articulação. Na solução convencional, a janela basculante é sustentada em dois pontos laterais. Na Prisma a empresa desenvolveu um sistema de encaixe ao longo do perfil. “Efetivamente, diminui o desgaste das duas pontas. Se a janela tiver 500 milímetros de comprimento, todo esse esforço, essa vibração, é diluído nesses 500 milímetros.”
A estrutura também foi desenvolvida para reduzir a exposição do alumínio. “O alumínio fica todo na parte interna do vidro. Para a parte externa do carro, somente vidro”. A mudança, segundo Toledo, ajuda tanto no desenho da janela quanto na durabilidade, especialmente em veículos que circulam em regiões litorâneas, onde a corrosão do alumínio é um problema.
Ganho de produtividade
O impacto sobre a produtividade já foi medido pela empresa em uma das encarroçadoras que avalia a solução. Segundo Toledo a fabricante estimou que a utilização do kit completo poderia acrescentar um ônibus por dia à produção. Ou seja, o ganho não está necessariamente em reduzir o preço da janela, pois em uma cotação realizada com uma encarroçadora, o componente ficou cerca de 8% mais caro que a produção interna. Mas o ganho em produtividade pode tornar a mudança compensatória.
A operação, por outro lado, exigiu mudanças na própria Vidroforte. Com a entrega de módulos completos, a empresa precisa separar diferentes componentes, montar os kits, embalar e garantir que o conjunto chegue corretamente à linha de produção.
A empresa já trabalha em projetos de RFID para controle de estoque e expedição e também em novas soluções de embalagem.
Primeiros projetos e demanda
A linha Prisma ainda está em fase inicial de homologação. A Vidroforte já exportou unidades para a Argentina, para a encarroçadora Saldivia, e mantém dois projetos em teste com encarroçadoras brasileiras, que ainda não autorizaram a divulgação dos nomes. A expectativa da empresa é concluir as primeiras homologações brasileiras nos próximos meses.
A capacidade instalada atualmente é de cerca de 300 janelas por dia, mas pode ser ampliada com novos turnos. O mercado brasileiro de ônibus, segundo a estimativa apresentada pelo executivo, demanda de 500 a 600 janelas por dia, dependendo dos modelos produzidos.
A aplicação, porém, não ficará restrita aos ônibus. A mesma tecnologia poderá ser utilizada em motorhomes e vans, incluindo veículos transformados. A meta da Vidroforte é chegar ao fim de 2027 produzindo pelo menos 300 janelas por dia. “No final de 2027 projetamos que a linha de janela represente pelo menos 40% do nosso faturamento.”
Investimentos
O desenvolvimento da Prisma fez parte de um ciclo mais amplo de investimentos da Vidroforte. A empresa aplicou R$ 9 milhões em 2025 na estrutura produtiva, incluindo melhorias em processos de impressão digital, têmpera, lapidação e corte, além da preparação necessária para a nova linha. A empresa também planeja novos investimentos para 2027, como a ampliação da capacidade de produção de para-brisas, novos produtos e automação de processos administrativos com inteligência artificial.
A Prisma também deverá ganhar novos produtos. Segundo o executivo, a empresa já trabalha em conceitos de janelas de correr e teto solar que utilizarão o mesmo sistema de vedação.
A entrada no fornecimento de módulos completos também está alterando a estrutura interna da Vidroforte. A empresa criou uma área dedicada a pesquisa e desenvolvimento de produtos e passou a trabalhar mais próxima das encarroçadoras desde as fases iniciais de projetos. A área comercial também está sendo reformulada, com a contratação de executivos de vendas que terão uma atuação mais técnica e voltada ao desenvolvimento de projetos futuros.
A estratégia também está ligada à expansão internacional. Além da Argentina, a empresa já apresentou a solução a encarroçadoras do Peru e da Colômbia e pretende avançar para o México. Para 2027, a meta é levar a Prisma a outros mercados europeus. Lá o executivo vê espaço principalmente pelo ganho de competitividade da solução.























